Coleção de Arte: Anita Schwartz exibe peças de seu acervo pela primeira vez
Conjunto inusitado de marmitas dos anos 1920 e 1940 mantido em casa inspira exposição coletiva na galeria e inspira outros nomes a mostrarem seus garimpos
A paisagem do Rio de Janeiro estampa uma peça de arte inusitada do acervo particular da galerista Anita Schwartz. Entre obras de medalhões como Cildo Meireles, Nuno Ramos, Frans Krajcberg (1921-2017), Abraham Palatnik (1928-2020) espalhadas pelas paredes — e até pelo piso — de todos os cômodos do apartamento na praia do Leblon, cohabita uma coleção de marmitas de faiança, tipo de cerâmica mais porosa. Os mais de cem objetos, datados das décadas de 1920 a 1940, foram garimpados em antiquários brasileiros — a maioria em terras cariocas — ao longo de quarenta anos e repousam numa vitrine feita sob medida na cozinha. “Reformei o apartamento e pedi ao arquiteto para projetar um espaço para exibir as lancheiras e biscoiteiras com dignidade”, brinca Anita, que tem como xodó a peça pintada à mão com a imagem do Pão de Açúcar. “Algumas foram fabricadas na antiga Tchecoslováquia e chegaram a ser usadas por trabalhadores. Os motivos florais fazem referência ao art nouveau, já os geométricos evocam o art déco”, explica a galerista pernambucana.
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O utensílio doméstico com status de obra de arte está exposto pela primeira vez ao público na galeria Anita Schwartz, na Gávea, desde o dia 23 de junho, numa coletiva batizada de, veja só, Marmitas. Foi num jantar na casa da galerista em maio que o curador Ulisses Carrilho se encantou pela coleção e teve a ideia de juntar artistas como Afonso Tostes, Carlos Vergara e Wanda Pimentel (1943-2019) ao redor do objeto. “Historicamente associada à classe operária, aos deslocamentos urbanos e à economia do cuidado, a peça emerge na exposição para que o espectador possa observar as formas pelas quais a fome, o amor e o corpo foram organizados socialmente no país”, explica Carrilho, que desloca o recipiente da função primordial. O curador aproveita ainda para contextualizar a marmita na atualidade – de elemento presente na cultura fitness ao uso da expressão no universo das relações não monogâmicas. “O conceito foi absorvido pelo vocabulário afetivo e sexual brasileiro, convertendo-se em metáfora. Entre alimento e erotismo, nutrição e fetiche, ela representa até as fantasias sociais”, analisa Carrilho.
Uma coleção, seja de marmitas ou de qualquer outro item, representa uma conexão com o passado, com forte carga afetiva. A caça ao tesouro é um dos hobbies da artista visual Ana Regal, 40, que reúne em sua casa, em Botafogo, figas, corações, sereias e imagens de santos de madeira, pedra, cerâmica e papel machê. “São mais de vinte anos de garimpo na feira da Praça Quinze. De vez em quando rola um hiperfoco em algum tema, aí saio comprando vários exemplares afins”, contextualiza a artista, que trouxe objetos de viagens para o Peru, México, Portugal e Haiti, além de Alagoas e Amazonas. As lojinhas do Museu do Pontal e do Museu do Folclore também são fontes de consumo, e Ana organiza os objetos por tipo, tamanho e cor. Outra adepta do colecionismo, a jornalista de moda Patrícia Veiga, 73, acumula mais de 150 globos de neve. Começou com a clássica paisagem natalina, depois descobriu esferas com pinturas de Van Gogh (1853-1890) e Salvador Dalí (1904-1989). Há também as irreverentes, com monge budista e a do Mao Tse Tung adornado por moedas, que ganhou de presente do companheiro, o curador Lauro Cavalcanti. “Da primeira vez que vi, fiquei fascinada com aquele mundo protegido”, recorda Patrícia, que nutre a paixão desde 1970. Hoje, está mais comedida e só compra pelo ineditismo. “Algo que me impressiona é que nem esses objetos sobrevivem ao tempo. Alguns secaram, outros estão com as paisagens, casinhas e monumentos tombados”, nota a jornalista, que no entanto não se desfez de nenhuma. “É puramente afetivo”. Haja história para contar.
Caça ao tesouro
Dicas de especialistas para iniciar uma coleção
Hiperfoco é tudo. Reunir peças inusitadas ao redor de um tema exige concentrar a energia num lugar só. Antes de sair às compras, pesquise materiais e referências históricas.
Uma peça leva a outra. Identificar as peculiaridades de cada exemplar desperta a atenção para outras direções, encontrando novos objetos.
Off-line é melhor. Donos de antiquários são os melhores amigos dos colecionadores. Faça visitas, converse sobre seus gostos e troque contatos. O seu telefone certamente vai tocar.
Olhar afiado. Unanimidade entre os garimpeiros, saber escolher é essencial. Origem, tipo de arte, suporte e autor guiam o colecionador rumo às relíquias certas.
Manutenção é assunto sério. Evite ao máximo manusear e deslocar peças antigas. Criar nichos para armazenar, optar por vidros para proteger são fundamentais.





