Moacyr Luz celebra nova vida após cirurgia no cérebro: “Menos medo da morte”
Transparente sobre os desafios impostos pela doença de Parkinson, o músico dribla as dificuldades e estreia seu novo álbum na quinta (20), no Blue Note
“Os primeiros sintomas do Parkinson apareceram em 2008. Estava em Cuba, fazendo um show no Teatro Karl Marx e, no meio da apresentação, senti que um dos dedos não se movimentava normalmente.
Fui investigar e comecei um tratamento para lesão por esforço repetitivo (LER).
Um dia, um médico me viu em uma loja e veio falar comigo, dizendo que meus sintomas eram de Parkinson.
Quando o diagnóstico se confirmou, meu mundo caiu. Por mais que eu ache que doença é algo a qual todo mundo está sujeito, essa é especialmente cruel.
Uma hora não te deixa falar, na outra não dá para mastigar, a boca treme, a cabeça dói, o equilíbrio vai embora.
É tanta coisa acontecendo que é difícil assimilar.
E o pior é tomar o remédio sabendo que ele não está te curando, apenas atrasando a evolução do quadro.
Ao longo desses anos, minha saúde piorou bastante. Cheguei a um ponto em que caía todos os dias e tinha muitos pesadelos por conta da medicação.
No ano passado, estava gravando em Maricá e senti muitas dores. Fui acometido por um forte nervosismo, que me fazia tremer cada vez mais.
Acabei passando a noite no hospital e, depois desse episódio, eu e minha família chegamos à conclusão de que não dava mais para continuar debilitado daquela forma.
Conversamos então com os médicos para ver as possibilidades de operação.
No dia 14 de outubro de 2025, fiz uma cirurgia de estimulação cerebral profunda (DBS) no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, que durou doze horas.
Entrei no centro cirúrgico de cadeira de rodas, porque não conseguia me movimentar.
Quando acordei da anestesia, já conseguia comer sozinho. Àquela altura, já fazia dois anos que só me alimentava com a ajuda de outra pessoa.
Tocar violão havia se tornado uma tarefa muito difícil, não havia sincronicidade entre as duas mãos.
Às vezes dava uma choradinha no canto e seguia, porque sou uma pessoa que nunca desiste, mesmo com a máxima dificuldade.
Tive alta após três dias e, pouco mais de uma semana depois, já estava de volta ao Samba do Trabalhador.
Foi um retorno muito emocionante, casa lotada.
Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Lembro que, depois que voltei, a Lucimara, uma vendedora que trabalha lá, foi falar comigo toda empolgada, contando que tinha comprado seu apartamento e precisava que eu continuasse com a roda para ela poder pagar as prestações.
Pensei: ‘caramba, agora é que não paro mesmo’. Eu sei que completamente bom, eu não vou ficar.
Em fevereiro, sofri uma queda a uns cinquenta metros do palco, antes de um show, e quebrei o braço.
Precisei colocar onze parafusos. Então, até hoje, fico atento quando vou me deslocar, mesmo entre distâncias pequenas, mas não deixo o fracasso subir à cabeça.
Vou devagar, com o maior cuidado, para fazer as coisas que quero.
A música foi fundamental para eu me recuperar. Desde a cirurgia no cérebro, fiz cerca de trinta composições.
Estou apaixonado por uma, que diz: ‘não posso reclamar da minha vida, eu tenho um santo que me guia. Para cada santo eu faço minha prece, eu não suporto despedida, isso é coisa que entristece.’
Além dessa leva de canções, 2026 trouxe muitas coisas boas, como a exibição do filme Moacyr Luz, o Embaixador Dessa Cidade em São Paulo, a Medalha Tiradentes e o lançamento do álbum Moa + Moura, que está inscrito no Grammy Latino e levaremos ao Blue Note.
Para mim, cantar na Cidade Maravilhosa é estar envolvido com um outro tipo de felicidade.
Por mais que exista sofrimento aqui, é um lugar que ainda devolve muito através do carinho das pessoas. Quero seguir colhendo os frutos dos meus cinquenta anos de carreira, gravando com o Zeca Pagodinho até quando puder.
A partir de setembro, vou excursionar por São Paulo, Vitória e Manaus.
Meu show com Zé Renato e Guinga homenageando Aldir Blanc no Teatro Rival esgotou em menos de 24 horas.
A juventude está gostando muito de mim e isso me dá motivos para continuar. Quanto à saúde, sigo acompanhado por médicos e, recentemente, meu açúcar disparou.
Nem sempre os drinques são meus aliados.
Como não sou tartaruga para viver de alface, sigo procurando um equilíbrio. Mas considero a batalha ganha.
Minhas mãos não tremem mais, todo mundo comenta que aparento estar melhor.
Em todo esse tempo, a tristeza me alcançou várias vezes, mas tenho bem menos medo da morte.
Não vou parar de compor. Vou me dedicar eternamente a esse ofício que, modéstia à parte, considero que faço muito bem.
Uma vez uma repórter perguntou ao Villa-Lobos se ele estava compondo e ele respondeu que, naquela altura da vida, já estava decompondo. Eu ainda estou compondo.”
*Em depoimento a Lucas Vieira







