Só no Rio! Baleia-jubarte batizada de Glorinha vira mascote da Baía de Guanabara
Grupos de pesquisadores avistaram o cetáceo ao menos dezoito vezes em um mês, em locais como Ponte Rio-Niterói, Ilha Fiscal e Aeroporto Santos Dumont
Sociável, dócil e cuidadosa. Assim é Glorinha, uma baleia-jubarte que, durante a viagem migratória — da Antártida rumo a Abrolhos, na Bahia —, resolveu fazer uma escala por aqui e está há um mês na Baía de Guanabara. A nova mascote tem de 8 a 10 metros de comprimento e pesa entre 30 e 40 toneladas. Gosta de águas rasas, quentes e abrigadas, com pouca onda e vento. Dizem até que, em dias de chuva, ela não gosta de aparecer muito. A primeira vez que deu o ar da graça foi no dia 18 de junho e, até pelo menos 17 de julho, grupos de pesquisadores registraram ao menos dezoito aparições perto da Ponte Rio-Niterói, da Ilha Fiscal e do Aeroporto Santos Dumont. Trata-se de um animal jovem, com rajadas brancas na nadadeira dorsal, cheia de manchinhas circulares e listras claras do lado esquerdo, com parte da cauda preta. Ela virou a sensação dos remadores de canoa havaiana da “BG” — como alguns dele se referem à Baía de Guanabara. “É hoje!”, vibra Amanda Zullo na expectativa de esbarrar com o cetáceo. “A equipe das 5h45 conseguiu vê-la”, conta a psicóloga, eufórica a bordo de um catamarã (duas canoas de seis lugares). VEJA Rio embarcou na expedição à procura de Glorinha, mas naquela manhã a inquilina temporária mais querida da baía não deu o ar da graça. Restou o braço dolorido de tanto remar.
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Conhecido nas águas da Guanabara como o “encantador de baleias”, o instrutor Daniel Cantalice, do clube Canto Va’a, na Prainha da Glória (daí a inspiração para o nome), foi quem ajudou a popularizar o nome da jubarte. Bastou o primeiro encontro, em 26 de junho, para abrir uma caixinha de perguntas no Instagram pedindo ideias de nomes. “Vi uma borrifada de longe, em frente à Estação das Barcas do Rio, e percebi que era mais forte que a de um golfinho. Em seguida, ela deu um salto e eu comecei a chorar”, lembra Cantalice, que já avistou Glorinha no mar mais de dez vezes. Cauteloso com as regras — que exigem que embarcações mantenham uma distância de pelo menos 100 metros do animal —, ele conta que o mamífero costuma se aproximar. “Ela já passou por debaixo da canoa. É curiosa, quer interagir”, relata. Glorinha não tem hora certa para aparecer, mas o instrutor tem a teoria de que ela gosta de se exibir na maré vazante, quando a água está mais quentinha. O frenesi com Glorinha é tanto que a procura por aulas avulsas (no valor de 80 a 120 reais) triplicou. “No inverno, costuma ter uma baixa nas turmas. Mas as aulas estão lotadas”, observa o professor que achou melhor não abrir vagas para novatos nesta temporada.
Não há registros de jubartes no interior da Baía de Guanabara por tantos dias ao longo do século XX de acordo com os pesquisadores. Já no litoral, é comum avistá-las — estima-se que mais de 30000 indivíduos percorram a costa brasileira, onde dão seus saltos ornamentais que viralizam nas redes sociais, entre junho e agosto. “Em 2020, temos o registro de uma baleia que passou quatro dias na baía. Em 2021, seis delas passaram por aqui, mas o comum é entrar e sair. Permanecer é raro”, avalia a pesquisadora Liliane Lodi, do grupo de ciência cidadã Ilhas do Rio. “Neste ano, já vimos pelo menos duas. Essa sequência de dias é um acontecimento, está sendo uma farra”, complementa. Numa manhã gelada e ensolarada no início do mês, a especialista embarcou num veleiro para monitorar a mascote da “BG”. “Passei o dia com ela. Estou apaixonada. À primeira vista, Glorinha está saudável, mas numa observação mais profunda, notam-se vértebras à mostra, o que pode ser sinal de desnutrição, de que não se alimentou bem antes da migração”, alerta a pesquisadora.
Desde o período colonial, a costa brasileira foi palco de uma caça a jubarte, franca e minke, o que praticamente extinguiu esses mamíferos. Calcula-se que apenas 1% resistiu. Os animais foram dizimados para extração de óleo — usado na iluminação de ruas e fabricação de tintas —, seus ossos serviram de matéria-prima para confeccionar botões e as barbatanas deram origem a leques. Só em 1987, foi instituída uma lei federal proibindo a captura e, quase quarenta anos depois, vem ocorrendo a recuperação populacional. “O canal de entrada e saída de embarcações da baía não é o melhor local para elas ficarem, em função da poluição sonora, química e sólida. Mas temos que pensar nelas como indivíduos com personalidade. Por algum motivo, o animal se desgarrou do grupo e ficou por aqui. Está interagindo e esbanjando carisma”, analisa Guilherme Maricato, biólogo do Projeto Baleia Jubarte, que monitora e protege os animais. Não há como prever até quando a amistosa mamífera ficará por aqui — e nem se pode cravar que está sozinha. Mas o especialista assegura que ela retornará com saúde para o oceano. “São as bailarinas do mar. Conseguem se movimentar de forma leve e delicada, têm total noção do seu tamanho e não são agressivas. Ela saberá a hora de partir”, encerra Maricato. Glorinha vai deixar saudade.
Cada baleia tem seu próprio RG
Como os pesquisadores reconhecem os mamíferos
Assim como uma impressão digital, cada jubarte possui um conjunto único de marcas que permite sua identificação.
O principal “documento” é a cauda: fotografias de seu desenho, formato e manchas são inseridas na plataforma HappyWhales, que compara as imagens com um banco de dados mundial e permite reconhecer cada indivíduo.
Padrões exclusivos de manchas e cicatrizes adquiridas ao longo da vida também ajudam nesse trabalho.
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