Celular roubado desarticula esquema milionário de tráfico e lavagem de dinheiro
Traficante tratou de carregamentos de drogas com seu aparelho pessoal, que tinha arquivos salvos na nuvem, permitindo acesso dos investigadores às conversas
Um celular roubado durante um assalto em um sinal de trânsito em Fortaleza, no Ceará, levou a Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) a desvendarem uma organização criminosa ligada ao Comando Vermelho que, segundo as investigações, movimentou cerca de 250 milhões de reais com o tráfico internacional de drogas e a lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, reveladas pelo Fantástico, da TV Globo, o aparelho pertencia a Laércio Isidoro do Nascimento Júnior, conhecido como Boss ou Gordão, um dos principais fornecedores de drogas da facção criminosa.
Laércio era dono de vários celulares, um para cada função, numa estratégia para não deixar rastros relacionados aos negócios e para preservar sua identidade. Mas o roubo o obrigou a a usar seu aparelho pessoal para tratar das atividades criminosas. E esse número era o único que mantinha arquivos salvos na nuvem, deixando pistas que permitiram que a polícia chegasse até ele. Foi por ali que ele continuou tratando de carregamentos de drogas e pediu auxílio a criminosos do Ceará, permitindo que os investigadores acessassem conversas e identificassem a rede. A apuração revelou ainda a ligação de um policial civil com o grupo, após o contato do agente ser encontrado salvo na agenda do traficante.
De acordo com os investigadores, a quadrilha atuava como intermediária entre grandes fornecedores de drogas e chefes de facções criminosas, além de utilizar empresas para ocultar a origem de recursos ilícitos. Embora nenhuma droga tenha sido apreendida durante a operação, a Polícia Civil afirma que os integrantes mantinham uma sofisticada estrutura financeira para viabilizar o esquema. “O Laércio é um matuto. O matuto faz a ligação de grandes fornecedores de drogas com líderes e chefes de facções criminosas”, afirmou o promotor de Justiça Pablo Reis. Segundo o MPRJ, as agendas e conversas analisadas confirmaram que Laércio era identificado pelos traficantes como Boss, codinome que significa “chefe” em inglês.
“O número do freteiro está lá. Eu tô desesperado, truta. Eu investi uns três milhões e meio. Já liguei para o Bin Laden, o Avião, os caras daqui do Ceará. Os caras já colocaram em todos os grupos da facção”, disse Laércio numa das conversas. Em outro áudio, o criminoso deixa claro a influência e a grandiosidade do esquema comandado por ele: “Todas as favelas, todos os chefes de facção. Aqui eu abasteço geral, então eu conheço muita gente aqui”.
Na segunda da semana passada (21), Laércio foi preso em uma cobertura de luxo em Maceió, em Alagoas, durante uma operação conjunta do MPRJ e das Polícias Civis do Rio, São Paulo e Alagoas, que cumpriu mandados em quatro estados. Além dele, outras 14 pessoas, incluindo dois policiais militares, também foram denunciadas. No apartamento em que estava, os agentes encontraram uma mala com cerca de 100 mil reais, além de roupas, acessórios e tênis de grifes. De acordo com as investigações, o criminoso mantinha imóveis de alto padrão também no Rio e em São Paulo.
O corregedor-geral da Polícia Civil, Alexandre Capote, disse que o policial foi intimado a prestar esclarecimentos, mas preferiu permanecer em silêncio. Segundo o corregedor, uma das empresas ligadas ao policial desempenhava papel importante na ocultação de valores provenientes do tráfico.
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A investigação continua em andamento. Os investigadores ainda buscam localizar o celular roubado em Fortaleza, considerado uma das principais peças para aprofundar as apurações sobre o funcionamento da organização criminosa.






