Tesouro perdido: roubo à Chácara do céu tem esperança de solução no cinema
20 anos após ladrões levarem obras de Picasso, Dalí, Monet e Matisse, crime prescreveu; filme que dará final feliz ao caso está em fase de captação de recursos
Era o fim da tarde da sexta-feira de Carnaval de 2006 quando quatro homens armados, um deles com uma granada, renderam nove pessoas, entre seguranças e visitantes, no Museu da Chácara do Céu, em Santa Teresa. Numa ação que durou meia hora, cortaram com facas de prata do próprio acervo do mecenas Raymundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968) os fios de nylon que prendiam às paredes obras de Pablo Picasso, Salvador Dalí, Claude Monet e Henri Matisse. E fugiram levando um tesouro avaliado hoje em 26 milhões de dólares (quase 140 milhões de reais) em uma Kombi, em meio ao desfile do Bloco das Carmelitas. Vinte anos depois, a cena cinematográfica roteirizada por bandidos nunca encontrados está em vias de se tornar mesmo um filme. Só que, com toques ficcionais, a história será solucionada. Na vida real, no entanto, o crime acaba de prescrever após uma desastrada investigação da Polícia Federal. Na prática, o estado perdeu o direito de punir os culpados deste que é até hoje o oitavo maior crime do gênero no mundo numa lista de dez do FBI. “Esses roubos têm um perfil: costumam acontecer durante grandes eventos e revelam as fraquezas do ecossistema para proteção da arte no mundo inteiro”, lembra a jornalista Cristina Tardáguila, que por cinco anos mergulhou no caso do centro cultural carioca para escrever A Arte do Descaso (Intrínseca, 2016), base do futuro longa-metragem.
Exemplos desse modus operandi não faltam. O caso mais recente aconteceu em outubro do ano passado no imponente e lotado Louvre, em Paris. Em apenas sete minutos, os criminosos entraram por uma janela lateral, com o auxílio de uma escada elevatória e uma pequena motosserra, na Galeria Apolo, de onde levaram nove joias da Coroa Francesa. Isso às 9h30 de um domingo, no museu mais visitado do planeta, que exibe mais de 35 000 obras para 9 milhões de visitantes por ano. Outro assalto emblemático aconteceu em 1990, no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, Estados Unidos. Os ladrões se identificaram como policiais que teriam recebido uma chamada por perturbação e saíram carregando telas de Rembrandt, Vermeer, Degas, Manet e outros artistas renomados. “O script é o mesmo. Foi durante as comemorações do Dia de Saint Patrick”, destaca Cristina. Também arquivado, o caso americano foi tema de livros, podcasts e até de capítulos de séries de TV, como Os Simpsons, além do documentário O Maior Roubo de Arte de Todos os Tempos, na Netflix.
Apesar de tanto apelo por seu caráter espetacular, investigações não só do FBI, mas dos carabinieri italianos e da Interpol, apontam que esse tipo de ação não tem nada de glamour hollywoodiano, muitas vezes ajudando a financiar o crime organizado. “Essa história de roubo por encomenda é coisa de James Bond. Nenhum colecionador investe nisso”, afirma Jones Bergamin, o Peninha, diretor da Bolsa de Arte. Segundo ele, as peças costumam ser alvo de sequestro: o bandido quer dinheiro e o museu, seu acervo de volta: “Essas ocorrências, por sinal, praticamente acabaram quando as seguradoras pararam de negociar com os criminosos”. Não por acaso, o alvo no Louvre foram anéis, colares e brincos, avaliados em 102 milhões de dólares, que podiam ser derretidos ou ter suas pedras vendidas com mais facilidade.
Do valioso carregamento levado da Chácara do Céu nunca mais se teve notícias. A investigação começou com furos como o fato de o comunicado enviado pela PF aos aeroportos listar apenas três obras, sem qualquer descrição, nem imagens. Na sequência, a delegada Isabelle Kishida, que investigava o caso, solicitou que o telefone do motorista da Kombi fosse grampeado e pediu seu indiciamento ao ouvir conversas em que ele informava a um interlocutor que “a entrega havia dado certo”. Mas de nada adiantou, pois os telefonemas não foram gravados. “Falei com alguns reféns australianos, dez anos após o ocorrido, e eles nunca tinham sido ouvidos pela polícia”, lembra Cristina, acrescentando que o inquérito chegou a ficar perdido. Procurada, a Polícia Federal não comenta o caso. Mas na ficção o desfecho será outro. “A gente estabelece um culpado, que é descoberto por um policial e uma jornalista, inspirada na Cristina”, adianta Daniel Furiati Sroulevich, diretor e produtor executivo da Caribe Produções, que era um dos foliões do tal desfile do Carmelitas em 2006 e comprou os direitos autorais do livro. “A Polícia Militar tentava passar e a gente ficava jogando cerveja na viatura, sem nem imaginar o que tinha acontecido”, relembra.
