Entre o hype e a ciência, os peptídeos ganham espaço no fitness

Substâncias que prometem acelerar recuperação e desempenho se popularizam nas academias, mas ainda levantam dúvidas sobre eficácia, segurança e regulação.

Por Angela Cardoso 10 abr 2026, 07h56 | Atualizado em 10 abr 2026, 10h46
Protein powder in scoop on a blue and pink background top view.
Nova promessa: Peptídeos ganham espaço nas rotinas fitness, apesar das incertezas (Stock/Getty Images/Divulgação)
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  • Se Wolverine existisse fora dos quadrinhos, talvez dispensasse as garras de adamantium – bastaria uma rotina afinada de suplementos. Pelo menos é isso que sugere o apelido que circula no mundo fitness: “Wolverine stack”, expressão usada para descrever uma combinação de substâncias associada a uma recuperação quase sobre-humana, como mostrou uma reportagem recente da The Economist. É nesse contexto que ganham espaço tratamentos e suplementos à base de peptídeos.

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    A regeneração de Wolverine é ficção: mas há quem acredite que ela pode vir em forma de suplemento (Disney/Divulgação)

    Concorrendo com potes de whey protein, creatina e colágeno, eles prometem acelerar a recuperação do corpo, potencializar resultados e até atuar na perda de peso, em sintonia com a onda global de biohacking, que busca otimizar o corpo por meio de intervenções tecnológicas e biológicas.

    “Me sinto menos fatigada entre os treinos e consigo manter uma frequência maior”, diz Natália Almeida, 42 anos. Praticante de crossfit, ela descobriu o produto durante uma viagem ao Canadá no ano passado e passou a usar uma versão em pó vendida no Brasil, o LiveStrong com PeptiStrong, produzido pela Essential Nutrition. Desde então, incorporou-o à sua rotina: “Foi uma mistura de curiosidade com a vontade de melhorar minha recuperação.”

    Peptídeos não são novidade: são cadeias de aminoácidos que o próprio corpo produz e que já estão presentes em medicamentos consagrados, como a insulina, com usos bem definidos e controlados. “Peptídeos atuam como agentes biológicos que interferem diretamente em vias celulares. Na prática, estão mais próximos de fármacos do que de suplementos”, explica o médico Fabiano Serfaty.

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    Médico Fabiano Serfaty: “É mais uma construção de mercado do que um conceito científico consolidado” (./Arquivo pessoal)
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    Enquanto o whey protein fornece nutrientes, esses compostos influenciam o funcionamento interno do organismo. Estudos iniciais, sobretudo em animais, indicam efeitos como melhora na cicatrização, redução de inflamações e estímulo à regeneração tecidual. Mas é justamente aí que o entusiasmo encontra seu limite. “Esses resultados ainda não se confirmaram em larga escala em humanos”, afirma o especialista. Ainda assim, o interesse só cresce. Nas redes sociais, os peptídeos são frequentemente apresentados como uma alternativa mais moderna às proteínas tradicionais, como o próprio whey. Para o endocrinologista, essa narrativa precisa ser relativizada. “A ideia de que esses compostos representam uma evolução é mais uma construção de mercado do que um conceito científico consolidado”, diz Serfaty.

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    Do hype à desconfiança: as redes amplificam o entusiasmo e as incertezas em torno dos peptídeos (./Divulgação)
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    Era dos injetáveis: compostos prometem desempenho, mas carecem de evidência (./Divulgação)

    A distância entre promessa e evidência ajuda a explicar também o impasse regulatório. No Brasil, substâncias como BPC-157 e TB-500 (dois tipos de peptídeos) não são aprovadas pela Anvisa como medicamentos ou suplementos ó portanto, não passaram por avaliações formais de segurança, eficácia e qualidade. Ainda assim, esses compostos seguem circulando por meio de compras on-line e canais informais, sem garantia de procedência ou controle sanitário, e são encontrados também em clínicas de estética, em versões injetáveis.

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    Em comunicado oficial, a Essential Nutrition informou que o LiveStrong com PeptiStrong chegou a ter a venda suspensa pela Anvisa, em novembro de 2025, mas que a comercialização foi mantida por decisão judicial enquanto a análise da agência segue em curso. No site da marca, o pote, com trinta doses, custa 390 reais. “Na saúde, o que define um produto é a evidência, a segurança e o controle”, resume Serfaty.

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    Essa distinção se acentua na forma de uso também. Por via oral, os peptídeos enfrentam barreiras do organismo que limitam sua absorção. Já na forma injetável, eles conseguem agir de forma mais direta, mas carregam riscos adicionais e seguem sem validação científica relevante.

    No fim, entre promessas de desempenho e atalhos para o corpo ideal, o que separa inovação de risco não é o discurso ó é o que a ciência consegue, de fato, sustentar. 

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    Exemplos de produtos vendidos em sites e lojas de suplementos: sem aprovação da Anvisa (./Divulgação)

    Não é bem assim: O que se promete e o que a ciência já comprovou sobre os peptídeos 

    Expectativa

    • Recuperação muscular acelerada, mais desempenho nos treinos e auxílio na perda de peso. 
    • Ação direta no organismo, com resultados mais rápidos do que suplementos tradicionais. 
    • Produtos inovadores, associados à regeneração do corpo e melhora da performance. 

    Realidade

    • Faltam estudos robustos em humanos que comprovem esses benefícios.
    • Alguns compostos não são aprovados por órgãos como a Anvisa e podem circular sem controle de qualidade.
    • Uso sem orientação pode trazer riscos à saúde.
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