Eu Jogo Limpo: projeto de Paula Zamboni alerta sobre doping entre amadores
"O prazer de praticar e competir e a busca pelos benefícios para a saúde estão se perdendo”, alerta educador físico
Quem acompanha competições esportivas pelas redes sociais já percebeu: há muitos atletas amadores com ares profissionais – é comum ver empresários, executivos e influenciadores subindo ao pódio e compartilhando performances impressionantes.
Mas como saber se essas conquistas são limpas, sem a “ajuda” de aditivos proibidos como a testosterona, a oxandrolona e outros hormônios anabolizantes que dão uma forcinha a mais?
Atualmente, a maioria das provas submete a testes antidoping exclusivamente os competidores da categoria elite, registrados nas federações de suas modalidades.
Ou seja, apenas os profissionais. Observar esse cenário com muita cautela foi o fator decisivo para que a empresária Paula Zamboni criasse há três anos o projeto Eu Jogo Limpo, que já tem quase 35 000 seguidores no Instagram (@eujogolimpo).
Praticante de triathlon, ela compartilha boas práticas e incentiva debates para fortalecer a comunidade esportiva. As normas e informações sobre como denunciar condutas ilícitas também estão lá.
“Diante do desejo de ver o corpo superando limites, atletas amadores acabam utilizando substâncias não permitidas. A ideia não é ser sensacionalista, tampouco envergonhar as pessoas, mas preservar o interesse de quem é correto”, afirma.
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Mineira que vive no Rio desde a adolescência, Paula se apaixonou pelo triathlon há duas décadas – hoje, aos 45 anos, sua rotina inclui treinos, trabalho e a dedicação aos três filhos.
Ela se interessou por integridade esportiva durante o período em que morou em Lausanne, na Suíça, oficialmente reconhecida como a capital olímpica mundial.
Além de sede do COI, a cidade é o centro administrativo do esporte global, abrigando diversos órgãos reguladores.
Entre eles, a World Anti-Doping Agency (Wada). Foi nesse instituto que Paula buscou informação para compreender os pormenores que integram a luta contra o doping. “Tudo o que aprendi foi estudando. Fiz todos os cursos da Wada disponíveis e esmiuçei os códigos antidopagem inteiros, tanto o brasileiro quanto o mundial”, explica.
Quando voltou ao Rio, em 2022, ela percebeu não só o aumento na quantidade de pessoas treinando, mas também objetivos mais ousados mesmo entre aqueles que não têm o esporte como ganha-pão.
Apesar de ter nascido na internet, boa parte do trabalho do Eu Jogo Limpo é off-line: A iniciativa atua diretamente junto aos órgãos reguladores, especialmente a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, e costuma ter estandes em provas pelo Brasil, oferecendo um espaço seguro para que o público possa conversar, tirar dúvidas e conhecer melhor as regras.
A corrida é o esporte que mais conquista adeptos no mundo e, com a proliferação de vídeos na internet, cresce na mesma medida a falsa impressão de que qualquer pessoa pode atingir níveis de elite rapidamente.
“O esporte amador está perdendo suas principais essências: O prazer de praticar e competir e a busca pelos benefícios para a saúde”, alerta o educador físico Vinicius Magalhães, à frente da assessoria Equipe Fox. “O doping é uma tentativa de burlar o processo lento e gradual que o treinamento esportivo exige, mas nenhum atalho substitui anos de disciplina, recuperação e consistência”, complementa.
Para mostrar que a dedicação compensa e é possível atingir metas sem o uso de substâncias ilícitas, Paula compartilha seus feitos através do seu perfil pessoal no Instagram.
Neste ano, ela estreou no Iron Man Full (3,8 quilômetros de natação, 180 de bicicleta e 42 de corrida) e conquistou uma concorrida vaga no Mundial do Havaí, que acontece no sábado (10).
“Tenho consciência de que só consegui porque meu corpo está habituado ao esforço”, diz Paula, adiantando que o próximo passo do Eu Jogo Limpo na luta anti-doping é ajudar competições a implementarem testagem para os vencedores de todas as categorias, sempre incluindo amadores.
Entre as barreiras estão os altos custos dos exames e a logística complicada. “Busco alguma maratona brasileira para ser a precursora nesse movimento”, dá a dica. Quem joga limpo consegue desfrutar das vitórias de um jeito muito mais recompensador.
Afinal, o que não pode?
Burlar as regras mina a confiança dos competidores e do próprio esporte
Atletas profissionais ou amadores são proibidos de usar uma série de substâncias antes das provas. A lista vai de remédios para dor de cabeça até hormônios anabolizantes.
A listagem é atualizada anualmente pela Wada e a relação mais recente pode ser conferida no site do Governo Federal.
Para profissionais, a pena é de suspensão das atividades por períodos de acordo com a infração.
Os amadores, por sua vez, podem ser vetados de provas.
Um dos casos mais emblemáticos é o do ex-ciclista americano Lance Armstrong, banido em 2012 pela Agência Americana Anti-Doping após a comprovação de que ele usava substâncias ilícitas para competir.
No Brasil, no ano passado, Daniel Nascimento foi suspenso pela Unidade de Integridade do Atletismo após testes comprovarem o uso de três hormônios anabolizantes. O paulista detém o recorde sul-americano em maratonas e só poderá voltar a disputar provas em 2029.






