Barbarella está de volta: espaço renasce como salão de festa e hospedagem

Seis anos após o fim da lendária boate de Copacabana, o endereço ganhou um banho de loja, mas ainda preserva parte da aura dos velhos tempos

Por Elisa Torres 3 jul 2026, 09h16
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Barbarella: prédio combina salão de festas amplo com apartamentos de aluguel por temporada (Beto Riginik/Divulgação)
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Em 1968, uma astronauta sexy e descabelada cruzava o universo numa nave surrealista, entre máquinas de prazer, cientistas enlouquecidos e cenários psicodélicos.

Inspirada nos quadrinhos de Jean-Claude Forest (1930-1998) e dirigida por Roger Vadim (1828-2000), a produção franco-italiana Barbarella transformou Jane Fonda em símbolo sexual.

Oito anos mais tarde, a heroína emprestaria seu nome a um dos endereços mais famosos da noite carioca.

Inaugurada em 1976, no número 238 da Avenida Prado Júnior, a boate Barbarella ajudou a consolidar a fama boêmia dos inferninhos daquele trecho de Copacabana.

Por mais de quatro décadas, as performances artísticas, striptease e diversos shows deram o tom no local, que sucumbiu na pandemia e fechou as portas em junho de 2020.

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Túnel do tempo: inaugurada em 1976, a casa encerrou as atividades durante a pandemia (Augusto Yunes/Agência O Globo)

Eis agora uma nova missão para o endereço: todo reformado, o prédio de sete andares na esquina com a Rua Ministro Viveiros de Castro combina espaço para eventos e apartamentos para aluguel por temporada.

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“Quando peguei as chaves, em 2023, foi como entrar numa cápsula do tempo. As toalhas ainda cobriam as mesas. Encontrei o acervo de vinil e CD, as roupas das dançarinas e até dinheiro no caixa”, relembra o empresário mineiro Douglas Drummond, à frente do projeto.

A transformação do icônico imóvel acompanha uma tendência crescente de ocupação híbrida dos imóveis urbanos, preservando um elemento fundamental: o nome, evocando velhos e mais libertários tempos.

No entanto, a ideia é que os eventos realizados agradem a todos os públicos.

“Queremos receber casamentos, festas de 15 anos, despedidas de solteiro, conferências e turistas de variados perfis, possibilitando que as pessoas se hospedem no mesmo local do evento”, afirma Drummond, filho do fundador do Grupo Ouro Minas, tradição em hotelaria em Minas Gerais.

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Entre os empreendimentos de Douglas está o Hotel Chilli, na capital paulista, voltado ao entretenimento adulto do público masculino.

Essa experiência contribuiu para que o novo Barbarella despertasse o interesse de clientes LGBT+. “A comunidade sabe que é muito bem recebida, e existe uma demanda por espaços verdadeiramente acolhedores para eles. Mas o Barbarella não é um empreendimento voltado exclusivamente para esse público”, reforça o empresário.

A revitalização do prédio reuniu alguns dos principais nomes do design de entretenimento do Rio. A arquitetura ficou a cargo de João Calafate, que fez o Teatro Poeira e revitalizou o Centro Cultural João Nogueira (antigo Imperator).

Maneco Quinderé pensou a iluminação dos espaços e o artista visual Muti Randolph criou alguns elementos cenográficos.

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Novas funções: a boate que marcou época hoje dispõe de dezessete apartamentos para aluguel por temporada e salão de festas (imagem principal) (Beto Riginik/Divulgação)
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Os apartamentos são divididos entre estúdios de aproximadamente 30 metros quadrados, com diárias a partir de 600 reais; suítes de 75 metros quadrados, desde 800 reais; e coberturas, com até 168 metros quadrados e 1 800 reais a diária.

“Achei a experiência interessante. O prédio é todo inteligente, desde a portaria digitalizada até a parte interna dos apartamentos, bem equipados”, observa o estilista mineiro Victor Dzenk, um dos primeiros hóspedes.

Ele aproveitou o show de Shakira na Praia de Copacabana, em 2 de maio, para conhecer o espaço, que havia sido inaugurado naquela semana. “Sem contar que ser bem recebido, seja você hetero, gay, bi, ou que for, é muito reconfortante”, arremata.

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Aprovado: o estilista mineiro Victor Dzenk (acima)foi um dos primeiros hóspedes, no feriado do show da Shakira (instagram @victordzenk/Reprodução)

A mudança de função do imóvel não apaga a relevância da antiga boate na vida noturna carioca.

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Por quase cinco décadas, a Barbarella foi um símbolo da boemia de Copacabana, atraindo turistas, artistas, políticos e empresários para a Prado Júnior, de Clóvis Bornay (1916-2005) a Tim Maia (1942-1998); de Luiz Carlos Miele (1938-2015) aos integrantes da banda U2.

Citada por Cazuza na canção Só as Mães São Felizes, a casa tornou-se parte do imaginário do bairro que virou uma espécie de playground internacional.

“Ela parecia maior, tinha mais movimento regular e era considerada melhor, mas fechava mais cedo. Era comum receber os clientes que vinham de lá por volta das 3 da manhã”, conta o mixologista Igor Renovato, hoje à frente do Suru Bar, Suru Bafo e Conserva, que trabalhou na vizinha Cicciolina no início da carreira.

Como a personagem que atravessava galáxias em busca de novos mundos, a Barbarella carioca inicia uma nova jornada sem romper completamente com o passado que a transformou em lenda.  

Banho de loja 

Os números do novo empreendimento 

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20 milhões de reais investidos 

3 anos de reforma 

17 apartamentos para aluguel 

600 a 1800 reais é o valor das diárias

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