O Pará é pop: cidade guarda pérolas com atmosfera paraense

No embalo da COP30, a cultura amazônica invade a cidade com sabores, ritmos e celebrações que unem o Norte e o Sudeste

Por Elisa Torres 7 nov 2025, 07h49
O carimbó do Pescados na Brasa
O carimbó do Pescados na Brasa: eventos atraem fãs de toda a cidade (Camila Bessa/Divulgação)
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Toalhas de chita, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, pinturas marajoaras nas paredes e um apetitoso aroma de peixe assando sobre carvão. Esse é o cartão de visitas do Pescados na Brasa, que atrai gente de toda a cidade ao Riachuelo, na Zona Norte. O cardápio recheado de clássicos, como o pato no tucupi, a maniçoba e o tacacá, fizeram do reduto um ponto de encontro de apaixonados pelo Pará, que uma vez por mês aproveitam a roda de carimbó, no meio da rua. “As primeiras edições juntavam no máximo cem pessoas. Hoje, vêm mais de 1 500”, conta Adriana Veloso, dona da empreitada ao lado do marido, José Maria. Após cinco anos de sucesso, o casal inaugurou, em março, uma filial no Leblon, evidenciando o apelo da cultura e dos sabores do segundo maior estado do país. Enquanto as discussões sobre a emergência climática ocupam Belém, sede da COP30, o Rio guarda pérolas com atmosfera paraense. “Até os anos 1990, o Pará era distante. Essa solidão criou uma forma muito própria de viver e fazer música, comida, arte. Quando a TV e a internet começaram a mostrar o que fazemos, o público do Sudeste se encantou”, analisa o professor universitário e carnavalesco Milton Cunha, nascido na capital paraense.

Iguarias do Pescados na Brasa
Além dos peixes na brasa, restaurante do Riachuelo aposta em pratos típicos, como o pato no tucupi, a maniçoba e o tacacá (Fabio Rossi/Divulgação)

Cada vez mais pop, o estado do Norte cruzou divisas e passou a ocupar palcos, museus e centros culturais Brasil afora, com artistas como Gaby Amarantos, fenômeno nacional do tecnobrega, e Dona Onete, que aos 86 anos teve sua trajetória contada no documentário Dona Onete: Meu Coração Neste Pedacinho Aqui, de Mini Kerti, exibido no Festival do Rio. “O sucesso da cultura amazônica é resultado de uma trajetória de resistência. A projeção nacional tem raízes em Fafá de Belém, que pariu a fórceps o orgulho de ser paraense”, ressalta Milton Cunha.

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No Méier, a Livraria Belle Époque, comandada por Rachel Xavier, realiza um festival mensal, ocupando o asfalto, com grupos de carimbó, DJs e oficinas. A Amazônia também é o foco da exposição de longa duração Festas, Sambas e Outros Carnavais, em cartaz a partir deste sábado (8) no Museu do Pontal. “Desde a abertura da nova sede, em 2021, colocamos essa rica região como ponto principal de nossas pesquisas”, diz Angela Mascelani, curadora do Museu do Pontal. A coletiva apresenta ritmos e festas locais, como o Círio de Nazaré e o Carnaval das Águas, além das famosas aparelhagens retratadas nos quadros de Maria José Batista, da periferia de Belém.

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Um dos principais símbolos da cultura carioca, a Marquês de Sapucaí exibiu, em 2025, o belíssimo desfile da Grande Rio sobre as pororocas parawaras, que rendeu o vice-campeonato à agremiação. A carimbozeira Andréia de Vasconcelos preparou alguns integrantes — incluindo a então rainha de bateria, Paolla Oliveira — e desfilou junto aos ritmistas, executando a levada típica. “O carimbó é mais que uma dança. Trata-se de uma cultura potente e completa, para ser vivenciada ao ar livre, com o pé no chão”, define Andréia, que às quartas, às 19h, ministra aulas da dança regional na Fundição Progresso.

Açaí do Tacacá do Norte
O Tacacá do Norte, desde 1973 no Flamengo, é um dos estabelecimentos de comida típica paraense no Rio (Tomas Rangel/Veja Rio)
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O flerte entre as gastronomias carioca e paraense é antigo. Fundado em 1955, em Copacabana, o Arataca é pioneiro na venda do açaí puro, sem adição de xaropes, como mandam os costumes ribeirinhos. Outro velho conhecido dos cariocas é o Tacacá do Norte, desde 1973 no Flamengo. Na sorveteria Benza, descendente da sexagenária Cairu, é possível experimentar o sabor mestiço, que combina tapioca e açaí. “Cada colherada conta a história do Brasil”, resume a sócia Anna Carolina Costa. “É uma honra mostrar a riqueza da minha terra diante da Baía de Guanabara”, afirma Saulo Jennings, que abriu uma filial carioca da Casa do Saulo no Museu do Amanhã.

Sorveteria Benza
Na sorveteria Benza, descendente da Cairu, fazem sucesso sabores como o mestiço, que combina tapioca e açaí (./Divulgação)
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O chef, aliás, se recusou a assinar o menu vegano do Earthshot Prize, iniciativa comandada pelo príncipe William, de Gales, já que sem pirarucu não se faz um legítimo banquete paraense. A realeza nem imagina o que perdeu.

Carimbó pau e corda - Andréia de Vasconcelos
O grupo de carimbó pau e corda Turiá, organizado por Andréia de Vasconcelos, ministra aulas na Fundição Progresso e participa de eventos no Museu do Pontal (Ratão Diniz/Divulgação)
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Eu vou tomar um tacacá (e muito mais): da comida à dança, uma rota pelas maravilhas amazônicas

Livraria Belle Époque. A próxima edição do festival Carimbó Suburbano acontece em 6 de dezembro, a partir das 12h. Rua Soares 50, Méier. Seg. a sex. 10h/19h (sáb., 10h/17h. Fecha aos domingos). @livrarabelleepoque.

Museu do Pontal. A mostra Festas, Sambas e Outros Carnavais joga luz a manifestações populares como o Círio de Nazaré. Avenida Célia Ribeiro da Silva Mendes, 3 300, Barra da Tijuca. Qui. a dom. 10h/18h. Entrada gratuita. @museudopontal.

Benza. Sorveteria com sabores típicos. Rua Xavier da Silveira, 45, Copacabana. Seg. a sáb. 10h30/19h (dom. 11h/18h). Mais dois endereços. @sorveteriabenza.

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Tacacá do Norte. A casa serve o típico açaí. Rua Barão do Flamengo, 35, Flamengo. 11h/23h.  @tacaca_do_norte.

Casa do Saulo. Gastronomia da Amazônia com insumos de pequenos produtores. Museu do Amanhã. Praça Mauá, 1, Centro. 11h/18h (fecha qua). @casadosaulomuseudoamanha.

Fundição Progresso. Oficinas da dança de roda regional são comandadas por Andréia de Vasconcelos. Rua dos Arcos, 24, Lapa. Quartas-feiras, 19h. Inscrições pelo  (21) 99772-5305 e aturiacarimbo@gmail.com. @fundicaoprogresso.

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