“Vi quando o crime se aproximou da política”, diz Marcelo Freixo

Livro biográfico revela bastidores da origem do poder das milícias e de investigações que mudaram o curso do debate público no rio e no país

Por Renata Magalhães 10 abr 2026, 10h38 | Atualizado em 10 abr 2026, 10h44
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Marcelo Freixo: “Meu irmão foi assassinado há vinte anos, e nunca tinha aprofundado o que isso significou pra mim”  (Marcio Menasce/Divulgação)
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  • Durante a infância, Marcelo Freixo acreditava que a máquina de costura da avó era uma nave espacial. Enquanto ela trabalhava, inventava histórias que despertaram no neto a paixão pela narrativa. Às vésperas de completar 59 anos, ele lança seu primeiro livro neste sábado (11), no qual revisita a própria trajetória e revela bastidores dos confrontos com o crime organizado e a corrupção no Rio.

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    O título, Viver É Perigoso, faz referência a Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, evocando a ideia de que não há existência sem risco. Publicada pela Editora Planeta, a obra vai das negociações em presídios à criação da CPI das Milícias, atravessando momentos decisivos, como o assassinato do irmão Renato e da vereadora Marielle Franco — durante a entrevista à VEJA RIO, ele mostrou um santinho que guarda desde a primeira campanha eleitoral daquela que foi sua maior companheira política.

    A conversa aconteceu um dia depois do carioca encerrar seu ciclo à frente da Embratur para concorrer a deputado federal nas próximas eleições, um período em que o turismo brasileiro bateu recordes, fechando 2025 com 9,3 milhões de visitantes internacionais.

    O que essas páginas trazem de revelador? É um diagnóstico profundo de casos já conhecidos, mas que se aprofunda nos bastidores. Um exemplo é a rebelião no Complexo Penitenciário de Bangu em 2002 (liderada pelo Fernandinho Beira-Mar, do Comando Vermelho), que culminou com os principais líderes do tráfico espalhados pelos presídios federais. A consequência foi a nacionalização das facções. São episódios do passado que explicam o nosso presente. O livro demorou a ser concluído, pois sempre acontecia alguma coisa — afinal, por aqui se morre até de bala perdida, mas nunca de marasmo. 

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    Os leitores também vão conhecer outro lado seu? Sim. A minha juventude, que dialoga com a de muitos jovens hoje. Todas as barreiras invisíveis que alguém de origem simples é obrigado a enfrentar quando ocupa um espaço que, a princípio, não seria  seu. Há também meu lado professor, inclusive dentro das prisões onde dei aula, e por isso passei a mediar rebeliões. 

    Como decidiu narrar os episódios mais violentos? Toda a obra é em primeira pessoa, partindo das minhas experiências para tratar do coletivo. Meu irmão foi assassinado há exatamente vinte anos e nunca tinha aprofundado o que isso significou para mim. Foram acontecimentos decisivos — não só pelo que me fizeram sentir, mas pelo modo como me fizeram agir. 

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    Esse foi o episódio mais difícil que você viveu? Com certeza. Fui o primeiro a chegar ao hospital, fiz o reconhecimento do corpo e passei uma noite sozinho junto a ele. Meu pai ficou doente logo em seguida e nunca conseguiu se recuperar. Foi no ano em que me candidatei a deputado pela primeira vez e sou eleito com essa morte absolutamente impregnada. Na Alerj, encontro vários nomes que representavam o que destruiu a minha família, e tenho que chamá-los de “Vossa Excelência”. A CPI das Milícias nasce a partir de um fato pessoal que nunca havia explorado.

    O que a morte de Marielle Franco revelou sobre a cidade? Começo o livro com o julgamento do Ronnie Lessa (assassino confesso da vereadora), quando ele diz abertamente que o atentado era para me atingir. É a banalidade do mal, como escreveu Hannah Arendt. A gente precisa abrir esse debate no Rio. Não é só uma questão de ordem pública, mas um desafio muito maior. Ronnie Lessa, Adriano da Nóbrega (ex-capitão da PM) e Cristiano Girão (ex-vereador) são personagens mais presentes na cidade do que o Cristo. 

    Como é viver sabendo que desejam a sua morte? Não é simples. Desde a CPI das Milícias, em 2008, ando com seguranças. Minha filha tem 27 anos e nunca me viu sem escolta. As escolhas que fiz me tiraram coisas simples, como ir à praia ou a um bloco de Carnaval. Nunca banalizei essa situação, mas aprendi a conviver. 

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    De onde tira o incentivo para persistir? Quando olho para o meu neto. Não quero que ele viva em um lugar dominado pela milícia. Eu vi quando o crime se aproximou da política e fui um dos primeiros a denunciar isso. Viver exige coragem e, por isso, o título é Viver É Perigoso. 

    Não é contraditório chamar turistas para a cidade que te infligiu tanta violência? Entrei na Embratur com desconfiança, acreditando ser algo diferente do que vinha fazendo, mas encerro esse ciclo vendo que não são coisas tão distintas. Montamos um centro de inteligência inédito e conquistamos os melhores resultados da história, levando o debate do turismo a lugares onde isso não existia, como Vila Isabel, Oswaldo Cruz e Madureira. 

    Uma tentativa de mostrar o que há além dos problemas socioeconômicos? Sim. Pela primeira vez, entrei na favela não através da dor ou da tragédia, mas em busca de alegria e esperança. Foi um grande aprendizado, pois não me afastei dos valores que sempre conduziram a minha vida. Fiz um trabalho de base comunitária nas favelas, incitando jovens a serem guias, não moleques do trânsito. 

    O que pensa sobre as críticas ao excesso de visitantes e a comparação com lugares como Barcelona? Isso está muito distante da nossa realidade. As notícias que recebemos são positivas, ligadas à geração de emprego e renda. É óbvio que demanda planejamento, e não dá para pensar na Amazônia, no Pantanal, nas Cataratas ou numa grande cidade da mesma forma. Hoje, o segmento representa 8% do PIB, enquanto o petróleo responde por 12% — prefiro apostar no turismo, de uma forma Marcio Menasce responsável e que traga soluções, não problemas. 

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