Dom Pedro Tiago de Orleans e Bragança: “Ser príncipe não é uma fantasia”
No centro de uma briga que mistura herança, memória e poder, o trineto da princesa Isabel comenta o conflito familiar, defende o laudêmio e a volta da monarquia
Uma disputa patrimonial envolvendo descendentes da chamada família imperial brasileira veio à tona nas últimas semanas. Tombado pelo Iphan desde 1930 e avaliado em 70 milhões de reais, o Palácio Grão-Pará, no Centro Histórico de Petrópolis, virou cenário de um conflito que envolveu policiais militares, fuzis e bombas de gás lacrimogêneo.
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De um lado, está o Príncipe Dom Pedro Tiago de Orleans e Bragança — cujo título real está registrado como nome próprio em seus documentos. Ele afirma residir no local desde o nascimento e ajuizou uma ação de usucapião. Do outro lado, a Companhia Imobiliária de Petrópolis, empresa que tem seu pai e seus tios no quadro societário, acusados de serem responsáveis por trocar as fechaduras do local, deixando o herdeiro sem acesso.
Após uma decisão da Justiça de reintegração de posse, Dom Pedro Tiago voltou ao casarão de treze quartos em estilo neoclássico, onde mora sozinho. Em entrevista a VEJA RIO diretamente do imóvel, ele contou detalhes do imbróglio, defendeu a permanência do laudêmio, taxa cobrada na transferência de propriedades da cidade, e falou sobre outro racha com os parentes da parte de Vassouras. Tetraneto de Dom Pedro II e trineto da princesa Isabel, ele ainda discorreu sobre o peso de carregar um sobrenome real — mesmo com o fim da monarquia há 136 anos.
O que sentiu quando quiseram te expulsar do palácio? Não foi fácil. É onde moro há 47 anos — fui batizado e minha mãe se casou aqui dentro. Um dia, seguranças da Companhia Imobiliária tentaram me impedir de entrar e chamaram a polícia, que não tinha mandado. Os agentes lançaram bombas de gás, apontaram fuzis e disseram que chamariam forças especiais para me arrancar. Tudo bem excessivo. Foi como se a gente tivesse voltado para o cangaço. Fomos para a delegacia e, quando voltei, as fechaduras tinham sido trocadas.
Como se deu o desfecho? Foram dois dias até conseguir falar com o juiz, que foi exemplar. Ele ouviu a história e determinou minha reintegração. Nesse período, mexeram nas minhas coisas, tiraram tudo do lugar. Foi muito duro ver meus pertences em caixas e sacos, empilhados na garagem, prontos para serem levados para um depósito.
Qual o valor simbólico deste casarão? Mesmo com todas as mudanças da cidade ao redor, ele preserva as características originais. É um marco para Petrópolis. Por isso, vejo essa situação também como uma batalha pela preservação da memória: meu lado é cultural, enquanto o outro só quer torrar, a todo o custo, o que é da família.
Há chance de reconciliação com o seu pai? Parte desse conflito passa pela minha defesa do legado. Tenho representado a família em eventos no Brasil e no exterior, assim como meu avô fazia, e nem todos veem isso com bons olhos. Agora que a questão está sendo tratada pela Justiça, os ânimos ficaram mais acirrados. É melhor deixar as coisas esfriarem para ver qual caminho será tomado.
A Casa Imperial do Brasil divulgou uma nota dizendo que nada teve a ver com o episódio e que as partes envolvidas foram afastadas da sucessão dinástica há mais de 100 anos. O que isso significa? Existe uma divisão entre Ramo de Petrópolis e Ramo de Vassouras, mas não gosto dessa classificação. Temos o mesmo sobrenome, embora nunca tenha tido o prazer de conhecê-los. Sei que há uma disputa de poder da parte deles, mas fica a pergunta: para quem os bens e imóveis — inclusive o Palácio Grão- -Pará — foram devolvidos quando a família real voltou do exílio? Nunca busquei protagonismo, mas há uma hierarquia que cai direto em mim. Sou o primogênito do primogênito.
Como é ser príncipe em um país republicano? As pessoas acham que ser príncipe é uma fantasia, não é. Está escrito na minha certidão de nascimento. Sou o único com isso registrado oficialmente. Mas encaro com naturalidade e me sinto como qualquer cidadão, apesar de saber que há uma responsabilidade. Sempre que participo de eventos ou converso com estudantes, percebo o carinho que existe pelo imaginário de príncipes e princesas.
Defende a volta da monarquia? Sim. E todos que são contra adoram passar férias em países desenvolvidos que seguem esse regime.
Há alguma proximidade com outras famílias reais? Minha avó era tia-avó do rei da Espanha e somos primos distantes da finada rainha da Inglaterra. O contato não é frequente, porque é outra rotina — eles vivem a monarquia no dia a dia. Os encontros costumam acontecer em ocasiões especiais, e somos recebidos como parentes longínquos.
Qual é o peso de ter o sobrenome Orleans e Bragança? A história do Brasil está ligada a esse nome, mesmo que muitas vezes ela seja distorcida. Para algumas pessoas isso pode parecer um fardo, mas, para mim, é motivo de orgulho.
O ocorrido reacendeu o debate sobre o laudêmio em Petrópolis. Qual a resposta para quem questiona essa cobrança? É muito simples. Dom Pedro II comprou as terras de Petrópolis com recursos próprios e criou um modelo para estimular a ocupação da cidade. Ele cedeu os terrenos, estabelecendo que, caso fossem vendidos para fora da família, seria pago um percentual. Isso não é algo exclusivo nosso. Também existe em áreas da Marinha, da igreja e de outros proprietários.





