Grupo Especial do Carnaval vive momento decisivo: a escolha dos sambas de 2027
Especialistas acreditam que a folia carioca vive, há uma década, uma espécie de “primavera dos enredos”
Na madrugada de 27 de setembro de 2025, a Unidos do Viradouro escolhia o samba que conduziria sua trajetória rumo ao título do Carnaval 2026, com a justa e belíssima homenagem a Mestre Ciça.
O processo havia sido iniciado semanas antes, com a entrega da sinopse ao segmento de compositores.
Esse momento-chave para as escolas de samba se reinicia agora, num momento de plena vitalidade criativa.
Sete meses antes da festa na Sapucaí, todos os representantes do Grupo Especial já definiram seus enredos.
Essa época do ano é marcada por reuniões reservadas, pesquisas históricas, livros espalhados sobre mesas de trabalho e conversas que atravessam madrugadas, envolvendo membros de diversos setores das agremiações.
Para as escolas, o período em que os temas deixam de pertencer apenas aos carnavalescos e seus desenvolvedores para ganhar voz própria nos becos e vielas das comunidades é extremamente simbólico.
“Buscamos construir um texto que ofereça liberdade criativa, permitindo que cada compositor desenvolva sua leitura dentro desse recorte. Isso permite que grandes poemas conduzam o espectador para o universo que pretendemos apresentar na Avenida”, explica Tarcísio Zanon, carnavalesco da atual campeã.
A temporada de escolha dos sambas-enredo costuma se estender por três meses.
Durante esse etapa, dezenas de obras são apresentadas nas quadras, avaliadas com afinco e submetidas a sucessivos cortes até a eleição oficial.
Para o Carnaval 2027, os temas revelam diversidade estética e narrativa. Há espaço para a literatura brasileira, personagens históricos, religiosidade popular, ancestralidade africana e homenagens a figuras fundamentais da memória das agremiações.
A Vila Isabel, por exemplo, trabalha numa grandiosa adaptação do romance Torto Arado, do baiano Itamar Vieira Junior, enquanto a Unidos da Tijuca busca inspiração no best-seller A Cabeça do Santo, da cearense Socorro Acioli.
Já a Portela vai celebrar a trajetória de Monarco (1933- 2021), um de seus baluartes, e a União de Maricá, estreante na elite do Carnaval, vai render homenagem ao antropólogo, sociólogo e ex-ministro Darcy Ribeiro (1922-1997).
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As inspirações das religiões de matriz africana serão seguidas por Grande Rio, Mangueira e Viradouro.
Especialistas acreditam que o Carnaval carioca vive, há uma década, uma espécie de “primavera dos enredos”, ao mesmo tempo refletindo a contemporaneidade e transformando-se constantemente.
“Para 2027, a tendência de temas robustos culturalmente segue dando as cartas. A literatura brasileira se une à crítica política e a resgates históricos muito interessantes”, analisa Fábio Fabato, autor do livro Pra Tudo Começar na Quinta-Feira: o Enredo dos Enredos, juntamente com Luiz Antonio Simas.
“Os enredos das escolas de samba são uma forma livre e formidável que o brasileiro inventou para contar histórias e transmitir saberes. Devem sempre surpreender e emocionar”, acrescenta o escritor.
A previsão é de que em 19 de setembro, ou seja, em dois meses, todos os sambas já estejam eleitos. Até lá, os compositores vão transformar sinopses em versos, pesquisas em refrões e conceitos em emoção. E, mais uma vez, o Rio de Janeiro vai começar a cantar as histórias que pretende contar ao mundo no maior show da Terra.
Dos orixás aos grandes personagens
Os enredos escolhidos pelas doze agremiações do Grupo Especial
Domingo – 7 de Fevereiro
União de Maricá. Utopia Brasil faz uma homenagem ao antropólogo e educador Darcy Ribeiro.
Beija-Flor. Zeneida: O Sopro do Pó de Louro fala sobre a pajé e ambientalista paraense Zeneida Lima.
Paraíso do Tuiuti. Ciata: A Mãe Preta do Samba traz a história da principal incentivadora do gênero musical.
Vila Isabel. Torto Arado – Sobre a Terra Há de Viver Sempre o Mais Forte é uma adaptação do romance de Itamar Vieira Junior.
Segunda – 8 de Fevereiro
Mocidade Independente de Padre Miguel. Latinamente Independente – Nosso Norte é o Sul em Remanifesto exalta a cultura da América Latina.
Unidos da Tijuca. A Cabeça do Santo é baseado no best-seller da escritora cearense Socorro Acioli.
Salgueiro. Laroyê, Xica da Silva – A História Por Trás da História retrata a trajetória da escrava que virou rainha.
Imperatriz Leopoldinense. A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Júlia é uma continuação simbólica do desfile de 1974 sobre Dona Santa, histórica rainha do maracatu pernambucano.
Terça – 9 de Fevereiro
Portela. Ao Mestre, com Carinho faz tributo a Monarco, um dos baluartes da Azul e Branca.
Viradouro. Griô vai mostrar os guardiões da memória e da tradição oral africana.
Grande Rio. Sankofa Tabon – Os Retornados da Costa do Ouro e a Estrela Negra da Liberdade retrata a história de um grupo de escravos revoltosos que foi enviado de volta à África no século XIX.
Mangueira. Oyá por Nós destaca a orixá símbolo de liberdade, movimento e reinvenção.





