Bruno Gagliasso investe em condomínios de altíssimo luxo na Região Serrana
Entre busca por espaço, qualidade de vida e infraestrutura, as montanhas fluminenses deixam de ser apenas destinos de fim de semana; veja outros exemplos
Quando Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank esbarraram em uma área cercada por mata preservada em Membeca, distrito de Paraíba do Sul, buscavam um refúgio longe da pressa da cidade. Ali nasceu o Rancho da Montanha, propriedade criada pelo casal e anunciada para aluguel por temporada com diárias de até 24 000 reais. Mais do que um retiro particular, o empreendimento, com direito a lago, trilhas, fogo de chão e abundância de ar livre, é exemplar de um novo ciclo de valorização da Região Serrana do Rio, onde vinhedos, gastronomia, arquitetura de grife e serviços exclusivos se aliam para oferecer uma luxuosa experiência sob clima ameno e verde à vontade.
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Frequentado há décadas por cariocas à procura de descanso nos fins de semana e nas férias, o montanhoso cenário vive agora um boom imobiliário impulsionado por empreendimentos de alto padrão, que transformam a tradicional casa de campo em algo mais sofisticado, em muitos casos feito para ficar — e morar. “O que antes era visto como distância, hoje é privilégio. O verdadeiro luxo tem a ver com espaço e qualidade de vida”, avalia Gagliasso, que também aproveitou para investir na região com dois empreendimentos. Através de sua incorporadora, a Membeca Montanhas, investiu em dois condomínios na região — Montanhas e Laranjeiras —, com lotes de 50000 a 100000 metros quadrados, vendidos por entre 1,8 milhão e 3 milhões de reais.
A mudança é visível em um circuito de municípios que abrange Areal, Araras, Itaipava, Secretário e Teresópolis. “Não estamos vendendo imóveis, mas destinos”, afirma o arquiteto Duda Porto, responsável por projetos como o próprio Rancho da Montanha e o Riserva di Como, inspirado nos arredores do cristalino lago italiano. Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio de Janeiro, a Região Serrana registrou, em apenas um ano, subida de 32% nos lançamentos e de 46% no valor geral de vendas (VGV). Desde janeiro de 2025, ingressaram no mercado catorze empreendimentos de elevado padrão, que somam quase 1 bilhão de reais. Metade da vultosa cifra se concentra em um degrau acima, o do superluxo, com casas e terrenos de até 5 milhões de reais. Para o setor, o movimento não é pontual. “Temos 42 condomínios na região, sendo quinze de luxo”, calcula Claudio Leite, diretor regional da CIA Multiplataforma Imobiliária.
Um deles, o ONI Araras, prevê o primeiro helicóptero compartilhado do país. Já o Riserva di Como, em Areal, entrega terrenos acompanhados de cabanas assinadas por Duda Porto, e a Fazenda Bela Vista, em Itaipava, combina residências, hotel boutique e áreas de convivência. O Quinta Portuguesa, da construtora Mauad, envereda pela sustentabilidade: aposta em casas prontas com energia solar e automação. A sacudida do setor imobiliário nesta vasta área repleta de cartões-postais tem a ver com a clientela, que vem mudando de perfil. Se antes a imensa maioria aparecia atrás de casas de fim de semana, agora o olhar é de quem quer fazer da Serra sua morada. “Achamos que venderíamos uma segunda residência, mas as pessoas estão vindo de forma permanente”, diz Nelson Belloti, CEO da ONI Incorporações.
No eclético rol de interessados estão empresários, investidores do mercado financeiro, executivos, jogadores de futebol e famílias que passaram a trabalhar remotamente depois da pandemia. A bacharel em letras Andrea Dias, 53 anos, da Barra da Tijuca, planeja viver em sistema híbrido: comprou um terreno no ONI Araras e vai dividir a semana entre o apartamento carioca e a Serra. Após ser assaltada três vezes à mão armada no Rio, começou a enxergar valor no trivial ato de caminhar sem sustos na rua. “Segurança virou também um luxo”, diz. Há outros entusiasmados adeptos de um estilo de vida em compasso mais tranquilo, como o empresário Marcelo Portella, 57 anos, que investe na construção de uma casa de 600 metros quadrados no Borgo del Vino, condomínio em Areal com hotel boutique, vinícola, restaurantes e cafeteria que se miram na Toscana. “Este é o melhor momento do mercado imobiliário na Serra”, celebra.
