Deborah Colker: “A dor é inevitável”
De volta aos palcos com Remix, que reúne trechos dos seus espetáculos mais famosos, a coreógrafa fala sobre resiliência em meio a um período de lutos
No ano passado, Deborah Colker foi agraciada com o título de Cidadã Honorária de Mesquita, cidade na Baixada Fluminense. No dia da cerimônia, crianças que se dedicam à dança fizeram uma apresentação inspirada em espetáculos da sua premiada companhia. Assim surgiu a ideia de Remix, que reestreia no domingo (11), na Cidade das Artes, trazendo as coreografias mais icônicas dos 33 anos do grupo.
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Em cena, bailarinos executam passos precisos em meio a noventa vasos e desafiam as leis da física em uma roda com cinco metros de diâmetro. Para criar a montagem, a coreógrafa precisou voltar o olhar para sua história, em meio a duras batalhas pessoais: a perda do neto Theo, que conviveu por 16 anos com a epidermólise bolhosa, e a recuperação do marido Toni Platão, que teve um AVC em 2024.
Enquanto acompanhava um ensaio na sede do grupo na Glória, Deborah, que também estreia na sexta (9) o documentário Cão Sem Plumas no Festival do Rio — um road movie sobre as oficinas ministradas em cidades ao longo do Rio Capiberibe, em Pernambuco —, conversou com VEJA RIO sobre a fama de durona que carrega e como vem se permitindo ser mais frágil.
Você diz que remontar um espetáculo não é só repetir movimentos, mas recuperar o pensamento que deu origem a eles. É fácil reencontrar ideias de mais de trinta anos? O espetáculo não funciona como um balanço, mas como uma bússola: ao voltar, reencontro o corpo, a memória da época e uma paixão que continua viva em mim. Fazer Remix foi uma necessidade, num período complicado da minha vida, em que tive que olhar para dentro. Dancei várias daquelas coreografias e tenho hoje bailarinos que não eram nem nascidos quando lancei algumas. Por isso, não é só refazer, mas me reconectar com aqueles momentos.
O que a seleção de coreografias reunidas em Remix revela sobre o seu trabalho? São investigações sobre ímpeto, descontrole, equilíbrio, movimento e espaço. Essa produção carrega muito de quem eu ainda preciso ser: uma pessoa cheia de tragédias e esperanças, para quem a dança serve como cura. Tem ali dimensões que me constituem, como o fascínio pelo corpo de um lado e as emoções e a espiritualidade de outro. Eu, que estou com o luto tão presente, escolho viver ou morrer?
Seria então a montagem mais ousada da história da companhia? Quem fala isso é o João Elias, nosso diretor executivo e produtor, numa parte mais técnica. No intervalo, o bicho pega: em vinte minutos, precisamos retirar a montanha, a cortina e os noventa vasos do primeiro ato para montar uma roda e seis escadas. Mas pensando em linguagem, Remix também é um encontro de pesquisas bastante desafiador.
Você teve alguma surpresa no processo da montagem? Com a pungência criativa que eu estava na época desses espetáculos, em especial em Rota. É um desafio, até para os bailarinos mais experientes, por reunir balé clássico, dança contemporânea, acrobática e de rua. Muita gente na época do lançamento zombou dizendo que aquilo era circo.
Essa crítica tem a ver com o fato da dança contemporânea ainda ser uma arte menos prestigiada no Brasil? Não, acho que isso já passou. Mas há uma questão na dança em geral: as pessoas querem sempre colocar rótulos. Críticos internacionais já disseram que é difícil me encaixar. Fiz ópera em Nova Iork, dirigi o Cirque du Soleil e vivo de experimentações, mesmo não sendo uma artista nova. Quando fiz a parede em Velox, disseram que não era dança, mas esporte; com Casa, que era algo superficial… Estou acostumada com esses questionamentos.
Quais inquietações os próximos projetos vão refletir? O significado da morte — o que nos resta depois que alguém se vai e o que nos faz querer seguir. A dualidade que está sempre presente: bondade e maldade, fragilidade e força, vida e morte. E a presença do amor, mesmo nas situações mais fatais. Tenho em casa um marido reaprendendo a fazer o básico, como falar e andar, e percebo como esse sentimento só cresceu.
Como está a recuperação do Toni? Ele está evoluindo muito. É uma luta brava, que demanda um esforço gigantesco para uma resposta singela. Foi um aprendizado também sobre mim: perceber que tenho que me aquiescer, pois sou daquelas que quer fazer tudo acontecer rápido. Meu desejo é que ele levante, cante, dance, mas esse é o Toni que tenho agora.
Está se permitindo ser mais frágil? Estou aceitando que, às vezes, a gente perde. Ou que aquela luta simplesmente não era sobre ganhar ou perder. Podemos dar tudo de nós e, mesmo assim, as coisas vão acontecer como tinham que ser. A dor é inevitável. Estou acalmando minha onipotência e mudando meus valores — o que era importante na semana passada hoje já não é mais.
Vocês acabaram de voltar de Bangkok. Depois de ter cruzado o mundo, essas viagens ainda são transformadoras? Impossível ser protocolar num lugar como esse, em que eu não compreendia o idioma. Brincava com o Toni: “Tem um monte de gente embaralhando as palavras que nem você” (risos). Era Buda para tudo quanto é lado. Tem uma espiritualidade e uma ancestralidade forte. Visitei templos e chorei muito.
Mesmo com uma companhia de mais de trinta anos, ainda sente instabilidade? O tempo inteiro. Muda o governo, muda a cultura. Não pode ser assim. É duro ver as pessoas querendo derrubar a Lei Rouanet. Estamos em um pânico mundial com o avanço da extrema-direita e a influência de um cara como Donald Trump. Bolsonaro nem pensar, mas queria uma renovação. São oito anos de um, oito anos de outro, nada muda e nós ficamos presos no meio. A polarização que estamos vivendo é um absurdo.






