“Nunca me achei padrão”, diz Gloria Pires

Aos 63 anos, a atriz celebra novas experiências na carreira e defende mais liberdade para as mulheres envelhecerem sem se submeter à pressão estética

Por Renata Magalhães 16 out 2026, 10h41 | Atualizado em 16 out 2026, 10h48
Mulher de cabelos grisalhos curtos, sorrindo e rindo com a boca aberta, vestindo um vestido bege sem mangas e um colar com pingente prateado, em fundo amarelo
Gloria Pires: “Foi um abuso psicológico brutal. Minha família ali provou que não era margarina: temos uma estrutura forte e verdadeira” (./Divulgação)
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Pouco antes de parar para atender VEJA RIO, Gloria Pires tomava um banho de sol em sua casa na Barra da Tijuca. A pele dourada contrasta com os cabelos grisalhos, assumidos recentemente pela atriz de 63 anos que expira jovialidade e agora também traz no currículo o cargo de diretora — além de protagonizar Sexa (2025), ela foi responsável pela condução da comédia que trata o envelhecimento feminino sob uma ótica ousada.

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Cheia de disposição, Gloria começa nesta semana as gravações da série Virando o Jogo, da Disney+, que marca sua primeira incursão no streaming, após mais de 25 títulos na TV Globo, enquanto está em cartaz nos cinemas com Se Eu Fosse Você 3.

Na sequência da franquia, que levou quase 10 milhões de espectadores aos cinemas em 2006 e 2009, a carioca comemora a parceria com a filha Cleo — mais nova vítima da maldição de troca de corpos, junto com Rafael Infante. A indústria audiovisual, a pressão estética e o episódio de fake news vivido por sua família foram alguns dos assuntos abordados na entrevista a seguir.

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Voltar a fazer Se Eu Fosse Você tantos anos depois reflete as suas próprias transformações? Com certeza. Estou com 63 anos, assumi meus grisalhos, dirigi meu primeiro longa e minha vida se expandiu em todos os sentidos. Na estreia, ninguém sabia como essa troca de corpos seria recebida. Havia uma expectativa grande. No segundo, surfamos o sucesso. Agora, o mais especial é estar em cena com a Cleo. Assistimos ao filme pela primeira vez juntas, em Miami, onde recebi uma homenagem, e fiquei orgulhosa do resultado.

O excesso de intimidade entre mãe e filha pode ser desafiador no âmbito profissional? Nossa relação vem ganhando novos contornos. Tive a Cleo com 19 anos e amadurecemos juntas. Aquela dimensão mais possessiva entre mãe e filha foi se tornando maleável e deu espaço para uma amizade profunda. É gratificante ver a profissional que ela se tornou e como inspira confiança.

De alguma forma, a troca de corpos do filme pode ajudar a falar sobre empatia em um momento tão polarizado? Tenho quatro filhos, com grandes diferenças de idade, e acompanho de perto como a tecnologia e as redes sociais — criadas para facilitar a comunicação — acabaram se tornando gatilhos para o isolamento. E não há como reverter esse processo. Por vivermos essa realidade, com tanta desgaste e julgamento, conseguir se colocar no lugar do outro se tornou um super-poder.

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O mercado do audiovisual não pode ficar saturado com a quantidade de sequências feitas atualmente? Não é esse o problema. O que falta são estudos para entender essa engrenagem e uma legislação que proteja quem faz audiovisual no Brasil. Temos histórias excelentes, mas é preciso garantir um suporte às produções, que têm dificuldades em trazer público. Os ingressos são caros e o tempo de exibição é curto, colocando uma pressão enorme nas primeiras semanas. Turquia, Coreia e Estados Unidos mostram como uma política contínua fortalece o setor.

Voltaria a comentar o Oscar? Não. Nem dar palestras ou fazer TED Talks. Não é para mim.

Sua última novela foi em 2023. Sente falta desse formato? Fiz isso a vida toda e os folhetins foram a base da minha carreira. Mas cheguei numa fase em que buscava mais liberdade, sem ficar presa a um único projeto, em uma rotina extremamente pesada. Passei a me ouvir mais e me permiti experimentar novas linguagens, como a série Virando o Jogo, que estou começando a gravar.

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Faria uma novelinha vertical? Busco histórias interessantes com personagens que me toquem, e essa mídia não oferece nenhum dos dois.

Você dirigiu o seu primeiro filme. Faltam mais mulheres nessa posição? Temos bons nomes, como a Cris DíAmato e a Susana Garcia, e hoje percebo mais a presença feminina em cargos que vão além de figurino e maquiagem. Ter a Anita Barbosa como diretora em Se Eu Fosse Você 3 foi fundamental: o discurso mudou muito em duas décadas e conseguimos identificar aspectos machistas que passaram despercebidos nas primeiras produções. De uma forma geral, as mulheres são profissionais extremamente comprometidas e criam um set saudável. Talvez por sermos obrigadas a equilibrar vários pratinhos desde novas.

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Percebe uma mudança real nas oportunidades para atrizes maduras? A indústria ainda fala mais do que faz acerca desse assunto, que é cada vez mais atual devido à longevidade. Existe um público enorme acima de 50 anos que quer se ver representado. Interpretar uma sexagenária sem cair no estereótipo da “velhinha engraçada” foi o que mais me atraiu em Sexa. Para uma mulher madura ser vista como sedutora, esperam que ela mantenha uma aparência jovem, enquanto o homem grisalho é considerado charmoso.

Como lida com a pressão estética? Essa cobrança existe em todas as idades — e, às vezes, nós mesmas reproduzimos isso, preocupando-se em parecer mais jovens. Precisamos entender que podemos ser felizes sem precisar caber no que esperam da gente. Nunca me achei padrão e talvez isso tenha me deixado mais desencanada com a aparência. Navego entre as expectativas externas sem levar em conta o que dizem, para o bem ou para o mal.

No longa Tristeza em Pó, previsto para 2027, você viverá uma jornalista em busca da verdade sobre um caso verídico brutal. Como avalia o papel da imprensa, especialmente em meio à disseminação das fake news? É a oportunidade de falar, por meio da dramaturgia, da história de uma mãe que foi presa acusada de dar cocaína para a filha e, após passar pelo inferno na cadeia, descobriu-se tratar de uma mentira. Vivi uma situação parecida — não passei por nenhuma violência física, mas foi um abuso psicológico brutal (uma notícia falsa que surgiu em 1998 envolveu Cleo e o padrasto Orlando Morais em um episódio íntimo inventado). Minha família ali provou que não era margarina: temos uma estrutura forte e verdadeira. E a Cleo, que na época era uma adolescente, se mostrou gigante. Não é qualquer um que conseguiria superar essa loucura que inventaram sobre nós.

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