O elo da elite carioca com tão belas montanhas tem raízes históricas. Muito antes dos vinhedos e dos helipontos privados, Petrópolis já havia sido eleita por dom Pedro II como refúgio de verão, o que acabou por fazer da cidade um polo de prestígio. “O imperador buscava escapar ali do calor, das epidemias e da agitação da corte”, explica o historiador Milton Teixeira. A temporada serrana da família imperial chamou a atenção também da aristocracia, consolidando a região como um dos primeiros territórios no país a conferir status a seus habitantes. Quase dois séculos mais tarde, o padrão de ocupação ganhou outros contornos, claro, mas manteve aquela atmosfera.
Se antes eram os cafeicultores e as altas-rodas do império que marcavam presença, hoje são empresários, investidores e profissionais liberais que redesenham a paisagem. “O Rio de Janeiro tinha na Serra um espaço de respiro, como ainda é. O que mudou foram as formas de ocupação e o tipo de construção desse refúgio”, ressalta Marcelo Oliveira, sócio-diretor da Pilar Engenharia, responsável pela Fazenda Marambaia, empreendimento de 2,5 milhões de metros quadrados com hotel boutique, restaurante assinado pelo estrelado chef Rafa Costa e Silva, vinhedo próprio, centro equestre, trilhas, cachoeiras e residências com paisagismo do escritório Burle Marx.
Neste ambiente que vai se amoldando aos novos ventos, o universo do vinho ganhou papel central. Em poucos anos, a região passou a reunir vinícolas, hotéis e empreendimentos residenciais que, ao lado da produção, oferecem hospitalidade recheada de mimos. Projetos como Maturano, em Teresópolis, Terrabenta, em Paraíba do Sul, Somnium (a vinícola do Rock in Rio), além do Borgo del Vino e do Riserva di Como, em Areal, ilustram esse fenômeno em que enologia, gastronomia, hotelaria e mercado imobiliário fazem parte de uma mesma engrenagem. “Só faltava mesmo ao Rio fazer vinho”, brinca o prefeito de Areal, Gutinho Bernardes, que ajudou a articular a chegada de investidores ao município, hoje conhecido como capital da bebida e também como Cidade das Nações, por abrigar condomínios inspirados em diferentes países ó da Itália à França, passando por Portugal, Espanha e Argentina.
A vinícola Maturano se encaixa bem na ideia. Além dos vinhedos, o projeto prevê suítes integradas à paisagem e um residencial dentro do complexo, o Videiras. “As pessoas estão encontrando no próprio quintal o que antes buscavam na Europa”, entusiasma-se Manuela Maturano. No Borgo del Vino, moradores têm à disposição vinhedos, restaurantes, capela, hotel boutique e uma agenda permanente de eventos ligados ao vinho. “Você não compra só um imóvel. Compra uma comunidade, um lugar ao qual passa a pertencer”, resume Bernardo Eloy, CEO e sócio da Azul Construções.
À medida que a Serra Fluminense se consolida como novo polo de investimento imobiliário, a régua do que se entende por luxo na região vai se elevando. No ONI Araras, onde os lotes variam entre 2000 e 5000 metros quadrados e chegam a 5 milhões de reais, os moradores terão acesso a uma infraestrutura que inclui helicóptero, campo de golfe assinado pelo campeão sul-americano Ismar Brasil, spa da rede Saison, academia da Companhia Athletica e restaurantes de boa mesa. Em um ano, 70% dos 74 terrenos foram vendidos. “O que me surpreendeu foi a faixa etária dos compradores. Achei que seriam todos com mais de 60 anos, mas a maioria está na faixa dos 40”, conta Nelson Belloti.
Em Teresópolis, o Reserva Guinle junta sofisticação à preservação ambiental. Implantado em uma área de exuberante Mata Atlântica, com mais de 300000 metros quadrados, o projeto mantém o patrimônio histórico da antiga propriedade da família Guinle. “É dentro da cidade, mas não parece. Há um cinturão verde, cercado por montanhas”, descreve o empresário Rodrigo Meirelles, 37 anos, que comprou duas propriedades por lá. Não é o único a implantar a tão em voga cartilha verde.
O Fazendas Secretário proporciona a experiência de estar numa fazenda mesmo. “A ideia é que os condôminos tenham um farnel pra recolher aos fins de semana uma cesta com ovos, verdura , legumes e queijo sem custos”, conta Afonso Blanc, sócio do empreendimento. Enquanto o Residencial Videiras montou infraestrutura totalmente subterrânea, a Fazenda Marambaia deixou intacta metade de seus 2,5 milhões de metros quadrados, como reserva legal, e o Quinta Portuguesa incorpora energia solar, cultivo próprio e já projeta a colheita de 240 oliveiras. “A perspectiva é de colher até o final do ano”, estima Luiz Carlos Santinon, diretor da incorporadora STN.
