Manguezal carioca resiste entre pressões urbanas, memória e descobertas

Vegetação predominante por aqui é berço da biodiversidade e aliada contra o aquecimento global

Por Renata Busch 8 Maio 2026, 07h06
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Pernilongos-de-costas-brancas: turismo de observação de aves é possibilidade de aproximação com a natureza (Gustavo Pedro/Divulgação)
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Vegetação predominante na paisagem carioca, os manguezais, típicos de regiões costeiras tropicais, são aclamados como o berçário da vida marinha e também pela capacidade até seis vezes maior, na comparação com as florestas terrestres, de evitar que o carbono, vilão do efeito estufa, alcance a atmosfera. Esse reconhecimento, no entanto, é recente, como mostra o livro Manguezal Carioca (Editora Luminatti), lançado em abril. Na obra, o professor Mário Soares resume quatro décadas de pesquisas à frente do Núcleo de Estudo em Manguezais (Nema) da Uerj.

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“O ecossistema tem a cara da paisagem litorânea do Rio, mas sofre com a ocupação desordenada desde a colonização”, explica Soares. Ele lembra que, no século XIX, essas áreas eram consideradas insalubres pelas autoridades sanitárias devido à umidade, ao mau cheiro e à proliferação de insetos, e muitas acabaram aterradas, a exemplo do Mangue de São Diogo, que deu lugar ao Canal do Mangue, na Zona Central. Conchas de ostras encontradas nos sambaquis, sítios arqueológicos de mais de 2 000 anos, às margens das baías de Guanabara e Sepetiba, apontam que os povos originários extraíam das florestas à beira-mar insumos para se alimentar e matéria-prima para criar utensílios. 

Outro símbolo dessa relação estreita é o Manto Tupinambá, repatriado da Dinamarca para o Brasil em 2024, atualmente sob a guarda do Museu Nacional. Usada em cerimônias sagradas indígenas, a indumentária era confeccionada com penas vermelhas dos guarás, espécie típica desse ecossistema que inspirou o nome Guaratiba, mas que não voa na região desde meados dos anos 1990. Com o avanço da despoluição da Baía de Guanabara, a torcida é para que a ave reapareça espontaneamente.

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A propósito, dois flamingos “gringos” viraram sensação na Reserva Biológica Estadual de Guaratiba (Rebio) há dois anos. “Um deles é europeu, e os ornitólogos não souberam dizer o que motivou a mudança da rota, mas a sua chegada virou uma euforia. É o primeiro da espécie registrado por aqui. Ainda pareou com um chileno e escolheu uma prainha para morar”, conta Gustavo Pedro, fotógrafo carioca que há oito anos captura imagens dos manguezais cariocas, usadas para ilustrar o livro assinado por ele e o professor Mário Soares. 

Montagem
Flagras: nos últimos oito anos, Gustavo Pedro fotografou pernilongos-de-costas-brancas, caranguejos, flamingos e o arisco mão-pelada (acima em sentido horário) (Gustavo Pedro/Divulgação)

A imersão nesse ambiente úmido e cheio de mosquitos exige preparo físico, mas rende momentos inesquecíveis. Nas áreas de maior acúmulo de sal, chamadas de apicuns, o fotógrafo descobriu que é possível andar de bicicleta. “Pedalei quilômetros, algo que só foi possível porque estava bem seco. O manguezal intriga pela riqueza de sua biodiversidade”, afirma. Parecido com o guaxinim, o arisco mão-pelada é o terror dos catadores de caranguejo pelo hábito de surrupiar o crustáceo sorrateiramente das armadilhas. “Disseram que seria difícil clicá-lo, então me programei para ficar três dias esperando por ele, mas dei sorte e consegui logo no primeiro. É um animal que age como um fantasma”, compara Pedro.

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Nem todo cenário como esse convida a descobertas. No Complexo da Maré, Zona Norte, a realidade é outra. A vegetação remanescente é impactada ambientalmente em razão da pouca renovação de água pelas marés e pelo aporte de esgoto. “As primeiras moradias ali eram palafitas, comprovando que, nos centros urbanos, as áreas de mangue são historicamente ocupadas por populações vulnerabilizadas. Sem saneamento básico, foi criada a percepção equivocada de que os manguezais são sujos”, alerta o pesquisador da Uerj. 

Em trinta anos, a área de mangue na Rebio recuou trezentos metros em direção ao continente, como resposta à elevação do nível do mar. “Esse processo de adaptação só é possível por existirem áreas desocupadas, permitindo que todo o sistema se ajuste. O que não é o caso daqueles cercados por estruturas urbanas”, explica Mário Soares. Ao lado dos recifes de corais, o manguezal é um dos principais responsáveis pela manutenção da alta biodiversidade da zona costeira.

Espécies de peixes, crustáceos e moluscos exploradas economicamente dependem dele para existir, sustentando uma cadeia produtiva que envolve pescadores e ribeirinhos. Daí a importância da educação ambiental. “A prática de atividades esportivas, como caiaque ou stand-up paddle é uma forma de aproximar as pessoas. Uma possibilidade é incentivar que o público visite e, como contrapartida, liste os animais que encontrou no passeio. Outra opção é o turismo de observação de aves”, sugere o fotógrafo. Caminhos válidos para sensibilizar e aproximar as pessoas da natureza.  

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Tesouro negligenciado 

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Centro do Rio: Ao longo da urbanização, áreas foram aterradas, como o Mangue de São Diogo, por onde hoje passa parte da Avenida Presidente Vargas (Gustavo Pedro/Divulgação)

Curiosidades sobre o rico ecossistema 

O nome certo. Mangue são as espécies de árvores, manguezal inclui solo, plantas e animais. 

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Riqueza Imensurável. Cerca de 1 500 espécies de plantas e animais dependem do ecossistema para sobreviver. 

A colonização não ajudou. O início das alterações nos manguezais se deu no século XVI, com a chegada dos europeus. Ao longo da urbanização, extensas áreas foram aterradas — entre elas, o Mangue de São Diogo, por onde passa hoje parte da Avenida Presidente Vargas (acima). 

Ambiente preservado. A área de manguezal no estado ocupa hoje 14 800 hectares. O Brasil abriga 1,2 milhão de hectares, atrás apenas da Indonésia. Cada hectare é responsável por estocar 500 toneladas de carbono. 

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