Desconexão digital vira tendência e motiva eventos sem celular pela cidade
Participantes buscam movimentos, encontros e experiências que funcionem como contrapartidas à hiperconexão e ao cansaço provocado pelas redes sociais
É difícil imaginar a vida longe das telas. Afinal, o ambiente on-line molda comportamentos e dita tendências.
A expressão “fomo” (do inglês fear of missing out) descreve o medo de perder eventos, oportunidades e interações sociais preciosas.
Essa sensação de que os outros vivem experiências melhores ou mais interessantes foi turbinada pelo uso excessivo das redes sociais e suas vitrines de momentos felizes e recortes de realidades que parecem perfeitas.
Na contramão desse fenômeno, “jomo” (joy of missing out) representa a satisfação de estar conectado ao presente, valorizando o próprio tempo, longe de comparações.
Ao longo da turnê de lançamento do livro A Alegria em Ficar de Fora (Editora Agir), o especialista em comportamento e sustentabilidade André Carvalhal incentivou a desconexão digital, promovendo não só a clássica noite de autógrafos, mas piquenique com jogos, sessão de pintura e até aula de axé com ioga.
“Trabalhando com tendência, aprendi que as atitudes humanas se movimentam em polaridade. Aí pensei ‘se eu estou viciado em telas mas pretendo me libertar disso, outras pessoas também vão querer a mesma coisa”, aponta Carvalhal, que criou, em parceria com a Papel Craft, a coleção Clube Offline, que vai de caça-palavras gigantes a uma canga temática. “A estampa tem várias perguntas para estimular conversas”, explica.
Realizado em parceria com o Instituto Ideia, o estudo O Mapa da Felicidade Real no Brasil revelou que 51% dos brasileiros sentem-se tristes ao usar as redes sociais. Entre os jovens, 71% afirmaram comparar a própria vida com a de conhecidos ou famosos por ali.
“Pessoas com perfil mais inseguro e baixa autoestima acabam sofrendo com isso”, observa a coordenadora da primeira pós-graduação em dependência digital da América Latina, Anna Lucia Spear King.
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Segundo a psicóloga e doutora em saúde mental, a hiperconexão pode, sim, ser prejudicial. “As pessoas não têm mais tempo para si mesmas, tampouco para se dedicar aos outros de forma presencial”, atesta.
Apesar de ter apenas 23 anos e ser uma nativa digital, a mestranda em comunicação Pérola Kim se lembra com saudade da época em que não ficava o tempo todo de olho na telinha do celular.
Em busca da ‘vida real’, ela participou de um encontro off-line nos jardins do Museu da República. “Quando o evento terminou, eu me senti tão bem que não quis voltar para casa. Fui viver o dia e passear, acho que deu uma clareza sobre o que realmente importa”, entusiasma-se.
Grandes celebrações internacionais também andam restringindo o uso de celulares. O Met Gala, importante baile do mundo da moda, realizado anualmente no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, pede que os convidados mantenham o foco nas obras e nas interações sociais.
No Brasil, as festas phone-free foram aderidas por celebridades como Anitta e Neymar — a fim de evitar cliques comprometedores — e a Heineken lançou um celular sem acesso a redes sociais para estimular o tête-à-tête.
Segundo a plataforma Eventbrite, eventos sem smartphone cresceram 567% em todo o planeta entre 2024 e 2025. Fundadora da ONG Yoga na Maré, Ana Olívia Cardoso decidiu arregaçar as mangas em nome da saúde mental coletiva. Ela criou o Revolução Offline, cujo lema é “juntos e reconectados”.
“São momentos de silêncio, ao ar livre, para que as pessoas possam relembrar hábitos individuais como a leitura, a pintura e o bordado, que aumentam a autoestima”, conta Ana Olívia, acrescentando que a maior parte do público é formada por mulheres. “A faixa etária e a condição financeira variam. A ideia é criar pontes entre as pessoas de diversos bairros.”
Na realidade hiperconectada, estar off-line é um privilégio que resgata o valor das práticas essenciais à vida humana.
Modo off-line
Eventos para fugir das telas
A Alegria em Ficar de Fora. O livro de André Carvalhal será lançado com uma oficina de corte e dobra com a paper designer Natasha Gompers. Fabulosa Lab. Rua do Catete, 168, Loja 7, Catete. 11 de julho, 14h. R$ 280,00. Ingressos pelo 99992- 0032. @carvalhando.
Clube Craft. Os encontros mensais focam numa atividade diferente a cada edição. Eles ocorrem aos finais de semana, geralmente no final do mês. R$ 110,00 a R$ 130,00. Ingressos e informações em clubecraftco.lojavirtualnuvem.com.br. @clubecraft.co
Revolução Offline. Experiência compartilhada de duas horas em silêncio. A ideia é estimular a criatividade com práticas analógicas, do crochê à leitura. Jardins do Museu da República. Rua do Catete, 153, Catete. 2 de agosto. das 10h às 12h. @revolucao.offline.





