Saída de lojas da Garcia d’Ávila sinaliza mudança de perfil da rua de Ipanema

Associação dos lojistas do endereço vê oportunidade no sacolejo e tem na mão um plano de reurbanização, em fase de aprovação na prefeitura

Por Marcela Capobianco
21 mar 2025, 06h05
Passo o ponto: lojas fecham as portas na Garcia
Passo o ponto: lojas fecham as portas na Garcia (Daniela Dacorso/Divulgação)
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Numa ponta, a Lagoa Rodrigo de Freitas, observada pelo Cristo Redentor. Na outra, a imensidão do mar, bem no Posto 10, com vista ampla para o Morro Dois Irmãos. Este privilegiado endereço, um trecho de 600 metros de animada calçada, abrigou por anos um comércio de rua chique, abundante em lojas de luxo e clientela de elevado padrão. Mas quem costuma bater perna ali, na Garcia d’Ávila, em Ipanema, já percebeu que há algo diferente no ar. Desde o início do ano, estabelecimentos vêm encerrando suas operações naqueles quarteirões, como a francesa Louis Vuitton, que após três décadas no bairro decidiu manter apenas um ponto em solo carioca, no VillageMall, na Barra — movimento que deve ser acompanhado pela também francesa Hermès, embora o shopping não confirme, e que já muda as feições deste naco comercial da cidade.

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Não é apenas o alto luxo que deixa a cena ipanemense. Entre marcas brasileiras, Schutz, Body For Sure, Cia. Marítima e Valisere (as três últimas do Grupo Rosset, que ficavam uma ao lado da outra, próximo à esquina com a Visconde de Pirajá) também decidiram mudar de rota. “A decisão leva em conta o comportamento de consumo do carioca, cada vez mais presente em canais digitais e em shoppings, o que obrigou a companhia a reavaliar a atuação em espaços de rua, onde são altos os custos para manter as lojas”, explicou em nota o Grupo Rosset.

Esta é uma conta que todos fazem. O valor de apenas uma das três lojas antes ocupadas pelo Grupo Rosset é de 50 000 reais por mês. Os empresários locais, naturalmente, se queixam. “Minha loja tem 30 metros quadrados e o aluguel é o dobro do que pago no imóvel de São Paulo, de 200 metros, pertinho da Rua Oscar Freire”, compara o estilista Thomaz Azulay, à frente da The Paradise. O predinho de três andares e 750 metros quadrados que abrigava a Louis Vuitton sai por 150 000 reais mensais — isso sem falar no IPTU superior a 18 000 reais por mês e na cobrança de luvas de 1,5 milhão para contratos de cinco a dez anos.

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H.Stern continua: prédio foi comprado pelo Opportunity
H.Stern continua: prédio foi comprado pelo Opportunity (Daniela Dacorso/Divulgação)

Mesmo assim, muita gente ainda acha que compensa arcar com o estratosférico gasto em troca da visibilidade que aquelas bandas cariocas proporcionam. “A Garcia vale o esforço, pois funciona como posicionamento para uma marca”, avalia Azulay. Neste entra e sai, a rua anda mudando de semblante, com a chegada de grifes como a Nannacay, de bolsas e acessórios feitos à mão, e da Farm ETC, primeiro endereço da loja voltado para decoração e acessórios. Marasmo não há. Do outro lado da rua, o imóvel da H.Stern foi comprado pelo Opportunity numa parceria com a SIG Engenharia, que colocará de pé um edifício corporativo de luxo de dezoito andares (a joalheria permanece). “A Garcia d’Ávila é uma vitrine para o mundo. A rua nunca vai deixar de ser o ponto comercial mais emblemático da cidade”, acredita Sissi Freeman, diretora de marketing da Granado, também presente na área.

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Uns saem e outros entram impulsionados pelas brechas abertas pelo próprio mercado. Na esquina com a Barão da Torre, o ponto que abrigou por menos de um ano o restaurante Boka, da mesma família do Sushi Leblon, está sendo recauchutado para dar lugar à importadora de vinhos Mistral, e o bar Magnólia já trouxe um agito para aquele pedaço. “A gente percebeu uma carência de um bar de bairro, mais despojado, o que acabou casando com o novo perfil da rua. Tem cliente que almoça por lá três vezes por semana”, celebra Eduarda Dupin, sócia do grupo Gitan, à frente do Magnólia. “O que vemos é um movimento natural de dinamismo do comércio. E, para o morador, é até melhor que abram lugares mais acessíveis. Nem os turistas querem saber de loja muito cara”, avalia Mariza Graça Lima, coordenadora da Amipanema, a associação local.

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Hermès: rumores de mudança para a Barra
Hermès: rumores de mudança para a Barra (./Divulgação)
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A migração do luxo para o VillageMall, que concentra hoje 90% das grifes internacionais de moda na cidade — a exemplo de Gucci, Prada e Tiffany & Co. —, já tem impacto nos lados de lá. “Só no último trimestre de 2024 houve um aumento de mais de 10% no volume de vendas”, comemora Claudia Leon, superintendente do shopping. A clientela que povoa a Barra ajuda a decifrar a curva. “Por concentrar a classe artística e celebridades, o Rio sempre teve um perfil muito forte de consumidor aspiracional, que precisa não só comprar, mas mostrar. E esse tipo de cliente está principalmente na Barra”, observa Lilyan Berlim, especialista da ESPM.

Sem se deixar paralisar pelos novos ventos, a Associação dos Lojistas da Garcia d’Ávila diz ver oportunidade no sacolejo e tem na mão um plano de reurbanização, em fase de aprovação na prefeitura, que prevê a extensão das calçadas e investimento em paisagismo, projeto assinado pela arquiteta Bel Lobo. “É uma rua bacana para testar negócios. Foi assim com o SO_Lo Café, que em menos de dois anos se expandiu para Leblon e Copacabana”, lembra o sócio Nando Kaplan. E assim a Garcia vai se mexendo para seguir atraente e virar mais uma página de sua história.

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