Ícone da cidade, Odeon reabre como centro cultural

Espaço volta com nova administração e a promessa de exibir balés, shows e até partidas de futebol

Por Lula Branco Martins 18 Maio 2015, 16h25 | Atualizado em 2 jun 2017, 12h37
Luiz Severiano Ribeiro Neto e Sérgio Sá Leitão
Luiz Severiano Ribeiro Neto e Sérgio Sá Leitão ( Selmy Yassuda/)
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Certas palavras, ou marcas, ao longo do tempo foram se incorporando de tal forma ao cotidiano do carioca que é mesmo difícil imaginar a cidade sem elas. Um bom exemplo disso é Cinelândia. No duro, no duro, a “terra de cines” já não existe mais. Poucos, porém, se referem a essa região pelo nome oficial de Praça Floriano. É que ali e nas redondezas funcionaram até meados da década de 70 alguns de nossos maiores e mais bonitos cinemas. Mas Plaza, Alhambra, Vitória, Capitólio e Pathé desapareceram ao ser transformados em templos pentecostais ou ao dar lugar a restaurantes, farmácias, lojas. Resta um. E seu nome é também um patrimônio, palavra que soa como sinônimo para cinema de tradição e qualidade: Odeon. Havia lacrado a bilheteria em junho de 2014, rolaram especulações de que fecharia para sempre, mas, após cinco meses de obras, aqui vem a boa notícia: reabre nesta quarta-feira (20).

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Não mais terá, na sua imponente fachada, a placa BR, do antigo patrocinador. Em seu lugar já se destaca o novo título: Odeon — Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, homenagem ao fundador do tradicional grupo cinematográfico. Haverá novidades na lanchonete, no sistema de ar condicionado, carpetes já foram trocados e o esgoto da rua em frente foi consertado — o mau cheiro invadia a sala. Para dirigir a programação, contratou-­se o jornalista Sérgio Sá Leitão, ex-­secretário municipal de Cultura. Ele promete, além de, naturalmente, exibir longas nacionais e mesmo blockbusters estrangeiros (mas que sejam “relevantes culturalmente”), abrir espaço na telona para a transmissão de balés e shows. “E, se rolar um jogo de futebol bacana na Europa, poderemos passar também”, afirma. A final da Liga dos Campeões, entre Barcelona e Juventus, já está programada para 6 de junho. A ideia é que o Odeon não seja um cinema sete dias por semana. Haverá, por exemplo, cursos e palestras em parcerias com a Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio) e com o Instituto de Estudos de Televisão (IETV). Maratonas temáticas, com um filme atrás do outro madrugada adentro, também estão nos planos. E mais: uma bossa toda especial será implementada — um novo estímulo à função do lanterninha, aquele funcionário que, quando as luzes da sala já estão apagadas para a sessão começar, guia o espectador até uma poltrona vaga. Uma equipe foi treinada, e, o detalhe chique, todos estarão vestidos com roupas inspiradas nos uniformes dos anos 30 e 40.

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O empresário que agora passa a dar nome ao local foi o patriarca de uma família que construiu um verdadeiro império no ramo. Luiz Severiano Ribeiro Filho nasceu no Ceará, e em Fortaleza fundou, no ano de 1917, o Cine Majestic, o marco inicial do grupo. Veio morar no Rio na década seguinte e, nos anos 30, abriria, com pompa e circunstância, o Odeon. Era uma época em que os homens iam ao cinema de terno e chapéu e o nome dos atores das produções ganhava destaque com letras garrafais, para que o espectador visse de longe e acabasse fisgado. Quando passou a comédia Aconteceu Naquela Noite, o sobrenome Gable, de Clark Gable, era o principal chamariz. Depois do fundador, vieram Luiz Severiano Ribeiro Júnior (já falecido) e Luiz Severiano Ribeiro Neto, hoje à frente da empresa, que desde 2002 usa a marca Kinoplex para identificar seus cinemas com tecnologia de última geração.

Com os 550 lugares (isso se manteve), o belíssimo lustre na cúpula e, agora, uma cafeteria da rede americana Starbucks, o Odeon continuará sediando festas como a abertura do Festival do Rio, mesmo desligado do Grupo Estação, que promove o evento. Com localização privilegiada, no Centro, muito próximo de várias saídas do metrô, ele tem é história para contar. Nas passeatas de estudantes em 1968, lá estava o cinema servindo de cenário para os discursos inflamados. Em fotos de comícios em 1989, época da primeira eleição direta para presidente pós-­ditadura, o edifício também aparece, como se observasse impassível todos os movimentos ao seu redor. E nas recentes manifestações de rua, de 2013 para cá, viu tudo de perto e foi poupado de pedradas, pichações e depredação. Trata-se, enfim, de um resistente. Que seja bem-vindo mais uma vez.

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