“Não sigo a cartilha do bom moço”, diz Ed Motta
Cantor retoma o português em novo disco, fala sobre o episódio no Grado, pelo qual responde por injúria, os cancelamentos e a relação visceral com o Rio
Em 1997, Ed Motta apresentou ao mundo o maior sucesso de sua carreira. Manual Prático para Festas, Bailes e Afins reuniu canções que até hoje estão na ponta da língua dos fãs, como Fora da Lei e Vendaval. Depois de se dedicar a repertórios inteiramente em inglês por mais de uma década e torcer o nariz para a faceta mais comercial de suas composições, é para essa vertente que o cantor retorna com Toc-Toc, seu 15º disco de estúdio, que estreia nas plataformas de streaming na sexta (25).
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“Estava com dificuldade em compor em português e não queria fazer algo fabricado”, revela o músico, que chegou a tecer críticas ao público brasileiro durante uma turnê na Europa, em 2015, e depois pediu desculpas. Polêmicas não faltam na trajetória do tijucano de 55 anos que estreou na música nos anos 1990 sob as bênçãos do tio Tim Maia — a mais recente delas envolveu uma briga no restaurante Grado devido à cobrança da taxa de rolha e virou um processo, que corre sob segredo de justiça.
Em entrevista a VEJA RIO, o artista falou sobre o cancelamento em decorrência do episódio e fez uma análise do mercado fonográfico.
Por que demorou tanto a voltar a cantar na sua língua materna? Estava com dificuldade de compor em português e não queria fazer algo fabricado. Durante a pandemia, fiquei muito tempo sem cantar e percebi o quanto isso estava me fazendo falta. Meu primeiro show depois do isolamento foi em Búzios e nunca senti tanto prazer com um repertório: resgatei músicas na minha língua, mais populares e dançantes. A estética e a composição de Toc-Toc partem desse momento.
Que inquietações suas o álbum reflete? Os temas são corriqueiros, falam de amor e da vida urbana, com um pouco de ironia e cinismo. O trabalho anterior, Behind the Tea Chronicles, tinha uma narrativa mais cinematográfica, com personagens e situações meio teatrais. Esse segue o clima soul, que cresci ouvindo, e fala de coisas carnais.
A febre da nostalgia também impulsionou a volta às raízes? Quando analiso o perfil dos meus ouvintes, há uma parcela bem mais nova. Alguns até conhecem pelos pais, mas a maioria vem da internet — começaram a seguir uma personalidade controversa e polêmica, que é encantadora para os jovens. O tiozão preferido. E a nostalgia é algo característico dessa galera, que leva vinil para autografar nos shows. Sempre me vi em conflito com a minha geração, mas essa se assemelha aos ídolos que eu admirava nos anos 1960 e 1970.
Ainda sente frio na barriga antes de um lançamento? Sou muito medroso. Fico tenso imaginando o que vão falar. Mas, como bom leonino, por fora estou dizendo que pouco me importo.
Qual lição ficou do ocorrido no restaurante Grado? Mereci o que aconteceu comigo. Agi de forma destemperada, joguei uma cadeira no chão, algo que nunca fiz na vida. Depois pegaram um áudio que mandei há um ano (com teor xenofóbico) e colocaram junto nas matérias — o que eu entendo, como dono de jornal teria feito igual. É tudo muito desagradável e me arrependo demais. Sei o erro que cometi e tenho vergonha disso. Estou respondendo por injúria e o processo corre em sigilo.
Um cancelamento ainda é capaz de te afetar? Estou calejado, passei por vários. Já me acostumei a ler frases como “Calado é um poeta”. Na internet está todo mundo me xingando, mas quando vou me apresentar as plateias estão lotadas. A qualidade da minha música não deixa isso detonar minhas manifestações artísticas. Mas o episódio foi um fato isolado. Não é um comportamento sistemático meu, que sou fã de Moacir Santos, João Donato, Cassiano, Dorival Caymmi e tantos artistas nordestinos.
Como foi o primeiro show após o ocorrido? Estava assustado. Quando atiraram uma rolha no palco, percebi que era num tom irônico e carinhoso. Aquilo me relaxou. Tinha que agradecer aquela pessoa de joelhos (risos). Meus fãs têm uma relação de amor e ódio comigo, parecida com a que tenho com meus pais. Venho de uma família afro-italiana, uma feijoada de tomate, é tudo quente pra caramba.
De que forma cuida da sua saúde mental? Eu tomo remédio (risos). Deus abençoe os psiquiatras! Não acredito em terapia, acredito em química.
O que te tira do sério? Comida fora do ponto. Deveria falar que é a injustiça do mundo, mas não sigo a cartilha do bom moço.
Como avalia o impacto da inteligência artificial na indústria musical? O mercado sempre foi assustador, na medida em que apagou artistas brilhantes para priorizar uma criação plástica — tão fabricada quanto a IA pode vir a criar. Mas acredito que ela possa ter um uso inteligente. Quando o computador apareceu, também houve desconfiança, e hoje não se imagina fazer música de outra forma.
O que mais gosta de fazer na cidade no tempo livre? Como não dirijo, gosto de pegar um táxi e dar uma volta pela Tijuca, passando pelos lugares que marcaram a minha infância, mesmo que eles não existam mais. Morei em Nova York e em Berlim, e tenho muitas críticas aos problemas daqui, mas sou dependente químico do Rio. Ele influencia meu trabalho e minha alma.






