Zico vira estrela de documentário: “O futebol ficou burocrático”

O ídolo rubro-negro é tema de uma produção com imagens raras e bastidores inéditos de sua trajetória — incluindo a intensa jornada como técnico no Japão

Por Renata Magalhães 24 abr 2026, 09h01
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Zico: "Em casos de racismo nos campos, é preciso aplicar sanções duras aos torcedores e aos clubes" (Catarina Ribeiro/Divulgação)
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Os guerreiros de elite do Japão, com um código de honra rigoroso baseado em lealdade, honra, disciplina e coragem, inspiram o título do documentário de um dos maiores ídolos do futebol brasileiro.

Com lançamento na quinta (30), Zico, o Samurai de Quintino resgata a história do jovem nascido no subúrbio carioca, apresentando aos fãs registros de arquivo e bastidores nunca antes vistos.

Além de mostrar todas as conquistas, incluindo os treze títulos acumulados como camisa 10 do Flamengo, a produção mergulha no trabalho realizado na Terra do Sol Nascente, onde Zico, como treinador, ajudou a profissionalizar o esporte.

“Este é um filme de não ficção, apesar de muitas jogadas parecerem fora da realidade”, brinca o diretor João Wainer, sobre o ex-jogador carioca, hoje com 73 anos.

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Em entrevista a VEJA RIO, Arthur Antunes Coimbra — também conhecido carinhosamente como Galinho de Quintino — falou sobre a expectativa para a Copa do Mundo, os casos de racismo e como nascem os talentos da bola. 

A obra levanta a questão da memória esportiva. Por que ela é tão pouco preservada no Brasil? Durante muito tempo, faltaram registros em livros ou filmes, embora isso esteja começando a mudar com alguns documentários e séries. O nosso talento no esporte nunca esteve em xeque; o problema sempre foi a falta de estrutura. Na minha época, a gente treinava como dava, em condições precárias, e ainda assim conseguia superar as dificuldades. As pessoas esquecem, não valorizam isso. 

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Ao rever sua trajetória, sente mais falta do tempo como jogador ou das coisas como eram? Nunca gostei de comparar épocas, porque o mundo muda o tempo todo. O essencial é saber valorizar tanto o presente quanto o passado. Preservar as histórias é reconhecer o caminho que foi percorrido e as referências que ajudaram a seguir em frente. Fico com a satisfação de ter aproveitado ao máximo o que vivi, fazendo o melhor dentro daquele contexto. 

Você profissionalizou o esporte no Japão. O que aprendeu com essa cultura? Meu sucesso se deu por compartilhar com eles algumas características, como disciplina, superação e determinação. As dificuldades vinham por me verem como um ídolo e também do medo de errar. Lá, o fracasso não é algo permitido — não à toa, o índice de suicídio é gigantesco —, e o futebol demanda iniciativa e risco. 

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Nesse sentido, o brasileiro carrega uma assinatura própria? Sim, o uso do molejo da dança para se desvencilhar dos obstáculos. Isso é o que se perdeu: partir para cima com confiança. O futebol ficou muito burocrático. Raramente alguém tenta uma jogada individual — e na maioria das vezes é o que decide um jogo. Mas, para isso, é preciso estar bem treinado. 

Faltam figuras que ajudem a construir mais do que uma carreira rentável? Temos profissionais preparados tecnicamente, mas sem a vivência do clube. Na minha época, até os massagistas orientavam o melhor caminho. Tínhamos contato com os ex-jogadores, algo raro hoje. Essa troca de experiência dava segurança. Como agora todos querem jogar no exterior cada vez mais cedo, porque sabem que isso aumenta as chances de convocação para a Seleção, acabam indo embora antes de conhecer a essência do nosso futebol. 

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Hoje, com as redes sociais transformando qualquer erro em meme, acredita que os jogadores ficaram mais cautelosos, com medo de serem expostos? “O medo de perder tira a vontade de ganhar”. Quando a direção do clube mudou em 1977, chegamos para a concentração e o presidente Marco Aurélio Moreira Leite tinha escrito isso na parede para todo mundo ver. É uma frase que levo sempre comigo. O receio vem de quem te comanda, quando a confiança que deveria vir deste lugar. 

Como é criado um talento de verdade? Ele nasce de um dom, mas precisa ser desenvolvido. Procurei melhorar minhas dificuldades observando e treinando — cheguei a aprender fundamentos como cabeceio e domínio de bola vendo um álbum do Pelé e repetindo os movimentos em casa. Hoje, esse processo ficou ainda mais acessível: há informação e ferramentas para aprender praticamente qualquer coisa. 

Como enfrentar tantos casos de racismo nos campos? Vivi isso de perto quando trabalhei na Rússia. O que mais me marcou foi perceber que as punições eram leves e não mudavam a situação. Agora, é possível identificar quem comete esse tipo de crime, então é preciso aplicar sanções duras, tanto aos torcedores quanto aos clubes. 

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Quem foi o melhor técnico que o Brasil já teve e qual o melhor jogador da atualidade? Telê Santana tinha todos os aspectos que um treinador precisa: era técnico, paternal e motivador. Sempre cito isso nas minhas palestras. Era um cara justo e correto, que sabia extrair o melhor de um e passar para toda a equipe. Quanto ao jogador em atividade, sem dúvidas, é o Neymar. Se ele não tivesse o problema de continuidade devido às constantes lesões, estaria fácil na Seleção, pois tem um talento admirável e é um cara fantástico. 

Todos os seus filhos flertaram com futebol. Era um caminho fatídico por conta da sua carreira? Eles viviam imersos neste universo, era natural que tentassem. Mas houve muita pressão, por já nascerem conhecidos. A oportunidade é dada para qualquer outro, mas não para o “filho do Zico”. Eles não tiveram o direito de serem atletas comuns. Foi triste perceber que a figura que consegui me tornar sobrecarregou os meninos. 

Como está a expectativa para a Copa do Mundo? Tudo pode acontecer. Espanha e França talvez estejam um pouquinho acima, mas como é um campeonato que tem mata-mata as coisas não são definidas por quem é o melhor. Um erro pode ser fatal. Se o Carlo Ancelotti (técnico da Seleção) conseguir trazer comprometimento ao time, com toda a sua capacidade e conhecimento, temos grandes chances de conseguir mais uma taça. 

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