Marcio Maranhão: “Menos bisturi, mais caneta”
Criador de Sob Pressão e Emergência 53, que acaba de estrear, o médico carioca fala sobre as histórias que levou da linha de frente dos hospitais para as telas
Uma ambulância percorre 200 quilômetros com um paciente em insuficiência respiratória até que ele pudesse ser internado. A cena poderia estar no seriado Emergência 53, que estreou em agosto na Globoplay, inspirado na rotina dos socorristas do Samu, mas foi vivida por Marcio Maranhão, 56 anos, enquanto era plantonista do serviço de atendimento móvel.
Depois de décadas na linha de frente da sáude pública, ele transformou os bastidores da profissão em livro. Sob Pressão: A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro deu origem ao filme e à série homônima da Globo, que teve cinco temporadas e rendeu a Marjorie Estiano — com quem Maranhão emplacou um romance quando foi consultor no set — uma indicação ao Emmy.
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Na nova atração, o médico participou desde a concepção até o roteiro. A produção foi o original de ficção mais visto na primeira semana de exibição na plataforma — o que já lhe garantiu uma segunda temporada — e levou um prêmio durante o Berlinale Series Market, na Alemanha.
Formado pela Uerj, com especialização em cirurgia geral e torácica, ele conta como o trabalho de roteirista o fez um médico melhor e ressalta a importância do Sistema Único de Saúde, mesmo com todas as suas deficiências.
Quais vivências inspiraram Emergência 53? Trabalhar por dois anos no Samu, numa cidade partida como a nossa, me apresentou uma realidade que não conhecia. Foi uma imersão de cidadania e antropologia, e me mostrou como o adoecimento também nasce do abandono de políticas públicas. Esses contrastes foram a base da série, que ficciona a experiência dos heróis que fazem os atendimentos nas ruas. E o Rio acabou virando um personagem principal, está em todas as cenas.
Algum caso específico te marcou? Percorri 200 quilômetros com um paciente em insuficiência respiratória até conseguir interná-lo, com a filha dele dentro da ambulância. Em outro atendimento, entrei numa comunidade na Ilha do Governador sob tiros para atender uma criança de 5 anos em grave crise de asma. O Samu deve se preservar nessas situações de risco, mas o pai desceu e nos abordou desesperado. Conseguimos reverter o quadro, e ela voltou a respirar no meu colo depois de quase 40 minutos.
Quando escreveu o livro já pensava em adaptações audiovisuais? Não. As histórias foram sendo escritas como uma forma de elaborar tudo o que eu vivia. Reconhecer a potência dramática em dado momento foi o pulo do gato, a partir de um encontro feliz que tive com Claudio Torres, Andrucha Waddington e Mini Kerti.
Quais as principais diferenças destas produções nacionais para as séries americanas que marcaram os anos 1990 e 2000? Esses seriados são ótimos, eu assistia. Mas eles retratam sistemas de saúde muito distantes do nosso — não há nos Estados Unidos algo tão complexo, robusto e universal. Minha inquietação ao levar o SUS para as telas era tirá-lo do noticiário das crises e mostrar a sua grandiosidade, com seus erros e acertos.
Acha que a TV pode fazer algo que governos e instituições não conseguem? Gostaria que sim, mas não podemos idealizar um produto televisivo. O entretenimento é o objetivo principal. Mas quando ele provoca reflexões, reverbera para o bem ou para o mal. É importante incitarmos a conversa, evidenciando algo que se trata de política de Estado e não de governo. Algumas pessoas acham que não precisam do SUS e isso é uma falácia. Todo mundo depende.
Quais as maiores deficiências do sistema? Precisamos de uma rede integrada, na qual se possa não só fazer o primeiro atendimento, mas também levar para um hospital de retaguarda, onde se tenha um tratamento adequado. Mostrar os problemas em cena é um compromisso nosso com a realidade brasileira. Quantas vezes eu não saí com uma ambulância sucateada, sem ar-condicionado ou respirador funcionando? Não queremos fazer uma série chapa-branca.
Você está prestes a embarcar em uma missão voluntária pelo Brasil. A jornada pode ir para as telas? Parto no dia 5 de outubro para atender populações ribeirinhas do rio Solimões. O barco sobe e faz uma parada de sete dias, com dentistas, pediatras, anestesistas e cirurgiões. Por trinta anos, fui médico militar e estive em regiões muito miseráveis. Minha maior motivação é compreender a dimensão do país, onde a população está e do que ela precisa. Vou com o olhar de médico e de roteirista, pronto para coletar histórias que posso levar para o audiovisual.
Acredita que o lado artístico te transformou em um médico melhor? Trabalhar com a Marjorie me fez retomar perguntas essenciais — que havia deixado de fazer — sobre o propósito da profissão. Às vezes, a gente negligencia a coisa mais rica, que é o privilégio de cuidar de alguém. Ao criar um roteiro, é preciso ter um viés humano. Por muito tempo, vi conflito em abraçar um paciente, por conta do distanciamento que é preciso para operar uma pessoa. Agora sei que não preciso mais me esconder atrás do olhar técnico.
Já pensou em desistir da medicina? Não abandono por nada, mas sei que ela não me define por inteiro. Trata-se de uma profissão generosa, que permite ir para diversos campos, então também posso ser generoso com ela, no sentido de comunicá-la de outras formas. Minha inspiração é Drauzio Varella, que mostra como isso vai além de informar — exige compreender a complexidade do país. Defendo uma medicina com menos remédios e mais histórias, menos bisturi e mais caneta, que preserva as relações.
Num momento em que a inteligência artificial coloca uma quantidade enorme de informação ao alcance do paciente, o que passa a diferenciar a consulta médica? O conhecimento está muito acessível para todos. Isso não é uma coisa ruim, mas a tomada de decisão tem que se dar num ambiente onde você tenha uma relação entre dois seres humanos. Estamos caminhando para um momento de muita fragmentação por conta da digitalização da saúde, inclusive na relação entre médico e paciente. O tempo acelerado coloca tudo numa dimensão rasa. O valor não está no número de seguidores ou quanto um médico particular cobra, mas na dimensão humana.






