Cabaré do Gláucio: linguagem teatral centenária volta a seduzir o público
Com temporadas-relâmpago, ingressos populares e plateias lotadas, espetáculos em cartaz no Gláucio Gill são inspirados no irreverente teatro de revista
Numa noite fria de sexta, o público aguardava ansioso a estreia de Narciso, o Cabaré, mais um espetáculo do gênero que vem lotando os horários alternativos do Teatro Gláucio Gill, em Copacabana. Rolando nos alto-falantes, a icônica faixa Vogue, de Madonna, já dava o tom do programa: as peças que passam pelo Cabaré do Gláucio, projeto capitaneado pelo gestor cultural Rafael Raposo, combinam os elementos típicos desta linguagem teatral, que volta a ganhar força na cidade com música, dança, comédia, irreverência e interação com a plateia. Os 63 assentos são sempre disputados, com direito à fila de espera — e não foi diferente naquele 10 de julho. “Decidimos arriscar e vir assim mesmo para tentar descolar um ingresso”, contou a cenógrafa Frances Sansão, acompanhada de uma amiga. O professor de teatro Yuri Mendes, fã da empreitada, perdeu a conta de quantas vezes já bateu ponto por lá. “Comecei a estudar os cabarés na escola de artes cênicas e foi um encontro bem mágico para mim”, descreveu. Às 22h, os espectadores — incluindo Frances e sua amiga, que deram sorte de conseguir lugar — se acomodaram sob a iluminação baixa e, durante 1h30, um elenco de nove atores e três músicos dançaram, cantaram, fizeram rir e refletir sobre os inalcançáveis padrões de beleza impostos atualmente.
O Cabaré do Gláucio nasceu em março de 2025 com Copacabana Tu Não Me Engana e, desde então, quinze montagens já tiveram temporada-relâmpago no local. Rafael Raposo, gestor do teatro, identificou potencial no salão, ainda pouco utilizado, e logo pôs o plano de pé. A proposta se baseia em lançar espetáculos inéditos, com diferentes artistas, estimulando a experimentação e a liberdade criativa, com ingressos a preço popular — 5 reais a inteira. Vem dando tão certo que, além das longas filas, o projeto conquistou troféus e homenagens no Prêmio do Humor e no Prêmio APTR deste ano. “É um verdadeiro reconhecimento a um trabalho coletivo que amplia o acesso do público ao teatro e reafirma o papel deste espaço como um importante centro de produção cultural”, informa, em nota, o Teatro Gláucio Gill. Ingrid Gaigher, que interpreta Veruska em Narciso, o Cabaré, revela que a equipe teve um mês para ensaiar. “Vim do audiovisual e estava com saudade do palco. Observei bastante os outros cabaretas durante o processo de construção”, conta a atriz. “É tudo muito rápido. Na comédia, quem dirige é o público. Se todo mundo ri, sabemos que a cena funciona”, ressalta Thiago Chagas, também no elenco. Ele ficou famoso na web com a personagem Dona Fernandona, uma homenagem a Fernanda Montenegro.
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Uma grande inspiração para a iniciativa do Gláucio Gill é o teatro de revista, gênero francês que chegou ao Brasil em meados do século XIX, através do Rio, com musicais que propunham críticas bem humoradas sobre o cotidiano do país. “A produção atual revitaliza a cena teatral carioca de um jeito muito parecido com o que era feito na época áurea do teatro de revista, que alimentou o mercado nacional e levou muita gente aos teatros”, aponta Gilberto Gawronski, diretor de Narciso, o Cabaré. O mito grego do belo jovem que se apaixona pelo próprio reflexo foi o ponto de partida para o dramaturgo Célio Porto colocar o dedo em feridas caras na contemporaneidade. “As câmeras frontais do celular se assemelham ao espelho e, de certa forma, cada um de nós se transforma em Narciso”, pontua. “O teatro de revista tem a cara do Rio por causa da irreverência, da música e do humor. A tradição nasceu na Praça Tiradentes, que era um celeiro de musicais, o gênero mais popular desde os primórdios”, explica o pesquisador e ator Gustavo Gasparani. Ao longo de tantos séculos, a arte cumpre o papel de provocar.
A noite é uma criança
Quatro casas de espetáculo — y otras cositas — que fizeram história no Rio
Cabaré Casanova. Em plena Avenida Mem de Sá, na Lapa, o local abriu as portas em 1937 com o nome Viena Budapeste. De 1939 a 2008, funcionou como Casanova. Foi um importante ponto de socialização e cultura para a comunidade LGBT+, promovendo shows de drag queens e travestis. Ícones queer cariocas, como Madame Satã, Laura de Vison e Meime dos Brilhos, se apresentaram por lá.
AssyRio. Poucos sabem que o subsolo do Theatro Municipal abrigou um cabaré. Pixinguinha e Os Oito Batutas costumavam tocar por lá. Hoje, ainda acontecem eventos musicais, a exemplo do projeto Música no Assyrio.
Gato Preto. Versão brasileira da casa francesa Le Chat Noir, o estabelecimento, aberto em 1896, nos arredores da Praça Tiradentes, é considerado o primeiro cabaré artístico no país, e chegou a funcionar nas dependências do Teatro Eldorado.
Mère LouIse. Funcionou de 1907 a 1931 na altura do Posto 6, em Copacabana, tornando-se um dos cabarés mais famosos do país. Em A Noite do Meu Bem, o escritor Ruy Castro descreve a casa como um “saloon do oeste americano, com varanda, portas em vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o movimento”.







