Ingrid Guimarães e Mônica Martelli entram no panteão das duplas de humor
Minha Melhor Amiga é aposta de mais uma bem-sucedida bilheteria cravada por uma dupla do humor nacional, modalidade em que o país se notabiliza
Bastaram quinze minutos em um quarto de hotel de Los Angeles para que Mônica Martelli, 58 anos, topasse na quina da cama e quebrasse o mindinho do pé. Não foi a primeira, mas a quinta vez. “Acabou tudo”, gritou, dramática, deitada no chão em posição fetal. A filha, Julia, não perdeu a chance de eternizar o momento: deixou a câmera do celular aberta e correu para o quarto da “tia” Ingrid Guimarães, 54, mãe de sua amiga Clara, que deu ainda mais graça à sequência. “Eu também acabei de bater o pé”, dizia a atriz, soltando uma gargalhada. O vídeo, gravado em 2025 durante um dos já tradicionais périplos entre mães e filhas, acumula milhões de visualizações.
“Eu e Mônica somos muito parecidas. A gente passou a juventude juntas. Viajou para Caraíva nas férias, ficou solteira ao mesmo tempo, casou na mesma época e deu à luz com poucos dias de diferença”, conta Ingrid. O infindável baú de memórias das duas deu origem à comédia Minha Melhor Amiga, que estreia nesta quinta (3) nos cinemas.
“A ideia é que o filme se torne o ponto de partida para uma série. Eu criei uma pasta só com histórias que não usamos”, revela a diretora Susana Garcia, irmã de Mônica e amiga de Ingrid. Para dar uma dimensão do tanto que a dobradinha rende, o primeiro corte do longa teve três horas de duração, e 100 páginas do roteiro precisaram ser eliminadas.
A trama acompanha as melhores amigas Julia e Clara, batizadas em homenagem às herdeiras de cada uma na vida real. Frustradas com a vida amorosa e o trabalho, elas aproveitam o intercâmbio das adolescentes para embarcar para Portugal e surpreender as meninas. Ao chegar em Lisboa, porém, precisam recalcular a rota.
“No quesito amizade, elas são 100% a gente”, antecipa Mônica. “Dentro de uma dramaturgia muito certinha, previsível, podemos pirar”, avisa Ingrid.
Tamanha química de fato se desdobrou em altos improvisos no set. Numa noturna às 4 da manhã na capital portuguesa, uma cena de dois minutos se transformou em um take de doze. “As duas não paravam de conversar. Nunca tinha visto nada igual, elas criam um mundo próprio”, conta Susana.
Já em Sevilha, sob um calor tão implacável que até as câmeras pifaram, Mônica e Ingrid aproveitaram o anonimato para rodar a cidade de biquíni em um dia de folga.
“Brinco que virei uma diretora especialista em duplas, e a particularidade dessa é que elas se divertem muito uma com a outra”, diz a cineasta responsável por sucessos como Minha Vida em Marte e Minha Mãe É Uma Peça 3.
Desde os primórdios do audiovisual, duos cômicos são estratégia certeira para cativar espectadores. Na década de 1920, O Gordo e o Magro, com os inesquecíveis papéis vividos pelo americano Oliver Hardy e o inglês Stan Laurel, revolucionou o humor e sobreviveu à chegada do som à sétima arte.
Por aqui, não foi diferente. No rádio, Lauro Borges e Castro Barbosa protagonizam o PRK-30, sátira às transmissões da época, entre 1944 e 1964.
Nas chanchadas, brilharam Oscarito e Grande Otelo e, na década seguinte, é impossível não recordar o bem-sucedido dueto dos trapalhões, Didi e Dedé, iniciado nos anos 1960, nem deixar de citar a azeitada parceria de Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch, atual fenômeno com E.T., no Multishow e nas redes sociais. “Dá certo porque a gente não tem pudor”, disse Sterblitch em entrevista a VEJA RIO.
No ano passado, a amizade de Gregorio Duvivier e João Vicente de Castro fez nascer o videocast Não ImPorta, do Porta dos Fundos.
O programa semanal é o 15º mais ouvido do Brasil no Spotify e acumula 17 milhões de visualizações no YouTube — atraindo uma vasta turma com conversas descontraídas e um tanto implicantes, que funcionam como antídoto para a solidão.
“As pessoas têm pouco tempo para a vida social, então é como se estivessem escutando um papo de mesa bar enquanto dirigem”, avalia João Vicente de Castro.
“A nossa dinâmica é a de uma amizade muito realista. Somos dois sujeitos muito francos entre nós. Acho que o público gosta disso”, arremata o ator de O Céu da Língua.
O humor vai ganhando novas facetas — e como — conforme o mundo gira. Na Era de Ouro do Rádio, entre as décadas de 1930 e 1950, programas com bordões de personagens caricatos, que caíam na boca do povo, eram fenômeno, caso de Balança Mas Não Cai, que em 1968 ingressou na grade da TV Globo.
