‘Sempre achei que eu não era boa’, diz Marieta Severo

Atriz celebra 60 anos de carreira com novo filme, a abertura de uma galeria de arte e homenagens ao marido, o diretor Aderbal Freire Filho, falecido em 2023

Por Melina Dalboni
21 mar 2025, 06h01
Marieta Severo
Marieta Severo: atriz estreia novo filme e abre galeria de arte popular (Leo Aversa/Divulgação)
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Aos sessenta anos de carreira, Marieta Severo, 78, optou por desacelerar. Não pela idade, nem pelo tanto que já realizou. A decisão tem a ver com o momento de vida que atravessa desde agosto de 2023, quando ficou viúva do diretor teatral Aderbal Freire Filho, com quem foi casada por mais de duas décadas. Para lidar com o luto, a atriz respeita seu tempo, mas não para. Ela prepara agora delicadas homenagens a Aderbal: um livro reunindo textos e entrevistas dele e o lançamento de um site com o acervo do diretor.

Que não se confunda, no caso de Marieta, o freio no ritmo com a aposentadoria. Nada disso. Ela segue firme na curadoria do Teatro Poeira, junto com Andrea Beltrão, sua sócia ali desde 2005, e prepara a abertura de uma galeria no Horto para expor sua coleção de arte popular, com mais de 100 bonecas do Vale do Jequitinhonha. Também estreia no dia 27 nos cinemas a comédia dramática Câncer com Ascendente em Virgem, em que interpreta Leda, uma mulher mística cuja filha (Suzana Pires) é diagnosticada com câncer de mama. Em sua casa na Gávea, Marieta apareceu com um esfuziante bom-dia em plena segunda-feira de manhã pós-Carnaval. “Acabei de fazer ginástica. Estou endorfinada”, brincou ao dar a largada no papo franco com VEJA RIO.

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Como enfrentou o luto após a morte de Aderbal? O luto não acaba. A perda, a tristeza, a falta seguem comigo. Tento transformar esses sentimentos, fazendo com que estejam em mim de maneira positiva, curtindo a saudade, rindo de repente, brincando que eu vou virar e ele estará ali. O Aderbal era um Peter Pan, um jovem, animado, uma pessoa ligada à vida, cheia de ideias, revolucionária. Quero estar conectada a isso que ele era.

Fez uma viagem para viver esse luto? Íamos muito a Paris, é como minha segunda cidade. Então fui sozinha para lá, voltei aos mesmos lugares que frequentávamos. E não foi triste, porque revivi os momentos bons. Sempre resguardei muito minha vida particular, porque fui casada com uma figura pública (Chico Buarque), mas agora, com o Aderbal, me deu vontade de falar. Talvez porque ajude alguém a passar pelo mesmo que eu de maneira positiva também. E porque quero mantê-lo vivo.

Seu novo filme trata do câncer de mama. Qual a importância de levar o assunto a uma tela de cinema? A arte tem essa capacidade de expandir os territórios e os pensamentos a respeito de todos os temas. O câncer sempre foi um tabu. Na minha geração, nem se falava o nome. Dizia-se que a pessoa estava com “aquela doença”.

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Você teve câncer no endométrio e ficou curada. Como foi receber a notícia há quase dez anos? É uma notícia que vem ainda com caráter de condenação. Ouvir a palavra faz com que você pense: “O.k., está na hora de ir”. Aí depois vai tentando entender, se informar melhor, e vê que não é uma condenação, ainda mais hoje em dia, com milhares de recursos. Tenho uma rede de apoio muito forte, estava com Aderbal. Então passei por isso de uma forma boa.

Sua estreia no teatro foi em 1965. Como avalia a longeva carreira? Sou muito grata por tudo o que conquistei, mas foi difícil. Gostaria de falar com os jovens que se acham uma merd*, aqueles que estão pensando: “Meu Deus, que merd*, eu fiz mal esse trabalho”, “Será que vou conseguir fazer bem?”, “Será que tenho talento?”. Porque foi assim que sempre me senti em todos esses anos.

Sofre de síndrome da impostora? Total. Não tinha esse nome na minha época, mas é isso. Volta e meia eu me questionava: “Eles estão achando que sou isso tudo, mas não sou” ou “Quando é que a impostora vai ser flagrada?”. Sempre tive vocação, fui muito caxias, mas achava que não tinha talento suficiente e que não era boa. Sempre chafurdei nessa lama e talvez daí eu tenha tirado forças. O lugar em que estou agora me traz satisfação.

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Então superou isso? Não. Se eu for fazer outro trabalho, a lama sobe e eu começo: “Meu Deus, será que sei fazer?”. A síndrome da impostora nos persegue. A mulher não tem naturalmente um lugar de aceitação e de apoio. Fiz muita psicanálise e fui dolorosamente tentando desfazer esses nós.

O Teatro Poeira está completando vinte anos. É duro manter o palco ativo? A gente não tem mais patrocínio. O teatro vive destas duas mulheres: Andrea Beltrão e Marieta Severo. Todo mês a gente bota dinheiro. Nunca ganhei nada com a Lei Rouanet. Fiz peças financiadas pela lei, nas quais tudo sempre foi gasto no artístico.

A repercussão do filme Ainda Estou Aqui mostrou que muitos jovens não tinham ideia do que foi a ditadura. Tendo vivido no exílio por quase dois anos, o que acha que é preciso fazer para manter a memória viva? A educação é importante. As escolas foram o espaço em que os professores puderam contar honestamente essa história. Este filme foi visto por mais de 5 milhões de pessoas, então a arte aí também teve essa função. Aliás, é assustador e doloroso ver o renascimento da extrema direita, do nazismo, do capitalismo selvagem e dos triliardários tendo poder político para ditar normas.

Por seu posicionamento político sempre tão claro, já foi muito atacada nas redes? Ninguém gosta de ser atacado, mas, como não tenho acesso às redes, não sei quanto sou xingada e não quero saber. A única vez que chorei foi quando nos chamaram de família de canalhas. Na hora que bateu na família, foi insuportável. Bate em mim que eu aguento, mas não na minha família. A gente processou e ganhou. Adoro advogado porque é a única arma que eu tenho. Nunca perdi um processo.

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Por que não está nas redes? Não sou contra, só não quero para mim. Entendo que virou um código para atores e atrizes. Infelizmente, você precisa ter seguidores, mas seguidor não tem nada a ver com talento e vocação.

O que significa a liberdade aos 78 anos? Coerência com cada fase minha. Ainda tenho o vício de ser produtiva e aflita por ter mais conhecimento, ler livros, ver séries, ler as notícias. Pela primeira vez na vida, aos quase 80, aceito que posso não fazer nada útil em um dia. Sou antenada, gosto de saber as coisas, mas hoje me cobro muito menos. Às vezes, falo para mim mesma: “Marieta, sossega, o que você quer? Ser uma defunta mais culta? Para, garota”.

Qual o maior orgulho da sua vida? Minha família. Tenho o maior orgulho das minhas filhas, da maneira como elas estão no mundo. Chico e eu fizemos um serviço muito bom e elas estão passando isso para os meus netos.

É o tipo de avó que dá conselhos? As netas conversam mais. O Chico (Brown) às vezes também chama: “Ô, véia, vamos falar?”. Sou muito cuidadosa, mais escuto que falo, mas eles gostam de me ouvir também. Às vezes digo para as meninas que elas estão muito caretas. Os jovens tiraram um bando de regras, mas estão colocando um bando de outras no lugar. Parem com isso!

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