Barbarella está de volta: espaço renasce como salão de festa e hospedagem
Seis anos após o fim da lendária boate de Copacabana, o endereço ganhou um banho de loja, mas ainda preserva parte da aura dos velhos tempos
Em 1968, uma astronauta sexy e descabelada cruzava o universo numa nave surrealista, entre máquinas de prazer, cientistas enlouquecidos e cenários psicodélicos.
Inspirada nos quadrinhos de Jean-Claude Forest (1930-1998) e dirigida por Roger Vadim (1828-2000), a produção franco-italiana Barbarella transformou Jane Fonda em símbolo sexual.
Oito anos mais tarde, a heroína emprestaria seu nome a um dos endereços mais famosos da noite carioca.
Inaugurada em 1976, no número 238 da Avenida Prado Júnior, a boate Barbarella ajudou a consolidar a fama boêmia dos inferninhos daquele trecho de Copacabana.
Por mais de quatro décadas, as performances artísticas, striptease e diversos shows deram o tom no local, que sucumbiu na pandemia e fechou as portas em junho de 2020.
Eis agora uma nova missão para o endereço: todo reformado, o prédio de sete andares na esquina com a Rua Ministro Viveiros de Castro combina espaço para eventos e apartamentos para aluguel por temporada.
“Quando peguei as chaves, em 2023, foi como entrar numa cápsula do tempo. As toalhas ainda cobriam as mesas. Encontrei o acervo de vinil e CD, as roupas das dançarinas e até dinheiro no caixa”, relembra o empresário mineiro Douglas Drummond, à frente do projeto.
A transformação do icônico imóvel acompanha uma tendência crescente de ocupação híbrida dos imóveis urbanos, preservando um elemento fundamental: o nome, evocando velhos e mais libertários tempos.
No entanto, a ideia é que os eventos realizados agradem a todos os públicos.
“Queremos receber casamentos, festas de 15 anos, despedidas de solteiro, conferências e turistas de variados perfis, possibilitando que as pessoas se hospedem no mesmo local do evento”, afirma Drummond, filho do fundador do Grupo Ouro Minas, tradição em hotelaria em Minas Gerais.
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Entre os empreendimentos de Douglas está o Hotel Chilli, na capital paulista, voltado ao entretenimento adulto do público masculino.
Essa experiência contribuiu para que o novo Barbarella despertasse o interesse de clientes LGBT+. “A comunidade sabe que é muito bem recebida, e existe uma demanda por espaços verdadeiramente acolhedores para eles. Mas o Barbarella não é um empreendimento voltado exclusivamente para esse público”, reforça o empresário.
A revitalização do prédio reuniu alguns dos principais nomes do design de entretenimento do Rio. A arquitetura ficou a cargo de João Calafate, que fez o Teatro Poeira e revitalizou o Centro Cultural João Nogueira (antigo Imperator).
Maneco Quinderé pensou a iluminação dos espaços e o artista visual Muti Randolph criou alguns elementos cenográficos.
Os apartamentos são divididos entre estúdios de aproximadamente 30 metros quadrados, com diárias a partir de 600 reais; suítes de 75 metros quadrados, desde 800 reais; e coberturas, com até 168 metros quadrados e 1 800 reais a diária.
“Achei a experiência interessante. O prédio é todo inteligente, desde a portaria digitalizada até a parte interna dos apartamentos, bem equipados”, observa o estilista mineiro Victor Dzenk, um dos primeiros hóspedes.
Ele aproveitou o show de Shakira na Praia de Copacabana, em 2 de maio, para conhecer o espaço, que havia sido inaugurado naquela semana. “Sem contar que ser bem recebido, seja você hetero, gay, bi, ou que for, é muito reconfortante”, arremata.
A mudança de função do imóvel não apaga a relevância da antiga boate na vida noturna carioca.
Por quase cinco décadas, a Barbarella foi um símbolo da boemia de Copacabana, atraindo turistas, artistas, políticos e empresários para a Prado Júnior, de Clóvis Bornay (1916-2005) a Tim Maia (1942-1998); de Luiz Carlos Miele (1938-2015) aos integrantes da banda U2.
Citada por Cazuza na canção Só as Mães São Felizes, a casa tornou-se parte do imaginário do bairro que virou uma espécie de playground internacional.
“Ela parecia maior, tinha mais movimento regular e era considerada melhor, mas fechava mais cedo. Era comum receber os clientes que vinham de lá por volta das 3 da manhã”, conta o mixologista Igor Renovato, hoje à frente do Suru Bar, Suru Bafo e Conserva, que trabalhou na vizinha Cicciolina no início da carreira.
Como a personagem que atravessava galáxias em busca de novos mundos, a Barbarella carioca inicia uma nova jornada sem romper completamente com o passado que a transformou em lenda.
Banho de loja
Os números do novo empreendimento
20 milhões de reais investidos
3 anos de reforma
17 apartamentos para aluguel
600 a 1800 reais é o valor das diárias