Tradições como o circo popular e o teatro de revista também serviram de base para projetos audiovisuais, a exemplo do clássico Alô, Alô, Carnaval, dirigido por Ademar Gonzaga em 1936.
“Já em 1941, com a fundação da produtora Atlântida, o gênero se industrializou, e surgiram as primeiras estrelas da nossa comédia, como Oscarito e Grande Otelo”, explica Miguel Jost, crítico de cultura e professor de comunicação da PUC-Rio.
Algumas décadas mais tarde, o domínio dos Trapalhões os fez arrebatar treze das vinte maiores bilheterias do país. No mesmo período, cartunistas como Ziraldo, Millôr Fernandes e Henfil apontaram as contradições do regime militar através das charges, dando novo impulso a uma tradição iniciada na segunda metade do século XIX.
Após o fim da Embrafilme, empresa estatal de fomento e distribuição do cinema brasileiro, em 1990, no governo Collor, os comediantes tiveram de regressar aos palcos, o que acabou abrindo caminho para o stand-up comedy se popularizar.
E o tom da piada foi se amoldando aos profundos sacolejos na sociedade, passando agora pelo filtro do politicamente correto. O que não varia no curso da história é a fórmula dos bons duetos.
“A maioria dessas duplas funciona pelo contraste, seja ele físico, seja de personalidade, e pelo entrosamento em cena”, diz Pedro Butcher, crítico de cinema e professor da ESPM.
De 2006 para cá, entre os dezenove longas nacionais com mais espectadores, onze são de humor. O blockbuster Se Eu Fosse Você, estrelado por Tony Ramos e Gloria Pires, ganha em 10 de setembro o terceiro volume.
“Em países como o Brasil, onde as salas são fortemente ocupadas pelas produções de Hollywood, a comédia consegue se destacar por ser um gênero barato, produzido e distribuído em larga escala”, analisa Pedro Butcher.
Um detalhe: boa parte dos hits contam com nomes conhecidos — Ingrid e Mônica, Tatá Werneck, Leandro Hassum, Samantha Schmütz e Paulo Gustavo dão o ar da graça na tela grande. Só a franquia Minha Mãe É Uma Peça levou 25,4 milhões de espectadores às salas escuras.
“A comédia é o único gênero em que o cinema nacional conseguiu construir alguma continuidade industrial”, lembra Jost.
Apesar do êxito, o gênero ainda sofre preconceito. “Historicamente, a comédia é vista como prima pobre da dramaturgia, quando na verdade é a prima rica”, ressalta Ingrid Guimarães, defensora do estilo que a alçou ao panteão das artes.
Quem diz não gostar de humor mente ou, vá lá, ainda não encontrou a piada perfeita. A causa do riso no organismo é incerta, mas a ciência permite destrinchar as respostas fisiológicas a ele no corpo.
A risada genuína está ligada ao tronco encefálico — assim como a respiração, é uma reação automática. E traz benefícios. “Ela aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca temporariamente, o que melhora a saúde cardiovascular, além de liberar glóbulos brancos, envolvidos na resposta de defesa imunológica”, explica a neurologista Paula Carolina Fernandes (veja mais abaixo).
Mesmo quando o sorriso é contido, o impacto ainda é positivo, daí alguns tratamentos para transtornos mentais envolverem o riso forçado. “Ao estimular a musculatura, induzimos a liberação de endorfina, dopamina e serotonina, neurotransmissores que ajudam a prevenir quadros de depressão e ansiedade”, diz a médica. Conclusão: rir faz um imenso bem.
Em tempos mais ásperos, o brasileiro tende a transformar tudo em piada. “A comédia confere leveza às críticas e reflexões exigidas pelos grandes dilemas da sociedade”, afirma Miguel Jost, da PUC-Rio.
De escândalos políticos à situação precária de um meio de transporte, aqui tudo pode virar meme e viralizar. “Somos um país tragicômico, que sabe ver graça em nossas próprias mazelas”, fala Butcher.
Em Minha Melhor Amiga, “rir para não chorar” ganha outro significado. “O objetivo é provocar gargalhadas para depois emocionar o público com aquela amizade”, entrega Mônica.
Das viagens a Caraíva às gravações na Europa muita coisa mudou, mas o dueto das amigas segue firme. Após um cansativo dia de batente, Ingrid estava prestes a voltar para o hotel, mas a parceira de cena, que ainda não havia finalizado sua parte, suplicou: “Não me deixa sozinha, fica comigo”. Sem pensar duas vezes, a goiana retrucou: “Fico, sim. Ainda não consegui terminar aquela história que comecei a te contar”. A sintonia transborda das telas e promete, mais uma vez, boas gargalhadas.
