Por que o caso Sabine Boghici, que roubou a própria mãe, foi reaberto
Genevieve Boghici suspeita que filha tenha sido estimulada por alguém a tirar a própria vida
Em 14 de setembro de 2023, atriz Sabine Coll Boghici morreu aos 49 anos devido a uma queda da varanda do apartamento aonde morava na Lagoa, supostamente por suicídio. Dois anos depois, no entanto, sua mãe, Genevieve Boghici, de 85, conseguiu o desarquivamento do caso, alegando que há indícios de que ela foi estimulada por alguém a tirar a própria vida. As informações são de Vera Araújo para o jornal O Globo.
Filha do finado Jean Boghici, um dos maiores marchands do país, Sabine havia sido presa junto da vidente Rosa Stanesco Nicolau por aplicar um golpe milionário em Genevieve. O prejuízo foi estimado em R$ 725 milhões, envolvendo pagamentos por supostos serviços espirituais para fortalecer Sabine, além do furto de obras de arte de pintores renomados como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Alberto Guignard.
O esquema funcionava assim: uma cartomante, que se dizia mãe de santo — Rosa, conhecida como Mãe Valéria de Oxóssi — e uma parente abordaram Genevieve na rua. Disseram que sua filha teria pouco tempo de vida e que seria necessário realizar trabalhos espirituais para evitar a tragédia.
Após ser mantida em cárcere privado por mais de um ano e sofrer agressões da própria filha, Genevieve percebeu que estava sendo enganada por Sabine e Rosa. Em 2021, procurou a Delegacia Especial de Atendimento à Pessoa da Terceira Idade (Deapti), que desvendou a farsa.
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Rosa, Sabine e outros quatro cúmplices — todos parentes da vidente — foram presos. Sabine, porém, conseguiu um habeas corpus e passou a morar com Catarina das Graças Stanesco, filha de Rosa; o genro, Rafael Maia Cardoso; e uma criança com transtorno do espectro autista, adotada pela vidente.
O imóvel na Avenida Borges de Medeiros, um dos endereços mais valorizados da Zona Sul do Rio, foi comprado com recursos desviados da família Boghici, uma vez que a partilha da herança ainda não havia ocorrido, de acordo com as investigações.
Após deixar a prisão, testemunhas relataram que Sabine circulava pelo prédio com roupas maltrapilhas e descia diariamente para buscar água em uma garrafinha no bebedouro do playground — sua única saída do apartamento. Aqueles que cruzavam com ela percebiam hematomas visíveis pelo corpo. Imagens do circuito interno de segurança do prédio mostram Sabine circulando, aparentemente, desorientada.
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Poucos dias antes de sua morte, vizinhos afirmaram que suas súplicas por socorro passaram a ser ouvidos quase todos os dias. Dois dias antes da queda, uma ex-funcionária do prédio contou aos colegas que viu Sabine pegando água no bebedouro muito machucada.
Na véspera do suposto suicídio, duas testemunhas disseram ter ouvido Sabine afirmar que “não aguentava mais apanhar”. Ambas reconheceram a voz de Catarina respondendo: “Você vai apanhar até a minha mãe sair da cadeia”.
Além dos gritos, moradores também ouviam barulhos de agressões e portas batendo. Uma das testemunhas contou ter visto, por duas vezes, Sabine trancada na varanda do apartamento. Era noite e ela gritava: “Catarina, Catarina, por favor, abra a porta!”
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Em outro episódio relatado à polícia, uma diarista que tentou impedir uma agressão acabou sendo atacada por Catarina. Segundo o depoimento de uma testemunha à 15ª DP (Gávea), a filha de Rosa teria puxado Sabine pelos cabelos e esfregado seu rosto nas fezes e na urina dos seis cães que viviam no apartamento, espalhadas pelo chão.
A cena ocorreu em julho de 2023, ou seja, dois meses antes da morte da herdeira de Jean Boghici. A testemunha contou que Sabine passou uma das pernas pelo lado de fora da janela, mas uma amiga e o genro de Rosa evitaram que ela se jogasse.
Sabine caiu do quarto andar às 15h25. Catarina, Rafael e o filho de Rosa tinham saído do apartamento há menos de uma hora. A vítima estava sozinha, quando funcionários do prédio ouviram o barulho da queda. Ainda viva, mas bastante desorientada, ela perguntou o que havia acontecido. Para não assustá-la, um dos porteiros lhe disse que ela havia tropeçado e caído.
O relatório da perícia revelou um apartamento desarrumado. No quarto onde provavelmente a herdeira bilionária dormia, havia uma bicama de solteiro com colchão desforrado, um ventilador, roupas espalhadas e fezes pelo chão. Havia uma carta, supostamente escrita por Sabine, mas sem data, destinada a Rosa. Nela está escrito que ela não aguentou de saudades de Rosa — as duas se casaram com comunhão total de bens em 2023 — e dizia que a amaria “para sempre”.
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Em maio do ano passado, a delegada da 15ª DP, Flávia Monteiro, representou pela prisão de Catarina e Rafael por maus-tratos e cárcere privado. No entanto, o Ministério Público pediu o arquivamento, por entender que não havia maus-tratos, porque Sabine não estava sob a tutela dos indiciados. Por meio de seus advogados, então, Genevieve pediu a revisão do caso. Ela alegou, na petição, “induzimento e instigação qualificado pelo resultado morte”.
A Justiça encaminhou a análise da situação ao Procurador-Geral de Justiça, e o caso foi desarquivado após um parecer favorável da assessoria criminal. O promotor Eduardo Paes passou a ser o responsável pelo inquérito, pedindo várias diligências à delegacia da Gávea, que já retomou as investigações.
A defesa de Genevieve pediu ainda a exumação do corpo de Sabine, para saber se ela foi envenenada. A mãe da vítima não conseguiu se aproximar da filha desde que sofrera o golpe. Para Genevieve, Sabine estava sendo manipulada por Rosa e sua família.





