Uso não autorizado de obras tem gerado atritos entre políticos e artistas

De Varre, Varre, Vassourinha a Lula Lá, canções ajudam candidatos a conquistar eleitores e se mantêm como uma poderosa arma política

Por Pedro Inácio Xavier 21 ago 2026, 08h30 | Atualizado em 21 ago 2026, 11h04
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Olho vivo: Fernanda Abreu (acima) e Caetano Veloso (à dir.) acionaram a Justiça contra o uso indevido de suas músicas  (Murilo Alvesso Fernando Young/Divulgação)
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Na disputa presidencial de 1960, Jânio Quadros (1917-1992) foi eleito com recorde de votos. À época, a música Varre, Varre, Vassourinha foi abraçada pelos brasileiros como um símbolo do combate à corrupção, a principal plataforma do candidato do Partido Trabalhista Nacional (PTN).

Décadas depois, Sem Medo de Ser Feliz, conhecida pelo refrão “Lula lá”, tornou-se uma das marcas sonoras da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989 e voltou a embalar a trajetória eleitoral do petista em 2022, em uma nova versão gravada por nomes como Pabllo Vittar e Martinho da Vila.

Quase cem anos desde que chegaram ao país, os jingles englobam uma estratégia muito eficiente para conquistar votos em campanhas políticas. Em vários casos recentes, porém, artistas com posicionamentos políticos distintos se manifestaram contra o emprego não autorizado de suas obras.

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“Fiquei indignada e furiosa, foi uma situação absurda”, relembra a cantora Fernanda Abreu. No final de julho, ela veio a público repudiar o uso do hino Rio 40 Graus — parceria dela com Laufer e Fausto Fawcett — numa postagem sobre o anúncio da candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do estado. “A música traduz a persona da cidade com uma consistência muito importante, não faz sentido ser utilizada por um partido de extrema-direita, contra as liberdades individuais e as pautas humanitárias”, defende.

A ex-integrante da banda Blitz não viveu um caso isolado. Outros artistas não fizeram vista grossa com o uso de suas canções por políticos. Entre vitórias e derrotas na Justiça, Caetano Veloso, Paula Toller e o rapper Dexter são exemplos de personalidades que já se manifestaram contra o uso de músicas em campanhas. E a treta também é internacional: nomes como Katy Perry, Beyoncé, Celine Dion, Rihanna, Rolling Stones e Abba tiveram embates com o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela mesma razão.

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A polêmica não se restringe ao Brasil: nos EUA, a equipe de Beyoncé (abaixo) proibiu Donald de Trump (acima) de usar a música Freedom na campanha de 2024 (Dimitrios Kambouris @Beyonce/Getty Images/Reprodução)

Segundo a Lei de Direitos Autorais brasileira, compositores precisam expressar uma autorização prévia para que a obra seja utilizada de forma total ou parcial, seja indireta ou direta. O uso de paródias, no entanto, cai numa zona cinzenta.

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“São adaptações protegidas pelo princípio da liberdade de expressão, mas não podem prejudicar a imagem do autor original, ainda que essa ideia de dano à reputação varie a cada caso”, explica o advogado Gustavo Deppe. “É um desafio de logística. As editoras musicais deveriam pensar em caminhos administrativos para proteger suas obras”, opina. Sócio de um escritório especializado em advocacia para entretenimento, ele reforça que “instituições como o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) são importantes para defender os direitos dos autores e conscientizar a população sobre esse tema”.

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A força de um jingle é medida por sua capacidade de sensibilizar o eleitor. Não à toa, alguns persistem por décadas na memória da população. Letra e melodia são pensadas de duas formas distintas: em sintonia com o perfil do candidato e as bandeiras que ele defende ou em completo ruído com as propostas, na intenção de causar burburinho — ao estilo “falem mal, mas falem de mim”.

Para essas e outras táticas, políticos recorrem a agências de marketing voltadas para o pleito. “Na hora de votar, é comum que o cidadão racionalize uma escolha que já havia feito com o coração. E a música desperta sentimentos”, explica Pedro Augusto Correia, coordenador de estratégia da Baselab, que participou da campanha de Lula em 2022 e acompanhou a eleição de Tainá de Paula à Câmara dos Vereadores em 2020. “A regulamentação dos direitos autorais traz uma vantagem competitiva que facilita a liberação de obras para candidatos defensores da cultura, com quem artistas partilham interesses”, adiciona.

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Professor na pós-graduação da Universidade Iguaçu (Unig), o neurologista Marco Orsini descreve como as musiquinhas de campanha afetam o cérebro: “Ao combinar canção, repetição, linguagem e emoção, a melodia e o ritmo facilitam sua codificação, o que ajuda na lembrança de informações”.

Na corrida pelos votos, os jingles podem até desafinar, mas sempre chamam a atenção. 

A trilha das eleições 

Jingles que marcaram disputas políticas no Brasil 

Retrato do Velho. A marchinha comemorava o retorno de Getúlio Vargas (1882-1954) à presidência, em 1951, e se tornou um sucesso no Carnaval daquele ano, na voz de Francisco Alves (1898-1952), conhecido pela alcunha de O Rei da Voz. 

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Há 400 anos a dormir. A canção embalou a vitória de Juscelino Kubitschek (1902-1976) nas eleições presidenciais de 1955. A letra começa com “Gigante pela própria natureza”, em referência ao Hino Nacional. 

lá, lá, lá, lá, lá, Brizola. A faixa acompanhou a candidatura de Leonel Brizola (1922-2004) à presidência em 1989. O simples verso é repetido em ritmo lento até continuar com “Um voto pro Brizola só pode nos trazer um tempo bem melhor pra se viver”. 

Levanta a Mão. Com Nizan Guanaes entre os compositores, o jingle adotado por Fernando Henrique Cardoso em 1994 destacava seu preparo para redirecionar o país numa trajetória econômica favorável após anos de inflação galopante. A interpretação na voz de Dominguinhos (1941-2013) e o uso da sanfona pretendiam ampliar a penetração nos eleitores do Nordeste. 

Deixa o Homem trabalhar. A música veio para blindar e redirecionar ataques contra Lula na campanha à reeleição em 2006. A letra destacava o crescimento do país e o combate à pobreza, além de explorar a insegurança da população em trocar o “certo” pelo “duvidoso”. 

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