Desconexão digital vira tendência e motiva eventos sem celular pela cidade

Participantes buscam movimentos, encontros e experiências que funcionem como contrapartidas à hiperconexão e ao cansaço provocado pelas redes sociais

Por Pedro Inácio Xavier 3 jul 2026, 08h45
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Da leitura ao crochê: vale tudo para esquecer as redes, nem que seja por poucas horas  (KatrIn r. Shumakov/Getty Images/Divulgação)
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É difícil imaginar a vida longe das telas. Afinal, o ambiente on-line molda comportamentos e dita tendências.

A expressão “fomo” (do inglês fear of missing out) descreve o medo de perder eventos, oportunidades e interações sociais preciosas.

Essa sensação de que os outros vivem experiências melhores ou mais interessantes foi turbinada pelo uso excessivo das redes sociais e suas vitrines de momentos felizes e recortes de realidades que parecem perfeitas.

Na contramão desse fenômeno, “jomo” (joy of missing out) representa a satisfação de estar conectado ao presente, valorizando o próprio tempo, longe de comparações.

Ao longo da turnê de lançamento do livro A Alegria em Ficar de Fora (Editora Agir), o especialista em comportamento e sustentabilidade André Carvalhal incentivou a desconexão digital, promovendo não só a clássica noite de autógrafos, mas piquenique com jogos, sessão de pintura e até aula de axé com ioga.

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(./Divulgação)
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“Trabalhando com tendência, aprendi que as atitudes humanas se movimentam em polaridade. Aí pensei ‘se eu estou viciado em telas mas pretendo me libertar disso, outras pessoas também vão querer a mesma coisa”, aponta Carvalhal, que criou, em parceria com a Papel Craft, a coleção Clube Offline, que vai de caça-palavras gigantes a uma canga temática. “A estampa tem várias perguntas para estimular conversas”, explica.

Homem branco de boné laranja e camisa amarela, com bigode farto, sorrindo levemente para a câmera em fundo branco
(Estêvão Andrade/Divulgação)

Realizado em parceria com o Instituto Ideia, o estudo O Mapa da Felicidade Real no Brasil revelou que 51% dos brasileiros sentem-se tristes ao usar as redes sociais. Entre os jovens, 71% afirmaram comparar a própria vida com a de conhecidos ou famosos por ali.

“Pessoas com perfil mais inseguro e baixa autoestima acabam sofrendo com isso”, observa a coordenadora da primeira pós-graduação em dependência digital da América Latina, Anna Lucia Spear King.

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Segundo a psicóloga e doutora em saúde mental, a hiperconexão pode, sim, ser prejudicial. “As pessoas não têm mais tempo para si mesmas, tampouco para se dedicar aos outros de forma presencial”, atesta.

Apesar de ter apenas 23 anos e ser uma nativa digital, a mestranda em comunicação Pérola Kim se lembra com saudade da época em que não ficava o tempo todo de olho na telinha do celular.

Em busca da ‘vida real’, ela participou de um encontro off-line nos jardins do Museu da República. “Quando o evento terminou, eu me senti tão bem que não quis voltar para casa. Fui viver o dia e passear, acho que deu uma clareza sobre o que realmente importa”, entusiasma-se.

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Autoconhecimento: “Participar de um desses encontros me deu uma clareza sobre o que realmente importa”, diz Pérola Kim, 23 anos (./Arquivo pessoal)

Grandes celebrações internacionais também andam restringindo o uso de celulares. O Met Gala, importante baile do mundo da moda, realizado anualmente no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, pede que os convidados mantenham o foco nas obras e nas interações sociais.

No Brasil, as festas phone-free foram aderidas por celebridades como Anitta e Neymar — a fim de evitar cliques comprometedores — e a Heineken lançou um celular sem acesso a redes sociais para estimular o tête-à-tête.

Segundo a plataforma Eventbrite, eventos sem smartphone cresceram 567% em todo o planeta entre 2024 e 2025. Fundadora da ONG Yoga na Maré, Ana Olívia Cardoso decidiu arregaçar as mangas em nome da saúde mental coletiva. Ela criou o Revolução Offline, cujo lema é “juntos e reconectados”.

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“São momentos de silêncio, ao ar livre, para que as pessoas possam relembrar hábitos individuais como a leitura, a pintura e o bordado, que aumentam a autoestima”, conta Ana Olívia, acrescentando que a maior parte do público é formada por mulheres. “A faixa etária e a condição financeira variam. A ideia é criar pontes entre as pessoas de diversos bairros.”

Na realidade hiperconectada, estar off-line é um privilégio que resgata o valor das práticas essenciais à vida humana. 

Modo off-line 

Eventos para fugir das telas 

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A Alegria em Ficar de Fora. O livro de André Carvalhal será lançado com uma oficina de corte e dobra com a paper designer Natasha Gompers. Fabulosa Lab. Rua do Catete, 168, Loja 7, Catete. 11 de julho, 14h. R$ 280,00. Ingressos pelo 99992- 0032. @carvalhando. 

Clube Craft. Os encontros mensais focam numa atividade diferente a cada edição. Eles ocorrem aos finais de semana, geralmente no final do mês. R$ 110,00 a R$ 130,00. Ingressos e informações em clubecraftco.lojavirtualnuvem.com.br. @clubecraft.co 

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(Nicole Lopes/Divulgação)

Revolução Offline. Experiência compartilhada de duas horas em silêncio. A ideia é estimular a criatividade com práticas analógicas, do crochê à leitura. Jardins do Museu da República. Rua do Catete, 153, Catete. 2 de agosto. das 10h às 12h. @revolucao.offline.

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