Por que o Rio é a cidade com mais apostadores de bet do país?
Ministério da Saúde, prefeitura e UFRJ têm programas de atendimento a jogadores que usam plataformas de apostas esportivas
A cidade do Rio lidera o ranking nacional de capitais com maior percentual de apostadores em plataformas de apostas esportivas, concentrando cerca de 1,8 milhão de CPFs cadastrados, o equivalente a quase 27% da sua população. Em São Paulo, cuja população é quase duas vezes maior, o percentual ficou em 15,75%. O preocupante dado se soma a outros. De acordo com o Ministério da Saúde, por exemplo, desde o fim de março, 27.703 pessoas se cadastraram no Brasil para o teleatendimento em saúde mental do SUS voltado a jogadores e apostadores. Do total, 2.448 são do estado do Rio.
Este ano, o Brasil atingiu um recorde de endividamento: 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, segundo dados do Serasa, divulgados em julho de 2026. O Rio é o quinto estado com mais gente no vermelho, com 45% dos fluminenses devendo. A pesquisa mostrou ainda que 46% dos inadimplentes já apostaram em bets — quase metade diz que jogou com a esperança de quitar suas dívidas.
Além do Ministério da Saúde e da prefeitura do Rio – que, via Secretaria municipal de Saúde, criou um programa para cuidar de pessoas com o transtorno do jogo – também a UFRJ lançou um projeto para atender a jogadores, dentro do programa Dependências — Droga, Jogo e Álcool. Para o psiquiatra Marcelo Santos Cruz, coordenador da iniciativa, o número de pessoas dependentes cresceu com a facilidade de acesso a jogos na internet. “Antes, era necessário sair de casa para jogar, tinha que ir ao Jockey, ao cassino ou ao bingo. Agora, é possível apostar de qualquer lugar, pelo celular, e quantas vezes quiser”, disse ele, em entrevista ao jornal O Globo. “A propensão do carioca ao jogo é maior, e isso tem a ver com a expectativa de renda, que é menor aqui do que em São Paulo, além da questão da informalidade e da grande quantidade de funcionários públicos, com maior acesso a crédito consignado e taxas de juro mais baixas, o que gera uma tendência maior ao endividamento”, complementou o diretor do Instituto de Economia da UFRJ, Carlos Frederico Leão Rocha.
Há quase 50 anos, a ludopatia, também chamada Transtorno do Jogo, é classificada como transtorno mental e comportamental pela Organização Mundial da Saúde (OMS). As demandas por serviços de saúde cresceram e os atendimentos precisaram ser reformulados como o aumento do número de apostas de quota fixa, para eventos esportivos reais, popularmente conhecidas como bets, que foram legalizadas em 2018 pelo governo federal. Em 2023, foram incluídos os jogos on-line de cassino (como o do tigrinho).
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
No programa da prefeitura, já nas primeiras semanas de atendimento foi possível identificar um perfil de apostadores: quase 60% eram homens e 53% tinham entre 18 e 39 anos. Já entre os parentes afetados, 85% são mulheres com mais de 40 anos, a maioria delas mães e esposas dos entrevistados.