O ataque à Chácara do Céu, vinculada ao Instituto Brasileiro de Museus do Ministério da Cultura (Ibram), chamou a atenção para a fragilidade da segurança dos museus cariocas. De lá para cá, a instituição ganhou um sistema mais moderno de monitoramento e captação de imagens, além de equipe de vigilância 24 horas. “Como medida preventiva adicional, desde o Carnaval de 2007, o museu fecha durante o período de festas”, informou o Ibram. Os itens roubados permanecem listados em instrumentos públicos de monitoramento, como o Cadastro de Bens Musealizados Desaparecidos (CBMD), criado apenas em 2013. A ideia é ampliar a visibilidade das peças e apoiar eventuais processos de identificação e recuperação. Resta a esperança de que as pinturas não tenham sido queimadas, como algumas molduras encontradas à época, e que um dia apareçam. Que a vida imite a arte e o final seja feliz.
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O que foi levado
Pinturas de grandes mestres e um livro raro estão entre os itens roubados
Marinha
Autor e data: Claude Monet, 1880/1890
Tamanho: 65cm x 91cm
Valor: Entre 8 e 10 milhões de dólares
Em tons pasteis, o quadro retratava um litoral montanhoso e inabitado, muito provavelmente no Sul da França. No céu, a obra do mais célebre impressionista chamava a atenção por um inusitado verde no lugar dos tradicionais azul, cinza e branco.
O Jardim de Luxemburgo
Autor e data: Henri Matisse, 1905
Tamanho: 40,5cm x 32cm
Valor: Entre 1 e 1,5 milhão de dólares
O óleo sobre tela mostrava uma paisagem parisiense característica da produção pré-fauvista do autor. Em 1989, ladrões já haviam levado a tela do museu carioca, junto a valiosos objetos de prata e pinturas de Cândido Portinari, mas as peças foram recuperadas.
Os Dois Balcões
Autor e data da obra: Salvador Dalí, 1929
Tamanho: 34,5cm x 23,5cm
Valor: Entre 5 e 7 milhões de dólares
A pintura a óleo sobre madeira mostrava dois edifícios paralelos com dois homens olhando pela janela, um em cada prédio, misturando tons de azul e marrom. Parecem idênticos, mas não são: enquanto o da esquerda passa a sensação de querer sair, o da direita parece estar buscando refúgio no silêncio de sua sombria residência.
A Dança
Autor e data: Pablo Picasso, 1956
Tamanho: 100cm x 81cm
Valor: Entre 6 e 8 milhões de dólares
Era a única pintura do catalão exposta numa coleção pública brasileira e a maior das pinturas roubadas. de acordo com o catálogo raisoneé de Picasso, integra uma série de quatro óleos concluída pelo pintor num mesmo dia. o quadro também já havia sido roubado da Chácara do Céu em 1989, mas foi recuperado meses depois.
Touros
O livro com poemas de Pablo Neruda e gravuras de Picasso reunia quinze pranchas soltas de ilustrações e costumava ficar exposto numa estante envidraçada em frente à antiga mesa de trabalho de Castro Maya. Quando foi roubado não estava completo. Três pranchas haviam sido retiradas para restauração. Foi avaliado entre 100 000 dólares e 150 000 dólares.
FONTES: A Arte do Descaso e Bolsa de Arte
Crimes de cinema
Três dos maiores roubos de arte da história segundo o FBI
A pintura Natividade com São Lourenço e São Francisco, de Caravaggio, foi roubada do Oratório de San Lorenzo, em Palermo, na sicília, em 1969. Avaliada em 20 milhões de dólares, a obra jamais foi recuperada e há suspeitas de ligação com a máfia italiana.
Após a invasão liderada pelos Estados Unidos, cerca de 15 000 peças foram saqueadas do Museu Nacional do Iraque, o principal do país, em 2003. Parte foi recuperada, mas um volume expressivo permanece desaparecido. Trata-se de um dos maiores ataques ao patrimônio cultural da história.
Disfarçados de policiais, dois homens entraram no Museu Isabella Stewart Gardner (1990), em Boston, e em 81 minutos levaram treze obras de mestres como Rembrandt e Vermeer. O caso nunca foi solucionado e é considerado o maior roubo de arte da história dos Estados Unidos, avaliado em mais de 500 milhões de dólares.





