“Quero ser aceita”, diz Maria Clara Gueiros

Às vésperas de estrear o musical Victor ou Victoria, atriz reflete sobre o lugar da mulher no humor e como os padrões estéticos a afetam aos 60 anos

Por Renata Magalhães 29 Maio 2026, 09h31 | Atualizado em 29 Maio 2026, 09h32
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Maria Clara Gueiros: “Somos cobradas para estar sempre jovens e em forma, enquanto o homem pode envelhecer mais relaxado” (Pino Gomes/Divulgação)
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Depois de viver 35 anos na Gávea, Maria Clara Gueiros acaba de se mudar para um apartamento no Parque Guinle, em Laranjeiras, e não poderia estar mais feliz com a vida no bairro. Ela agora mora oficialmente na mesma casa que o companheiro de quinze anos, o artista plástico Edgar Duvivier, pai de Gregorio, com quem compartilha o dom para a comédia. Foi do novo endereço que ela conversou com VEJA RIO sobre os preparativos para Victor ou Victoria, musical que estreia na quinta (4), no Teatro Claro Mais, com direção de Charles Möeller & Claudio Botelho.

Lançada em 1982 como filme e adaptada para a Broadway, a trama acompanha a história de uma cantora (Alessandra Verney) que precisa se reinventar — e assume a identidade de um homem que se apresenta como mulher no palco e conquista a todos com a voz doce. No papel de Norma Cassidy, Maria Clara dá vida à grande rival da protagonista e garante estar se divertindo como nunca. Aos recém-completos 61 anos, a atriz falou sobre a emoção de contracenar pela primeira vez com Miguel Falabella, um de seus maiores ídolos, e avaliou as transformações vividas pelo humor ao longo de sua carreira, que inclui títulos inesquecíveis para o público como Zorra Total e A Grande Família. 

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Num momento em que monólogos dominam a programação, como é trabalhar com um grande elenco? Dá a sensação de que a cultura é valorizada, em um país onde os artistas são constantemente relegados. Espetáculos menores acabam sendo uma forma de viabilizar produções em um contexto de baixo orçamento, por isso, vejo essa oportunidade como um privilégio. Vim do tablado e a convivência na coxia vale ouro. 

Buscou inspiração no filme e na primeira adaptação brasileira? Não consegui ver a peça de Jorge Takla, que só fez temporada em São Paulo, em 2001, mas sei que era o máximo. A Drica Moraes fazia o meu papel — olha só o compromisso que tenho. Mas revi o filme e busquei vídeos da montagem da Broadway para criar um arsenal de referências. A Norma é sensual, mas atrapalhada. Não é o estereótipo que se espera, justamente pelo forte viés cômico. 

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Houve algum cuidado com a história para evitar cancelamentos? Não podemos ignorar que a trama não é realista. Trata-se de uma farsa, uma brincadeira de faz de conta que é estabelecida com o público. Durante duas horas, fingimos acreditar que a protagonista está enganando a todos como um homem que se passa por mulher. É tudo “over”, tanto na atuação quanto nas situações. Depois de muito tempo trabalhando com o besteirol, é interessante compor um personagem que é praticamente um quadrinho. 

Ainda assim, é possível refletir sobre as questões de gênero? Totalmente. Inclusive, vemos como infelizmente a pauta segue atual. A gente mostra o preconceito falando sobre ele, não fugindo dele. 

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Como é contracenar com Miguel Falabella? Mesmo depois de quase 39 anos de carreira e de já ter trabalhado com muitos ídolos, não me acostumei. Ele é uma referência e estar ao seu lado traz a sensação constante do “cheguei lá”. Quando mitificamos alguém, sempre existe a chance de nos decepcionarmos no cotidiano, mas ele é verdadeiramente um gênio. 

Como define o seu tipo de comédia? Quando o Luiz Fernando Guimarães me convidou para fazer a série Minha Nada Mole Vida, em 2006, ele falou que adorava o meu jeito sonso (risos). O que para qualquer outra pessoa poderia ser uma ofensa, para mim foi motivo de agradecimento. Gosto do humor que está nas entrelinhas, é a minha assinatura. 

Também é desse jeito no seu dia a dia? Não sou aquela que transforma qualquer situação em palco e obriga os outros a rir de piadocas o tempo todo — acho um saco comediantes que são assim. Mas procuro ver o lado engraçado das coisas, até nos momentos mais difíceis, para deixar o clima mais leve. Recentemente, durante uma obra enorme no apartamento novo, fazia até os funcionários rirem do caos. Uso como uma ferramenta para agregar. 

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Ainda há muito preconceito com mulheres neste meio? Cresci imersa num mercado em que éramos enquadradas como burras ou caricatas. Só entendi que existiam outras possibilidades de trabalhar a comicidade quando o mundo começou a progredir. Não precisei batalhar por isso, ainda bem, foi algo que naturalmente se abriu. 

Como vê as mudanças do humor no Brasil? Elas são constantes e é importante acompanhar isso. Muito do que era considerado normal na minha juventude hoje já não faz mais sentido. Quero ser aceita como atriz e como pessoa, então mantenho os ouvidos abertos para entender o que ainda funciona. Além da reação do público, aprendo muito com meus filhos, de 31 e 29 anos, que me mostram quando algo não tem mais graça. No fim, é simples: se as pessoas não riem mais, então deixou de ser engraçado. 

O que te tira do sério? Não gosto da comédia que humilha, seja o colega ou a plateia. Prefiro o desconstruído — gosto mais do personagem que apanha do que daquele que só quer bater. Também me irrita atores que não dividem a cena, que só querem aparecer e não jogam junto. Ainda vejo gente que acha que, para brilhar, os outros precisam estar apagados, quando é justamente o contrário. 

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Aos 60 anos, sente a pressão dos padrões estéticos? Seria mentira dizer que sou totalmente livre disso. Vivemos num país machista, em que somos cobradas para estar sempre jovens e em forma, enquanto o homem pode envelhecer de maneira mais relaxada. Sou de uma geração marcada por essa exigência, então isso ainda me impulsiona a me cuidar. Ao mesmo tempo, tento desconstruir a ideia de perfeição, porque envelhecer traz mudanças inevitáveis. Uma mulher na minha idade tem rugas e o estrogênio já foi embora. Acho que estou envelhecendo de forma digna, não enlouqueci na busca pela juventude a qualquer preço. 

De que amarras o passar do tempo te libertou? A menopausa me trouxe uma tranquilidade inesperada. Com a queda dos hormônios, veio o fim daquela urgência de querer estar em todos os lugares, provar coisas o tempo todo e corresponder às expectativas impostas nas fases mais produtivas. Faço reposição hormonal pela qualidade de vida, mas aquele fogo em se mostrar não volta. Sinto que já construí minha trajetória e não preciso mais provar nada para ninguém. 

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