História concreta: prédios centenários recontam parte da República
Jóias arquitetônicas erguidas em 1926 no Centro do Rio traduzem o projeto de modernidade da jovem república — e seguem contando essa história
O turista que em 1926 desembarcava dos então modernos barcos a vapor no recém-inaugurado Terminal Marítimo do Rio, hoje o revitalizado Edifício Touring, na Praça Mauá, avistava o mais atualizado retrato da jovem república brasileira. Há exatos cem anos, passaram a fazer parte do cenário prédios que se tornaram ícones da cidade. Seguindo pela Avenida Central, atual Rio Branco, rumo à nascente Cinelândia, onde acabava de abrir as portas o Cine Odeon, quarto edifício do chamado “quarteirão dos palácios de cinema”, notava-se um ar de belle époque. Afinal, o prefeito Pereira Passos (1902-1906) se inspirou em Paris para capitanear a reforma conhecida como “bota abaixo”, abrindo vias largas, construindo edifícios ecléticos e instalando iluminação elétrica. Àquela altura, também passaram a fazer parte da paisagem carioca o Palácio Tiradentes, antiga Câmara dos Deputados; o Palácio da Justiça, transformado em museu em 1998; e o não menos imponente Banco Alemão Transatlântico, hoje sede do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ), conhecido como Palácio da Democracia, na Rua da Alfândega. Essas edificações monumentais seguem contando o que as elites políticas e econômicas dos anos 1920 queriam deixar claro a respeito do Brasil do início do século XX. “É possível identificar um eixo estratégico de decisões, disputas e fluxos de transformações sociais que ajudou a moldar o país nestes cem anos”, define Siléa Macieira, diretora do Museu da Justiça.
O que hoje pode passar despercebido, no andar apressado de quem circula pela região central da cidade, vai ganhar holofotes com o lançamento do projeto Circuito Centenário do Antigo Distrito Federal (1926–2026), uma série de palestras e encontros guiados com inscrições gratuitas. “A ideia é estimular o exercício de flanar: parar e olhar o que os prédios querem dizer”, destaca o professor André Leonardo Chevitarese, do departamento de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que conduz a palestra de abertura na quinta (14), com o tema A Construção da Cidade Maravilhosa, no Museu da Justiça. Ao usar o verbo “flanar”, ele faz referência a João do Rio, pseudônimo do jornalista Paulo Barreto (1888-1921), quem melhor traduziu para o português o termo francês flâneur: um andarilho urbano que passeia observando a vida na cidade com curiosidade. Chevitarese e a também historiadora Tayná Louise de Maria, do Museu da Justiça, estarão à frente da primeira visita guiada pelas ruas do antigo Distrito Federal, marcada para o dia 18, prevista para se repetir uma vez por mês até o fim do ano. “A gente brinca que é o encontro de Marianne, símbolo da Revolução Francesa representado no Palácio Tiradentes, e de Têmis, a deusa guardiã da lei, uma referência do Museu da Justiça”, conta Tayná, lembrando que não se vê nessas fachadas as figuras religiosas do período colonial, mas sim personificações da república positivista, democrática, laica e científica. “A proposta arquitetônica de cem anos atrás era trazer um novo olhar para o futuro. Não o mais previsível, como pregava a Igreja Católica, com a volta de Jesus, mas algo mais indefinido, porque o progresso se constrói dia após dia”, explica.
Essas mensagens ainda ecoam das construções em cimento armado, valorizadas com vitrais e portas com arabescos de ferro, algumas com características neoclássicas. As colunas gregas e estampas de figuras greco- -romanas chamam a atenção para um projeto de nação ainda eurocentrado. “Bem diferente da Brasília modernista, que surgiu no pós-2ª Guerra Mundial, já com referências americanas, depois que a Europa havia sido destruída”, lembra Chevitarese. Não por acaso, entre os prédios escolhidos para o tour estão aqueles que buscam materializar o conceito de poder e ambição nas esferas financeira, legislativa e judiciária. Foi no Museu da Justiça, aliás, que surgiu a ideia desse passeio ao passado. Erguido num terreno então esquecido, pela proximidade com espaços coloniais, como o Paço Imperial, que trazia lembranças incômodas, como o escravismo, o local abrigou, até 2009, o 1º Tribunal do Júri, palco de julgamentos de repercussão nacional, como o do assassinato da atriz Daniella Perez (1970-1992). “A rica história do Rio de Janeiro se traduz sob diferentes representações. Suas construções centenárias são um legado cultural, arquitetônico e político, e o circuito é um convite a todos que desejam conhecer melhor esse viés republicano”, enlaça o desembargador Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e governador em exercício. Privilégio é poder flanar por cenários históricos sem precisar sair da própria cidade.
