À espera do brinde oficial, Rua da Cerveja está aberta à degustação

Após impasse entre a prefeitura e o consórcio responsável pelas obras, comerciantes anseiam pelo fim do quebra-quebra e da poeira que ainda espantam clientes

Por Paula Autran 29 Maio 2026, 06h01 | Atualizado em 1 jun 2026, 08h58
Copo de cerveja pilsen gelada com espuma transbordando, sobre uma mesa de madeira rústica, fundo preto
Loura gelada: em 2025, saíram das torneiras das cervejarias já inauguradas 300 900 chopes, sem contar os cerca de 100 300 litros de cerveja artesanal consumidos (Edson Souza/GettyImages/Divulgação)
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Aberta em 1698, a via que começa no encontro das ruas da Assembleia e Uruguaiana, seguindo até a Praça Tiradentes, no Centro, já teve vários nomes. Nasceu como do Egito, virou do Piolho e finalmente, em 1841, foi batizada de Rua da Carioca, quando a Câmara Municipal ratificou a denominação informal que já havia sido consagrada pela população, por ser aquele o caminho para quem buscava água no chafariz homônimo. Desde 2024, com a inauguração da cervejaria Vírus Bier, no número 55, o logradouro vem se preparando para fazer jus a uma nova alcunha, atraindo quem se interessa por outro tipo de bebida: Rua da Cerveja. Esse rótulo está atrelado ao projeto de revitalização que pretende transformar a até então desprestigiada região em point cervejeiro e, consequentemente, em polo turístico e gastronômico. A ideia é harmonizar tudo isso com preservação do patrimônio histórico e revitalização urbana. Seis dos nove primeiros estabelecimentos cadastrados já estão operando, em meio à poeira e ao barulho do quebra-quebra, previsto para terminar até agosto. Em 2025, saíram das torneiras 300 900 chopes, sem contar os cerca de 100 300 litros de cerveja artesanal consumidos. Os resultados dessa primeira fase animam os comerciantes. “Trazer clientes aos fins de semana é um desafio, porque a rua ainda é um canteiro de obras. Mas o almoço executivo e o happy hour já são um sucesso”, celebra Raphael Vidal, sócio da Cotovelo, prestes a completar o primeiro aniversário.

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Dias melhores virão: impasses com a concessionária foram solucionados, garante o vereador Pedro Duarte (abaixo), e as obras seguem a todo vapor com previsão de término em agosto (./Divulgação)
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Pedro Duarte: equipe da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara Municipal do Rio semanalmente inspeciona os trabalhos (./Divulgação)

A relação da Rua da Carioca com o popular suco de cevada é antiga. Em meados do século XIX, quando imigrantes europeus trouxeram a bebida para o Brasil, cervejarias e depósitos se instalaram ali. No número 39 funcionou, até 2022, o centenário Bar Luiz, fundado em 1887 como Zum Schlauch, numa alusão, em alemão, ao sistema de serpentinas imersas em gelo que resfriam o líquido. Reza a lenda que foi o primeiro lugar a servi-lo dessa forma no país. “A marca Cotovelo não é só uma brincadeira com o hábito de beber apoiado no balcão. Também é uma homenagem ao antigo dono do Bar Luiz, Adolph, praticante de queda de braço que desafiava a clientela para popularizar o chope”, conta Vidal, também à frente da Casa Porto e do Bafo da Prainha, empreendimentos determinantes na revitalização da Zona Portuária. Durante a obra do negócio mais recente, o empresário conseguiu recuperar detalhes como os ladrilhos hidráulicos do prédio de 1877, que ficou abandonado por dez anos. O menu também honra a história: o torresmo foi batizado de barriga de piolho, enquanto a costela à Zicartola é uma receita de Dona Zica (1913-2003), baluarte da Mangueira, feita com cerveja preta. O lendário restaurante que unia o nome dela ao do ilustre companheiro mangueirense também ficava por ali, no número 53. “Fazemos referência e deferência ao passado. Tudo isso ajuda a transformar o local num destino”, acredita ele.

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Homens trabalhando: “A rua ainda é um canteiro de obras, mas o almoço e o happy hour nos dias úteis são um sucesso”, exclama Raphael Vidal, à frente da Cotovelo, que honra o passado da via no menu e na arquitetura (./Divulgação)
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Rua da Carioca: via aberta em 16981698 já foi do Egito e do Piolho (Instituto Moreira Salles/Divulgação)