Duetos Afinados
Grandes duplas de humor da dramaturgia nacional
João Vicente de Castro e Gregório Duvivier
Fundadores do vanguardista Porta dos Fundos, eles ajudaram a revolucionar o humor brasileiro na internet a partir de 2012. A parceria se cristalizou para o público com o videocast Não ImPorta, lançado no ano passado, com conversas francas e profundamente hilárias.
Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch
Imbuídos de uma energia caótica, os amigos traduzem para as telas o ápice do improviso. A química incomparável se materializou no melancólico seriado de Fernanda Young Shippados (2019) e atingiu o nível máximo do absurdo neste ano, em E.T., do Multishow.
Didi e Dedé
Não existem Os Trapalhões sem a icônica amizade de Renato Aragão e Dedé Santana. O malandro nordestino e o projeto de galã carioca arrastaram milhões de pessoas aos cinemas, definindo o humor infantil e popular das décadas de 1970 e 1980.
Oscarito e Grande Otelo
– (./Reprodução)
O cinema nacional mudou quando os atores se uniram em produções da Atlântida Cinematográfica. A dupla imortalizou clássicos do humor físico e da sátira política em clássicos como Carnaval no Fogo (1949), Aviso aos Navegantes (1950) e Matar ou Correr (1954).
Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães
O casal neurótico Rui e Vani fez história no seriado Os Normais (2001). O sucesso estrondoso na TV Globo rendeu dois longas. Anos antes, a dupla já havia contracenado no inovador Comédia da Vida Privada (1995).
Chico Anysio e Lúcio Mauro
A histórica parceria começou na década de 1960, no humorístico TV0-TV1 (1966) e se consolidou em programas como Chico City (1973), Chico Anysio Show (1982) e Zorra Total (1999). A dupla imortalizou a esquete do arrogante Alberto Roberto e seu paciente diretor, Da Júlia.
Paulo Gustavo e Marcus Majella
Uma das parcerias mais hilárias e sintonizadas do humor contemporâneo nasceu nas salas de aula da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Quando estreou no Multishow com 220 Volts (2011), Paulo levou o amigo. E, em Vai que Cola, de 2013, a dupla encarnou os inseparáveis Valdomiro e Ferdinando.
Sucesso de Bilheteria
As comédias nacionais com maior público da história
Minha Mãe É uma Peça 3 (2019)
11,6 milhões
No desfecho da trilogia estrelada por Paulo Gustavo, Dona Hermínia precisa se reinventar diante do casamento do filho e da gravidez da filha. “Recebemos mensagens de meninos que foram aceitos pela família depois do filme”, relembra a diretora Susana Garcia.
Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976)
10,7 milhões
Bruno Barreto dirige Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça na adaptação do clássico de Jorge Amado. Após a morte do marido boêmio e infiel, Flor casa-se de novo. A tranquilidade da nova união é balançada quando o fantasma do falecido volta para seduzi-la.
Minha Mãe É uma Peça 2 (2016)
9,3 milhões
Nesta sequência, sob a batuta de César Rodrigues, Dona Hermínia está rica e famosa, mas precisa lidar com a iminente síndrome do ninho vazio, quando os filhos decidem sair de casa.
Se eu Fosse Você 2 (2009)
6,1 milhões
Gloria Pires e Tony Ramos voltam a encarnar Cláudio e Helena. O casal está prestes a se separar, mas a mágica se repete e eles trocam de corpos mais uma vez, quando descobrem que a filha está grávida e planeja se casar.
O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977)
– (./Divulgação)
5,7 milhões
Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum encarnam golpistas cujas falcatruas chamam atenção de Glória, papel de Monique Lafond. A jovem os contrata para resgatar seu pai, um arqueólogo que está desaparecido.
A Ciência por Trás do Riso
Como funciona a mente humana durante uma gargalhada
Fonte: Paula Carolina Fernandes, neurologista
Emergência no Banheiro
Risos intensos podem ativar o sistema autônomo, liberando uma substância chamada acetilcolina, que relaxa a musculatura da bexiga. Simultaneamente, a contração abdominal característica da risada pode provocar escape de urina.
Faz Bem Para a Saúde
Rir diminui o estresse, melhora a saúde cardiovascular e fortalece a imunidade. Gargalhadas profundas estimulam a musculatura estriada esquelética, gerando relaxamento similar ao pós-exercício físico.
É contagioso, sim
Por causa dos chamados neurônios-espelho, o cérebro pode imitar a ação ao observar outra pessoa rindo, o que facilita a perda do controle.
Riso de nervoso Situações de alto estresse e adrenalina alteram o limiar do córtex motor do cérebro, que perde a capacidade de inibir o riso em momentos inoportunos.
Dá para morrer De rir? Embora uma “epidemia de riso” não mate ninguém, do ponto de vista fisiológico é possível que um paciente cardiopata grave sofra complicações ao rir de forma extremamente intensa, porque uma gargalhada contínua pode comprometer a oxigenação.