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Retratos do tempo
Em imagens de época e atuais, a trajetória de cinco edifícios centenários do Centro do Rio
Palácio Tiradentes. A sede histórica da Assembleia Legislativa do Estado do Rio (Alerj) foi construída após a derrubada da chamada cadeia velha, onde Tiradentes (1746-1792) ficou preso. “O pensamento republicano afirmava que no lugar do presídio de um grande herói da república tinha que ser erguido um palácio”, lembra André Leonardo Chevitarese. E assim foi feito. Marco do ecletismo no Brasil, o projeto de Archimedes Memória e Francisque Couchet se destaca por sua fachada neoclássica com seis colunas colossais e cúpula em ferro com vitral. Perto do Paço Imperial, o prédio integrava a região hoje conhecida como Praça XV, que no século XVII começou a se firmar como centro político, econômico e social da cidade. Desde 2021, funciona como centro cultural e museu, oferecendo exposições e visitas guiadas gratuitas, a fim de preservar a memória política brasileira.
Cine Odeon. Mais antigo cinema de rua da cidade, hoje funcionando como um centro cultural para sessões especiais, o cine-teatro de estilo neoclássico fez parte de um conjunto de prédios construídos para abrigar o melhor da vida noturna do então Distrito Federal. O espaço contava, inclusive, com palco para shows. O Odeon foi erguido no lugar do Convento da Ajuda, dialogando com o Passeio Público e abrindo caminho para a Cinelândia, um espaço de lazer para os cariocas, ao lado do antigo Senado, no Palácio Monroe, que ficava quase em frente à sede do então Supremo Tribunal Federal, agora Centro Cultural da Justiça Federal.
Palácio da democracia. Tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural (Inepac), a imponente construção projetada pelo alemão Lambert Riedlinger se destaca por vitrais e uma impressionante claraboia, que enchem o espaço de luz natural e destacam a riqueza de seus detalhes arquitetônicos em mármore. Na esquina entre as ruas da Alfândega e da Quitanda, ali funcionava a sede do antigo Banco Alemão Transatlântico. O quarteirão, aliás, concentrava diversas instituições financeiras. Com a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial, o banco foi liquidado e o prédio se tornou parte do espólio do governo brasileiro. De lá para cá, foi endereço da Secretaria de Fazenda do Estado da Guanabara e, após a fusão, da Secretaria estadual de Fazenda do Rio. Após treze anos de abandoreprodução no, passou por reforma e, desde 2024, abriga o TRE-RJ.
Palácio da Justiça. Belíssimo exemplar de arquitetura eclética, com fortes tendências neoclássicas, o prédio que abrigou o Tribunal de Justiça tem cinco pavimentos, fachada simétrica, vitrais de Gastão Formenti e estátuas de mármore de Max Ferret. O edifício passou por uma reforma que recuperou ambientes de valor histórico, como o Salão Nobre, o Salão dos Espelhos, o dos Passos Perdidos, o Tribunal do Júri e o Plenário, que recebeu eventos marcantes da vida judiciária e política do país, como a promulgação do Código Penal Brasileiro, em 1940, com a presença do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954). Hoje, abriga o centro de memória do Poder Judiciário e entidades de classe, como a Associação dos Magistrados do Estado do Rio (Amaerj), a Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) e a Associação Nacional dos Desembargadores (Andes).
Edifício touring. Marco do art déco na Praça Mauá, seu projeto é assinado pelo francês Joseph Gire (1872-1933), arquiteto responsável por outros ícones da cidade, como o Copacabana Palace e o Palácio das Laranjeiras. Tinha a fama de ser o primeiro prédio visitado por quem chegava à cidade, e ainda conserva os grandes vitrais originais que retratam a flora brasileira e a chegada das caravelas à Baía de Guanabara, além dos lustres de cristal. Após anos esquecido, em janeiro passou a abrigar um polo gastronômico do grupo Belmonte, com três restaurantes, além de um bar com vista para a baía.







