Quais estabelecimentos foram denunciados por antissemitismo na cidade?
Denúncias envolvem relatos de discriminação, notificações oficiais e até aplicação de multa após manifestações contra judeus e cidadãos de Israel em duas casas
Casos recentes de denúncias de antissemitismo em estabelecimentos comerciais do Rio acenderam um alerta sobre episódios de discriminação na cidade. Ao menos dois locais foram alvo de acusações e passaram a ser investigados ou notificados por órgãos públicos e entidades representativas da comunidade judaica.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
O primeiro episódio envolve a delicatessen Delly Gil, no Leblon. Na última sexta (3), a chef Monique Benoliel relatou que foi vítima de falas antissemitas ao tentar comprar matzá, alimento tradicional consumido durante o Pessach, a Páscoa judaica. Segundo ela, o proprietário do estabelecimento afirmou estar “cansado de judeus” e que não venderia mais esse tipo de produto. A empresa foi formalmente notificada pela Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) e prestará esclarecimentos sobre o caso.
Outro episódio ocorreu no Restaurante Partisan, na Lapa, também no sábado (4), quando uma placa foi fixada na porta informando, em inglês, que cidadãos dos Estados Unidos e de Israel “não são bem-vindos”. A mensagem gerou forte repercussão negativa, e o estabelecimento acabou sendo multado em 9 000 reais após a denúncia.
Nos dois casos, a Fierj se posicionou publicamente contra as manifestações e informou ter adotado medidas legais cabíveis. A entidade acompanha os desdobramentos e cobra responsabilização dos envolvidos.
O caso ganhou ainda mais visibilidade após manifestações nas redes sociais. Pedro Benoliel, filho da chef Monique, desabafou sobre o episódio vivido pela mãe. “Minha mãe foi impedida de comprar comida por ser judia. Eu nunca imaginei que escreveria uma frase como essa”, escreveu. Em seguida, ele destacou: “O antissemitismo não começa grande. Ele começa em pequenas falas, em atitudes ‘isoladas’, em silêncios”.
A repercussão mobilizou lideranças. O vereador Flávio Valle afirmou que vai à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) nesta segunda (6) para formalizar denúncia e pedir a cassação do alvará dos estabelecimentos envolvidos. “Nos deparamos com três casos de antissemitismo em um único fim de semana no Rio. Antissemitismo é crime de racismo e é inadmissível em uma cidade fundada na diversidade e na liberdade religiosa. Já prestamos apoio às vítimas e estamos adotando medidas administrativas e criminais”, declarou. Ele acrescentou que o Procon já aplicou multa e reforçou: “Criticar políticas é legítimo; hostilizar ou impedir alguém por sua origem ou fé é crime”.
Em texto divulgado em suas redes sociais no domingo (5), com o objetivo de promover uma campanha de arrecadação, o Partisan se manifestou publicamente e negou ter praticado discriminação. O estabelecimento afirma que a placa afixada na entrada — com a mensagem “not welcome” teve caráter político e simbólico, como forma de protesto contra ações do Estado de Israel no Oriente Médio. Segundo o estabelecimento, “a placa jamais proibiu a entrada de qualquer pessoa”, e o local sustenta que sempre atendeu clientes de todas as nacionalidades.
O bar, que se apresenta como um centro cultural voltado a debates políticos, atividades artísticas e direitos humanos, também informou que foi multado pelo Procon Carioca e que pretende recorrer da decisão na Justiça. Para isso, lançou uma campanha de arrecadação com o objetivo de custear despesas jurídicas e promover um ciclo de eventos sobre temas como Oriente Médio, Palestina, Líbano e direitos humanos.
O caso também chegou ao Ministério Público. O vereador Pedro Duarte (PSD) registrou uma notícia-crime com base na Lei nº 7.716/1989, que trata de crimes resultantes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. No documento, o parlamentar argumenta que a placa exibida pelo Partisan tem “claro teor discriminatório”, ao restringir simbolicamente a entrada de pessoas com base em sua origem nacional, o que, segundo ele, também atinge a comunidade judaica. Duarte solicita a abertura de investigação para apurar a possível prática de discriminação, além de medidas para cessar a conduta e eventual reparação por danos coletivos.
Fiscalização e possível cassação de alvará
O vereador Flávio Valle acompanhou, na noite de sábado (4), a fiscalização realizada pela Prefeitura do Rio que resultou na aplicação de multa ao bar Partisan, na Lapa.
Durante a ação, foi constatado que, embora o bar estivesse fechado, havia um evento em funcionamento nos fundos do mesmo imóvel. O espaço, no entanto, possui alvará para serviços gráficos, e não para a realização de eventos.
Diante da irregularidade, o parlamentar informou que solicitou à Secretaria de Ordem Pública (Seop) a apuração do caso, seguindo os trâmites necessários para a possível cassação do alvará. “Constatamos uma dupla irregularidade: na frente, um bar que afronta a lei com mensagens discriminatórias e, nos fundos, um espaço que desvirtua completamente sua finalidade legal”, afirmou Valle. Ele reforçou ainda que práticas discriminatórias são inaceitáveis e que antissemitismo, assim como o racismo, é crime inafiançável e imprescritível.
As denúncias ocorrem em um contexto internacional de tensões envolvendo Israel, Estados Unidos e Irã, o que, segundo especialistas, pode contribuir para o aumento de episódios de intolerância. No entanto, entidades reforçam que manifestações discriminatórias, independentemente do cenário geopolítico, configuram violação de direitos e devem ser combatidas.







