“Precisamos de novos heróis”, diz Leticia Colin, estrela da novela das 9
Em sua primeira protagonista no horário nobre da Globo, a atriz fala sobre reinvenção, reconciliação amorosa e a busca por uma mocinha que não seja “morna”
O dia foi intenso: depois de uma sequência de cenas no Cemitério do Caju, na Zona Norte, reuniões particulares e a entrevista com VEJA RIO, Leticia Colin correu para buscar o filho na escola. Nascida em Santo André, a atriz faz questão de manter pequenos hábitos, em meio a uma rotina que se mostra frenética desde quando entrou para a TV, aos 10 anos de idade. Agora, aos 36, estreia como protagonista no horário nobre da TV Globo, em Quem Ama Cuida, folhetim que começa na segunda (18) e no qual contracena com medalhões do naipe de Antonio Fagundes e Tony Ramos.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
Adriana, sua personagem, passará por poucas e boas: depois de perder a casa e o marido em uma enchente em São Paulo, será presa por um crime que não cometeu. Gravadas no Parque Radical de Deodoro, aqui no Rio, as cenas do desastre natural aguçaram a curiosidade dos espectadores — mas isso não assustou Leticia. Afinal, são dezenas de trabalhos cheios de camadas que costuram seu currículo, como a Leopoldina, de Novo Mundo (2017), e a Rosa, de Segundo Sol (2018).
Durante o bate-papo, de sua casa no Jardim Botânico, a paulista que já ganhou carteirinha de carioca defendeu o papel de mocinha e relembrou momentos em que, assim como ela, precisou se reinventar, como na reconciliação com o companheiro, o ator e diretor Michel Melamed.
Ser protagonista no folhetim das 9 da Globo ainda é um divisor de águas na carreira? É claro que tem um peso simbólico enorme. Cresci vendo novelas e entendendo esse lugar como algo muito importante dentro da dramaturgia brasileira. Mas, ao mesmo tempo, sempre enxerguei valor em qualquer personagem. Muitas vezes, um papel pequeno ganha uma força gigantesca na trama e por si só tem a força do protagonismo. Sucesso não é algo que se encomenda — é uma coisa que acontece à revelia.
O frio na barriga não é diferente? É o mesmo de todos os trabalhos. É mais desafiador mostrar variações de emoções e construir uma narrativa mais complexa quando se tem poucas cenas. O que estou sentindo é a ansiedade de chegar logo nas pessoas. As chamadas incendiaram o público com as cenas da enchente. Dá para sentir que vem um novelão por aí.
O que conseguiu trazer da própria experiência para a história da Adriana? Eu me identifiquei por ela ser uma mulher movida pelo trabalho e pela responsabilidade com a família. Também venho de uma origem simples, meus pais são professores e senti que precisava ser esse apoio dentro de casa. Além disso, ainda me conecto com o forte senso de justiça dela. Isso vibra em mim: um impulso de quase violência frente a situações de injustiça. Ela não é nada passiva.
Como não deixar a mocinha que passa por tantas tragédias cair num clichê? O desafio é justamente não tratar a bondade como algo ingênuo ou sem graça. O afeto foi banalizado, mas eu vejo nisso uma força enorme de transformação. Por bastante tempo, os “núcleos do bem” foram retratados de forma morna, e quis fugir disso. Precisamos de novos heróis. A Adriana é humana, intensa, imperfeita e corajosa. Acho que hoje o público quer personagens com quem consiga criar empatia de verdade.
Ela é colocada diante de um recomeço forçado. Já passou por algo parecido? Nesse nível, não (risos). Mas ser mulher pede uma plasticidade emocional. A maternidade me convidou a passar por isso — é uma reinvenção profunda e longa, que segue acontecendo mesmo hoje, que meu filho tem 6 anos. Ou com o envelhecimento dos nossos pais, que é um processo dolorido de inversão de papéis. Além da minha separação, que acabou se mostrando um recomeço.
Quando isso aconteceu, a possibilidade de reconciliação passava pela sua cabeça? Não, para nós dois era algo definitivo. Fizemos uma escolha muito pensada. Só com o tempo fomos entendendo que, na verdade, tratava-se de uma reconstrução.
O que marca a nova fase? A cumplicidade. Não imaginava que poderia ser tão melhor. É como olhar para um quadro que você já amava e conseguir perceber outras nuances e cores. Não há nada mais bonito do que mergulhar em alguém e descobrir uma imensidão. Ele é a mesma pessoa — e eu também sou —, mas agora consigo reparar em detalhes que me fazem querer admirar essa obra de arte para sempre.
Como foram esses dois anos como mãe separada? A gente dividiu tudo igualmente. Mas deu para sentir a dificuldade que é maternar sozinha. Tenho muita admiração por todas as mulheres que passam por isso, que são a maioria no nosso país.
Ainda em 2026, estreia Jogada de Risco, uma série adulta. Vamos ver outro lado seu na TV? Tomara. A produção retrata o submundo do futebol, as intimidades dos jogadores, e isso deve ressoar bastante em ano de Copa do Mundo. A Rita é uma personagem leve, mesmo inserida nesse contexto do mundo secreto do prazer, das fantasias que ninguém tem coragem de assumir. Ela é super sexy, mas vive dramas com desdobramentos surpreendentes. Fizemos lindas cenas de sexo, depois de uma pesquisa profunda. Nossa grande referência foi a Nicole Kidman em Baby Girl.
Na semana do show da Shakira, um vídeo seu no metrô viralizou. Com toda a exposição, ainda consegue levar uma vida normal? Sim, embora isso dê um pouco de trabalho. Faço questão de manter pequenas coisas da rotina, como buscar meu filho na escola, ir ao mercado ou cuidar do meu gato. Sou apaixonada pelo cotidiano e acho que é justamente nele que a gente encontra algo verdadeiro e humano. Essas experiências simples me conectam com a vida real e com o que tenho de melhor. Não quero perder isso, porque é o que me mantém aterrada.





