Quais estabelecimentos foram denunciados por antissemitismo na cidade?

Denúncias envolvem relatos de discriminação, notificações oficiais e até aplicação de multa após manifestações contra judeus e cidadãos de Israel em duas casas

Por Redação VEJA RIO Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 6 abr 2026, 14h41 | Atualizado em 6 abr 2026, 19h23
Antissemitismo na Cobal do Leblon
Antissemitismo: denúncia contra estabelecimento da Cobal do Leblon desencadeou reações de internautas (Instagram/Reprodução)
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Casos recentes de denúncias de antissemitismo em estabelecimentos comerciais do Rio acenderam um alerta sobre episódios de discriminação na cidade. Ao menos dois locais foram alvo de acusações e passaram a ser investigados ou notificados por órgãos públicos e entidades representativas da comunidade judaica.

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O primeiro episódio envolve a delicatessen Delly Gil, no Leblon. Na última sexta (3), a chef Monique Benoliel relatou que foi vítima de falas antissemitas ao tentar comprar matzá, alimento tradicional consumido durante o Pessach, a Páscoa judaica. Segundo ela, o proprietário do estabelecimento afirmou estar “cansado de judeus” e que não venderia mais esse tipo de produto. A empresa foi formalmente notificada pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) e prestará esclarecimentos sobre o caso.

Placa no Restaurante Partisan
Placa afixada na entrada do Restaurante Partisan, na Lapa, informava que cidadãos americanos e israelenses não eram bem-vindos (Instagram/Reprodução)

Outro episódio ocorreu no Restaurante Partisan, na Lapa, também no sábado (4), quando uma placa  foi fixada na porta informando, em inglês, que cidadãos dos Estados Unidos e de Israel “não são bem-vindos”. A mensagem gerou forte repercussão negativa, e o estabelecimento acabou sendo multado em 9 000 reais após a denúncia.

Nos dois casos, a Fierj se posicionou publicamente contra as manifestações e informou ter adotado medidas legais cabíveis. A entidade acompanha os desdobramentos e cobra responsabilização dos envolvidos.

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O caso ganhou ainda mais visibilidade após manifestações nas redes sociais. Pedro Benoliel, filho da chef Monique, desabafou sobre o episódio vivido pela mãe. “Minha mãe foi impedida de comprar comida por ser judia. Eu nunca imaginei que escreveria uma frase como essa”, escreveu. Em seguida, ele destacou: “O antissemitismo não começa grande. Ele começa em pequenas falas, em atitudes ‘isoladas’, em silêncios”.

A repercussão mobilizou lideranças. O vereador Flávio Valle afirmou que vai à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) nesta segunda (6) para formalizar denúncia e pedir a cassação do alvará dos estabelecimentos envolvidos. “Nos deparamos com três casos de antissemitismo em um único fim de semana no Rio. Antissemitismo é crime de racismo e é inadmissível em uma cidade fundada na diversidade e na liberdade religiosa. Já prestamos apoio às vítimas e estamos adotando medidas administrativas e criminais”, declarou. Ele acrescentou que o Procon já aplicou multa e reforçou: “Criticar políticas é legítimo; hostilizar ou impedir alguém por sua origem ou fé é crime”.

Partisan da Lapa
Partisan: estabelecimento da Lapa se defendeu das acusações antissemitas em suas redes (Instagram/Reprodução)

Em texto divulgado em suas redes sociais no domingo (5), com o objetivo de promover uma campanha de arrecadação, o Partisan se manifestou publicamente e negou ter praticado discriminação. O estabelecimento afirma que a placa afixada na entrada — com a mensagem “not welcome”  teve caráter político e simbólico, como forma de protesto contra ações do Estado de Israel no Oriente Médio. Segundo o estabelecimento, “a placa jamais proibiu a entrada de qualquer pessoa”, e o local sustenta que sempre atendeu clientes de todas as nacionalidades.

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O bar, que se apresenta como um centro cultural voltado a debates políticos, atividades artísticas e direitos humanos, também informou que foi multado pelo Procon Carioca e que pretende recorrer da decisão na Justiça. Para isso, lançou uma campanha de arrecadação com o objetivo de custear despesas jurídicas e promover um ciclo de eventos sobre temas como Oriente Médio, Palestina, Líbano e direitos humanos.

O caso também chegou ao Ministério Público. O vereador Pedro Duarte (PSD) registrou uma notícia-crime com base na Lei nº 7.716/1989, que trata de crimes resultantes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. No documento, o parlamentar argumenta que a placa exibida pelo Partisan tem “claro teor discriminatório”, ao restringir simbolicamente a entrada de pessoas com base em sua origem nacional, o que, segundo ele, também atinge a comunidade judaica. Duarte solicita a abertura de investigação para apurar a possível prática de discriminação, além de medidas para cessar a conduta e eventual reparação por danos coletivos.

Fiscalização e possível cassação de alvará

O vereador Flávio Valle acompanhou, na noite de sábado (4), a fiscalização realizada pela Prefeitura do Rio que resultou na aplicação de multa ao bar Partisan, na Lapa.

Durante a ação, foi constatado que, embora o bar estivesse fechado, havia um evento em funcionamento nos fundos do mesmo imóvel. O espaço, no entanto, possui alvará para serviços gráficos, e não para a realização de eventos.

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Diante da irregularidade, o parlamentar informou que solicitou à Secretaria de Ordem Pública (Seop) a apuração do caso, seguindo os trâmites necessários para a possível cassação do alvará. “Constatamos uma dupla irregularidade: na frente, um bar que afronta a lei com mensagens discriminatórias e, nos fundos, um espaço que desvirtua completamente sua finalidade legal”, afirmou Valle. Ele reforçou ainda que práticas discriminatórias são inaceitáveis e que antissemitismo, assim como o racismo, é crime inafiançável e imprescritível.

As denúncias ocorrem em um contexto internacional de tensões envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã, o que, segundo especialistas, pode contribuir para o aumento de episódios de intolerância. No entanto, entidades reforçam que manifestações discriminatórias, independentemente do cenário geopolítico, configuram violação de direitos e devem ser combatidas.

 

 

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