Em conjunto, toda essa agitação imobiliária ajuda a dar nova feição à Serra. A antiga casa de campo com lareira e telhado colonial não desaparece, mas agora divide espaço com casas assinadas por escritórios como Bernardes, Jacobsen, Duda Porto e Felipe Mauad, onde a arquitetura se orienta pela integração com a paisagem, o uso de materiais naturais e a criação de ambientes dedicados ao dolce far niente. “A arquitetura nunca pode ser a protagonista. Quem precisa aparecer é a natureza”, defende Duda Porto. Para a arquiteta e designer de interiores Hana Lerner, tal visão se expressa também na valorização do que é imperfeito. “Hoje damos valor às marcas do tempo e ao resgate afetivo”, diz. Hortas, fogo de chão, cabanas independentes, ateliês, vinhedos e trilhas compõem uma equação que tem feito sentido — e como não? — a muito mais gente em busca de um relógio que bate em ritmo diferente e de um novo jeito de viver.
Mercado a toda
Os números dão a dimensão da valorização da região
1 bilhão de reais é o valor geral de vendas dos imóveis de alto padrão lançados no último ano
46% de aumento geral de vendas em um ano
32% a mais no número de lançamentos na região
25 empreendimentos são lançados por ano atualmente — em 2022, foram cerca de dez
65% das propriedades já vendidas em lançamentos recentes
5 milhões de reais é o valor que pode custar um lote dentro dos novos condomínios da categoria superluxo
Morar bem na montanha
Tendências de arquitetura e decoração que estão em alta na Serra
1 Casas que contam histórias A era dos ambientes impecáveis e sem personalidade ficou para trás. Peças de família, móveis garimpados, antiguidades e objetos com memória afetiva ganharam protagonismo. “As marcas do tempo passaram a ter valor”, observa a arquiteta Hana Lerner.
2 A natureza invade a arquitetura Grandes panos de vidro, esquadrias amplas e ambientes totalmente integrados à paisagem são praticamente obrigatórios nos novos projetos. Áreas externas com fogo de chão, lounges ao ar livre e espaços de convivência no jardim também.
3 Espaço para viver os hobbies Ateliês, estúdios de música, oficinas, adegas, hortas, salas de leitura e ambientes multiuso surgem cada vez mais nos projetos. “A tendência acompanha a busca por uma vida menos acelerada e mais conectada aos interesses pessoais”, diz Duda Porto.
4 Sustentabilidade deixou de ser opcional Painéis solares, captação de água da chuva, reuso para irrigação, iluminação inteligente e integração com a vegetação nativa aparecem em boa parte dos lançamentos de alto padrão. O luxo agora precisa ser eficiente.
5 O artesanal vale mais do que o industrial Pedra natural, madeira, barro, cerâmica e peças produzidas à mão por artesãos ganham espaço em projetos que valorizam textura, autenticidade e exclusividade. “Em tempos de inteligência artificial, as pessoas buscam cada vez mais aquilo que tem alma”, diz Hana.
Objetos de desejo
Os “must-have” dos novos projetos de alto luxo na região
1 Estruturas dignas de resorts Piscinas aquecidas, academias premium, quadras de tênis e beach tennis, campos de golfe, centros equestres e até prainha com lago próprio para banho fazem parte do pacote.
2 Heliponto e helicóptero compartilhado O ONI Araras elevou a régua ao criar o primeiro condomínio do país com helicóptero compartilhado, reduzindo o trajeto entre o Rio e a Serra para menos de vinte minutos.
3 Cabanas entregues junto com o lote No Riserva di Como, os proprietários dispõem de uma cabana assinada pelo arquiteto Duda Porto para usar enquanto constroem a residência principal ou como espaço para hóspedes.
4 Estrutura para esportes ao ar livre Trilhas, mountain bike, escalada, cavalgadas, esportes náuticos, pickleball e golfe refletem a busca por um estilo de vida mais ativo e conectado à natureza.
5 Vinhedos à porta de casa Empreendimentos como Borgo del Vino, Residencial Videiras e Riserva di Como apostam na convivência diária com parreirais, adegas, degustações e colheitas de uva.





