Por que o caso Sabine Boghici, que roubou a própria mãe, foi reaberto

Genevieve Boghici suspeita que filha tenha sido estimulada por alguém a tirar a própria vida

Por Redação VEJA RIO Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 set 2025, 17h51
Sabine Boghici
Sabine Boghici: caso é desarquivado para investigações de suicídio estimulado. (Redes sociais/Reprodução)
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Em 14 de setembro de 2023, atriz Sabine Coll Boghici morreu aos 49 anos devido a uma queda da varanda do apartamento aonde morava na Lagoa, supostamente por suicídio. Dois anos depois, no entanto, sua mãe, Genevieve Boghici, de 85, conseguiu o desarquivamento do caso, alegando que há indícios de que ela foi estimulada por alguém a tirar a própria vida. As informações são de Vera Araújo para o jornal O Globo.

Filha do finado Jean Boghici, um dos maiores marchands do país, Sabine havia sido presa junto da vidente Rosa Stanesco Nicolau por aplicar um golpe milionário em Genevieve. O prejuízo foi estimado em R$ 725 milhões, envolvendo pagamentos por supostos serviços espirituais para fortalecer Sabine, além do furto de obras de arte de pintores renomados como Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Alberto Guignard.

O esquema funcionava assim: uma cartomante, que se dizia mãe de santo — Rosa, conhecida como Mãe Valéria de Oxóssi — e uma parente abordaram Genevieve na rua. Disseram que sua filha teria pouco tempo de vida e que seria necessário realizar trabalhos espirituais para evitar a tragédia.

Após ser mantida em cárcere privado por mais de um ano e sofrer agressões da própria filha, Genevieve percebeu que estava sendo enganada por Sabine e Rosa. Em 2021, procurou a Delegacia Especial de Atendimento à Pessoa da Terceira Idade (Deapti), que desvendou a farsa.

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Rosa, Sabine e outros quatro cúmplices — todos parentes da vidente — foram presos. Sabine, porém, conseguiu um habeas corpus e passou a morar com Catarina das Graças Stanesco, filha de Rosa; o genro, Rafael Maia Cardoso; e uma criança com transtorno do espectro autista, adotada pela vidente.

O imóvel na Avenida Borges de Medeiros, um dos endereços mais valorizados da Zona Sul do Rio, foi comprado com recursos desviados da família Boghici, uma vez que a partilha da herança ainda não havia ocorrido, de acordo com as investigações.

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Após deixar a prisão, testemunhas relataram que Sabine circulava pelo prédio com roupas maltrapilhas e descia diariamente para buscar água em uma garrafinha no bebedouro do playground — sua única saída do apartamento. Aqueles que cruzavam com ela percebiam hematomas visíveis pelo corpo. Imagens do circuito interno de segurança do prédio mostram Sabine circulando, aparentemente, desorientada.

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Poucos dias antes de sua morte, vizinhos afirmaram que suas súplicas por socorro passaram a ser ouvidos quase todos os dias.  Dois dias antes da queda, uma ex-funcionária do prédio contou aos colegas que viu Sabine pegando água no bebedouro muito machucada.

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Na véspera do suposto suicídio, duas testemunhas disseram ter ouvido Sabine afirmar que “não aguentava mais apanhar”. Ambas reconheceram a voz de Catarina respondendo: “Você vai apanhar até a minha mãe sair da cadeia”.

Além dos gritos, moradores também ouviam barulhos de agressões e portas batendo. Uma das testemunhas contou ter visto, por duas vezes, Sabine trancada na varanda do apartamento. Era noite e ela gritava: “Catarina, Catarina, por favor, abra a porta!”

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Em outro episódio relatado à polícia, uma diarista que tentou impedir uma agressão acabou sendo atacada por Catarina. Segundo o depoimento de uma testemunha à 15ª DP (Gávea), a filha de Rosa teria puxado Sabine pelos cabelos e esfregado seu rosto nas fezes e na urina dos seis cães que viviam no apartamento, espalhadas pelo chão.

A cena ocorreu em julho de 2023, ou seja, dois meses antes da morte da herdeira de Jean Boghici. A testemunha contou que Sabine passou uma das pernas pelo lado de fora da janela, mas uma amiga e o genro de Rosa evitaram que ela se jogasse.

Sabine caiu do quarto andar às 15h25. Catarina, Rafael e o filho de Rosa tinham saído do apartamento há menos de uma hora. A vítima estava sozinha, quando funcionários do prédio ouviram o barulho da queda. Ainda viva, mas bastante desorientada, ela perguntou o que havia acontecido. Para não assustá-la, um dos porteiros lhe disse que ela havia tropeçado e caído.

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O relatório da perícia revelou um apartamento desarrumado. No quarto onde provavelmente a herdeira bilionária dormia, havia uma bicama de solteiro com colchão desforrado, um ventilador, roupas espalhadas e fezes pelo chão. Havia uma carta, supostamente escrita por Sabine, mas sem data, destinada a Rosa. Nela está escrito que ela não aguentou de saudades de Rosa — as duas se casaram com comunhão total de bens em 2023 — e dizia que a amaria “para sempre”.

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Em maio do ano passado, a delegada da 15ª DP, Flávia Monteiro, representou pela prisão de Catarina e Rafael por maus-tratos e cárcere privado. No entanto, o Ministério Público pediu o arquivamento, por entender que não havia maus-tratos, porque Sabine não estava sob a tutela dos indiciados. Por meio de seus advogados, então, Genevieve pediu a revisão do caso. Ela alegou, na petição, “induzimento e instigação qualificado pelo resultado morte”.

A Justiça encaminhou a análise da situação ao Procurador-Geral de Justiça, e o caso foi desarquivado após um parecer favorável da assessoria criminal. O promotor Eduardo Paes passou a ser o responsável pelo inquérito, pedindo várias diligências à delegacia da Gávea, que já retomou as investigações.

A defesa de Genevieve pediu ainda a exumação do corpo de Sabine, para saber se ela foi envenenada. A mãe da vítima não conseguiu se aproximar da filha desde que sofrera o golpe. Para Genevieve, Sabine estava sendo manipulada por Rosa e sua família.

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