Embora o empresário Antônio Rodrigues, da rede Belmonte, tenha comprado a marca Bar Luiz num leilão, o espaço segue fechado. Mas graças ao Reviver Rua da Cerveja, dos 36 imóveis abandonados que integram o conjunto tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), nove vêm sendo ocupados pelas cervejarias que assinaram com a prefeitura e receberam repasses para reformá-los (veja no box). A condição é que as casas sejam transformadas em brewpubs, nas quais a bebida é produzida artesanalmente, comercializada e consumida. O projeto municipal faz parte de um conjunto de ações para atrair investimentos, turistas, moradores e atividades culturais para essa região. A ampliação das calçadas e a criação de novos espaços de convívio também estão previstos. Uma recente paralisação dos trabalhos por pouco não botou água no chope. “O consórcio responsável teve dificuldades financeiras e operacionais, mas depois de uma enquadrada da prefeitura está tudo funcionando num ritmo bom”, garante o vereador Pedro Duarte (Novo), presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara Municipal. Semanalmente, o órgão inspeciona os trabalhos, junto a equipes do poder executivo. Além de emitir um memorando de advertência ao consórcio, a Secretaria municipal de Infraestrutura liberou mais 722 000 reais para ajustes técnicos e de cronograma das reformas. “A gente fica chateado não com a obra em si, mas com a poeira”, frisa Luiz Oliveira, sócio da Vírus Bier, que não vê a hora de brindar o fim dos trabalhos. “Vamos fazer uma grande festa para comemorar esse novo boulevard”. Os canecos estão a postos, só falta brindar.   

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O impacto econômico do projeto 

8,1 milhões de reais é o investimento total 

222 milhões de reais é a estimativa de movimentação nos próximos quatro anos 

500 novos empregos serão gerados até 2030 

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7500 metros quadrados de espaço público revitalizado 

824 chopes servidos por dia em 2025 

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Novo polo: para atrair investimentos, turismo, moradores e atividades culturais para a região central da cidade, projeto prevê a transformação urbanística da via, com ampliação de calçadas e novos espaços de convívio. (./Prefeitura do Rio de Janeiro)
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Público engajado: a inauguração das cervejarias Piedade e Martelo Pagão (abaixo), que dividem o mesmo espaço, lotou de gente (./Riotur)

Com ou sem colarinho?

Confira os estabelecimentos já em funcionamento:

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Cervejaria Piedade (Rua da Carioca, 74 e 76) – Com dez anos de existência, leva o nome do bairro onde foi criada, na Zona Norte. A fábrica foi uma das primeiras a abrir as portas somente para atender ciganos, como se chamam os cervejeiros sem casa própria. A loja conta com doze estilos fixos de artesanais e alguns sazonais. São onze torneiras dentro do salão e mais cinco num balcão de frente para a rua. Também serve defumados de fabricação própria. 

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Piedade: 16 torneiras e defumados de fabricação própria (Alexandre Macieira Riotur/Divulgação)

Martelo Pagão (Rua da Carioca, 74 e 76) – Hidromelaria e pub, produz sete versões do fermentado de mel, quatro cervejas e braggot, bebida híbrida que remonta ao século XII e mistura os mundos da cerveja e do hidromel. No cardápio há croquetes e pastéis. 

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Hidromel: bebida alcoólica fermentada milenar produzida a partir de água, mel e leveduras (instagram @hidromel_martelo_pagao./Reprodução)

Cerveja Candanga (Rua da Carioca, 72) – Seu nome é uma referência à capital federal, mas a bebida é elaborada no Rio. O dono comprou o primeiro kit de cerveja com os 1050 reais encontrados pela cachorrinha Fuça, devidamente homenageada nos rótulos da American Pale Ale e Guise, por exemplo. O espaço é pet friendly, como não poderia deixar de ser 

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Martelo de Ouro: marca divide com a Piedade um casarão de quatro andares que tem 600 m2 de área (Rafael Catarcione/Prefeitura do Rio de Janeiro)

Cervejaria Vírus Bier (Rua da Carioca, 55) – A casa conta com seis torneiras de cerveja artesanal, com variedades batizadas de forma criativa, como Conjunt-wit (witbier), Neurotika (new england double) e Flôr de RIS (russian imperial stout). As que mais saem são Anti-Virus (pilsen), Philomena (IPA) e Red Fever (red ale). 

Arkam Beer  (Rua da Carioca, 21 e 23) – Original de Saquarema, teve sua primeira loja em Niterói até chegar ao Centro. Oferece dez tipos de chope e toda quarta rola promoção de pilsen e música ao vivo no happy hour. A tradicional feijoada marca presença nos almoços de sábado. 

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Arkan Beer: happy hour durante a semana e feijoada nos almoços de sábado (instagram @arkanbeer/Divulgação)

Cotovelo (Rua da Carioca, 15 e 17 ) – Conta com dez torneiras de chope e cervejas das marcas Búzios e Tio Ruy, presentes em todas as receitas do chef Tchelo Barreto. O chope carioca (American Light Lager), criado especialmente para lá pela Búzios, levou medalha de prata na 1ª Copa Rio de Cerveja Artesanal, em dezembro. Aos sábados, tem roda de samba acústica e feijoada. 

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Cotovelo: todos os pratos feitos com cerveja (instagram @choperiacotovelo/Divulgação)

 

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