Pesquisa da histórica da UFRJ reproduz corais em laboratório

Os cientistas reproduziram os cnidários no terraço de um dos prédios da universidade, em resposta ao impacto irreversível do aquecimento global nos oceanos

Por Pedro Coutinho 24 abr 2026, 08h53 | Atualizado em 24 abr 2026, 08h55
This coral reef is a rare climate survivor. A port project may kill it.
Em perigo: os corais são responsáveis por 30% da biodiversidade do mar e vêm sofrendo com o avanço das temperaturas no mar  (Shireen Rahimi/The Washington Post/Getty Images/Divulgação)
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Na quinta-feira pré-Carnaval, dia 12 de fevereiro, os termômetros passavam dos 35 graus na Cidade Universitária da UFRJ quando ovos de corais-cérebro eclodiram na laje do laboratório de bioeconomia.

Os animais, coletados em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, estavam longe de casa. Para a reprodução ser possível, foi necessário quase um ano de análises do comportamento reprodutivo e alguns meses de cuidado intenso em condições materiais distantes das ideais.

O time de pesquisadores liderado pelo casal de professores Fabiano e Cristiane Thompson calculava em detalhes as condições da água: temperatura (sempre em 21 graus), filtragem, nível de cálcio… Tudo precisava estar perfeito — e deu certo.

Professor Felipe Landucci e equipe de pesquisa do Instituto de Biologia da UFRJ, na fazenda de corais onde conseguiram reproduir corais cerebro. No Instituo de Biologia, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro RJ. Foto de Daniela Dacorso..
(Daniela Dacorso/Veja Rio)

 

Das cinco colônias armazenadas em caixas de plástico naquele dia, quatro eclodiram. É a primeira vez que uma universidade brasileira realiza a reprodução sexuada do cnidário. “A ideia é refazer o processo anualmente”, revela o professor Felipe Landuci, também à frente da pesquisa.

Ao fim do ciclo de fertilidade, os pequenos animais marinhos foram devolvidos ao mar, mas os ovos foram encaminhados a laboratórios.

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Os corais brasileiros podem não ter cores tão exuberantes quanto os australianos, mas as espécies que vivem aqui não são encontradas em outros cantos. “Se a gente não se mobilizar agora, elas podem ser exterminadas”, alerta Landuci.

Formados por um coletivo de pólipos, os corais dão origem aos recifes, estruturas complexas nas quais plantas, micróbios e outros seres da fauna marinha vivem em associação.

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Responsáveis por 30% da biodiversidade do mar, eles são essenciais na reprodução de diversos peixes, moluscos e crustáceos, o que os torna base para comunidades de pescadores. “Os corais têm papel primordial na regulação do clima do planeta, porque retêm gás carbônico”, explica Landuci.

Por essas razões, o declínio populacional dos corais é tão preocupante. Um relatório divulgado pelo Global Tipping Points em outubro de 2025 chegou a uma conclusão drástica: não há volta para o branqueamento dos corais de águas quentes.

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Causado pelo aquecimento global, esse fenômeno tem origem no desequilíbrio da relação entre o coral e a zooxantela, microalga que vive dentro das células e dá cor ao animal. A mudança de temperatura da água faz com que o coral cuspa essa plantinha — sem ela, ele não faz a fotossíntese e perde a cor.

Com os embriões em mãos, os pesquisadores podem entender a resistência dos corais e a melhor forma de instalá-los no mar. “Conseguindo escalabilidade, podemos refazer os ambientes coralíneos de outras localidades, como a Região dos Lagos ou o arquipélago de Abrolhos, na Bahia”, celebra Fabiano Thompson.

Professor Felipe Landucci e equipe de pesquisa do Instituto de Biologia da UFRJ, na fazenda de corais onde conseguiram reproduir corais cerebro. No Instituo de Biologia, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro RJ. Foto de Daniela Dacorso..
Iniciativa louvável: mesmo com pouco acesso a verba e longe das condições ideais, pesquisadores da UFRJ conseguiram o feito que pode revolucionar a biologia marinha (Daniela Dacorso/Veja Rio)

 

A pesquisa da UFRJ tem o objetivo de incentivar, a longo prazo, a chamada bioeconomia marinha ou azul, que consiste em utilizar recursos biológicos aquáticos para criar produtos e serviços de alto valor agregado — abrangendo desde remédios e alimentos até a produção de plástico.

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Um relatório da União Europeia lançado no ano passado aponta que, só em 2022, o segmento empregou 4,8 milhões de pessoas no continente. A abordagem dos pesquisadores cariocas é uma forma de introduzir o pensamento sustentável num mercado focado em lucro.

Se a gente não buscar geração de renda através dos nossos projetos, o financiamento acaba”, explicita Landuci, afinal, o grande obstáculo para o avanço do estudo é a dificuldade de obter verba.

“Conseguimos um investimento de 5 milhões de reais através de um edital do BNDES voltado para a bioeconomia azul, mas a burocracia atravanca o acesso ao recurso”, desabafa.

“O Rio tem tudo para liderar a bioeconomia marinha no Brasil, que também é vetor de turismo. Esse estudo é um ativo estratégico”, defende o secretário estadual de Sustentabilidade e Ambiente, Diego Faro. O avanço nesse assunto é necessário e urgente, porque o planeta não pode mais esperar. 

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Fundamentais para a vida 

O que são e por que é importante preservar os corais 

NORTH ARI ATOLL, MALDIVES - JANUARY 27: Various sea creatures seen as coral reefs show severe damage due to rising sea temperatures linked to climate change during dives in the North Ari Atoll, Maldives on January 27, 2026. Observations reveal a significant decline in coral populations, along with coral bleaching. Anemones, schools of snapper fish, hawksbill sea turtles and a dense moray eel population were observed during the dives at an area known as ¿fishtank.¿ (Photo by Tahsin Ceylan/Anadolu via Getty Images)
(Tahsin Ceylan/Anadolu via Getty Images/Divulgação)

Animais? Sim! Invertebrados, eles integram o grupo das cnidárias, o mesmo das águas-vivas. Formados por colônias de pequenos pólipos, os conjuntos de diferentes espécies criam os recifes. 

Na vizinhança. As ilhas Tijucas e de Grumari, da Zona Oeste, foram incluídas em 2024 na seleta lista internacional Hope Spots, que aponta ecossistemas com grande potencial em biodiversidade, mas vulneráveis ao impacto humano pela proximidade a grandes cidades. 

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Em águas fluminenses. Num mergulho em Búzios e Arraial do Cabo, por exemplo, é possível avistá-los. 

Em alerta. A Iniciativa Internacional para os Recifes de Coral aponta que 84% dos recifes do mundo estão morrendo. Já houve quatro eventos globais de branqueamento, quando conjuntos das três principais bacias oceânicas (Atlântico, Pacífico e Índico) são descoloridos em massa e simultaneamente. 

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