Ministério da Magia? Entidade religiosa diz controlar o clima do Brasil e do mundo

Afinal, como funciona o serviço da Fundação Cacique Cobra Coral, instituição que mistura espiritualidade, meteorologia e negócios sem convencer os céticos

Por Alessandra Carneiro 4 set 2026, 07h00 | Atualizado em 4 set 2026, 11h41
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Cacique Cobra Coral: a entidade religiosa afirma controlar o clima (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
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No dia 29 de julho, um vendaval provocou duas mortes, deixou 1,9 milhão de imóveis sem energia elétrica e derrubou mais de duzentas árvores. Não demorou para uma explicação bem carioca ganhar as redes sociais: a culpa seria do fim do convênio da prefeitura com a Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC), que afirma interferir em fenômenos atmosféricos por meio da médium Adelaide Scritori.

A entidade estava sem atuar oficialmente por aqui desde a troca de prefeito. Segundo Osmar Santos, marido de Adelaide e porta-voz da instituição, caberia à nova gestão manifestar formalmente o interesse na parceria. A reação veio depressa: poucos dias depois, foi assinado um acordo válido até 2051, um recorde entre as partes. Outros dois alertas de vento forte mobilizaram a cidade, mas as rajadas ficaram aquém do temido. Para Santos, não há coincidência. “Foi o cacique trabalhando para minimizar os efeitos”, atesta.

Criada em Guarulhos, São Paulo, em 1931 por Ângelo Scritori, pai de Adelaide, a fundação passou a atuar no Rio no primeiro governo Cesar Maia, entre 1993 e 1996, e atravessou diferentes gestões. De réveillons aos Jogos Olímpicos de 2016, passando por carnavais e megashows, foi por causa da cidade que o tal cacique entrou para o imaginário popular.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o acordo não custa um centavo aos cofres municipais. O “preço” é outro: até o dia 25 de outubro de cada ano, a prefeitura deve apresentar um relatório sobre limpeza de rios e córregos, obras preventivas e ações futuras. “Não podemos ajudar os homens de maneira permanente se fizermos por eles aquilo que podem e devem fazer por si próprios”, diz o porta-voz. Se o espírito indígena trabalha de graça, a fama ajuda a vender. À sombra da FCCC cresceu a Corporação Tunikito, comandada por Osmar Santos, que já ofereceu boletins meteorológicos e capas de chuva para eventos. Hoje, a principal fonte de renda é a Tunikito Seguros, com apólices de vida, automóveis e proteção contra desastres.

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Depois do vendaval que atingiu a cidade em julho, a prefeitura assinou novo contrato com a firma da médium: Osmar Santos e Adelaide Scritori não cobram dinheiro, mas exigem relatórios de obras preventivas (./Arquivo pessoal)

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Entre feitos reivindicados, a fundação atribui a si o tempo firme nas Olimpíadas de Londres, em 2012, ao supostamente desviar as nuvens para áreas secas da Espanha. Sem guardar registros do encontro, Santos diz ter ouvido do então presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge: “Se cair uma gota de chuva…”, acompanhado de um gesto de garganta cortada. Em 2025, a FCCC rompeu a assistência aos Estados Unidos em represália às tarifas de Donald Trump, embora ainda “chovam” pedidos de empresas americanas.

Nem toda previsão, porém, resistiu às intempéries. A relação com o Rock in Rio terminou em 2015, depois de edições encharcadas (veja no quadro). A instituição sustenta que apenas reduz os efeitos dos fenômenos. “O cacique funciona como um airbag: não evita a batida, mas minimiza os estragos”, compara Santos.

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Para o meteorologista César Soares, da Climatempo, não há respaldo científico algum para esse suposto poder. “Às vezes, o modelo não representa bem a realidade daquele dia. O que parece um afastamento místico é, na verdade, um desvio de previsão associado à falta de dados ou ao conhecimento computacional ainda insuficiente sobre a região”, explica.

O Rio abre ainda mais espaço para interpretações: o combo mar, maciços e montanhas faz da cidade uma das mais complexas do país para a meteorologia. “A Climatempo não acredita na Fundação Cacique Cobra Coral. A partir do momento em que escolhemos o lado da ciência, deixamos o lado da crença”, resume. Entre o conhecimento, o misticismo e o negacionismo em tempos de emergência climática, uma profecia parece segura: por aqui, o cacique ainda tem muito trabalho pela frente.  

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O lado da ciência: para o meteorologista César Soares, da ClimaTempo, não há respaldo algum para o suposto poder de desviar tempestades ou ondas de calor (./Arquivo pessoal)
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Na mosca ou por água abaixo? 

Episódios celebrados como acertos pela entidade e outros três em que São Pedro não colaborou 

Na mosca 

Rock in Rio 2001. Era o auge do verão e até chegou a chover nas cercanias, mas a Cidade do Rock atravessou os sete dias sem água, feito que ajudou a transformar o cacique em figura famosa. 

Réveillon de 2023. Com previsão de chuva em Copacabana, a produção dos shows convocou Adelaide Scritori no dia da festa. Não caiu um pingo na virada do ano. 

Todo Mundo no Rio 2026. O show de Shakira nas areias mais famosas do mundo terminou com tempo firme, embora uma frente fria se aproximasse. A chuva chegou apenas no dia seguinte, acompanhada de mar agitado e alerta de ressaca. 

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Todo Mundo No Rio 2026: show da colombiana teve instabilidade climática (Fernando Schlaepfer/Divulgação)

Por água abaixo 

Rock in Rio 2011. No último dia, um dilúvio encharcou o palco, queimou uma mesa de som e levou Axl Rose a cantar de capa e chutar poças durante o show do Guns N’ Roses. A FCCC, porém, alegou que o atraso da banda empurrou a apresentação para além do horário coberto pela operação. 

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Rock in Rio 2011: chuva no show de Guns N’ Roses estragou equipamento (Buda Mendes/Getty Images)

Rock in Rio 2015. Outra forte chuva atingiu a Cidade do Rock, inclusive durante a performance do A-Ha, selando o fim da relação. Roberto Medina afirmou que a fundação prometeu tempo firme e não cumpriu. Um problema na van teria atrasado a chegada da equipe e o ritual necessário não foi cumprido. 

Encerramento da Rio2016. Adelaide atuou durante os Jogos, mas logo na despedida uma chuva forte e constante atrapalhou a cerimônia de encerramento no Maracanã. 

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