Salve Jorge: força do santo guerreiro vai muito além dos altares no Rio
Festejado na música, na literatura, nas artes plásticas e na gastronomia, queridinho dos cariocas atravessa crenças e reafirma seu lugar na cidade contemporânea
Embora o padroeiro do Rio de Janeiro seja São Sebastião, não há dúvidas de que quem mexe com a devoção dos cariocas é São Jorge. A imagem do guerreiro sob armadura, montado em um cavalo e enfrentando um dragão com sua lança está presente não só nos altares de diferentes crenças, como também em bares, camisetas, tatuagens, pingentes e até em adesivos colados nas latarias de carros. Afinal, pedir proteção nunca é demais. “Esse culto cresceu a partir do século XIX, com a chegada da Corte e a entrada da procissão em sua homenagem no calendário oficial da cidade”, conta o historiador Luiz Antonio Simas, que lança o livro São Jorge – O Santo do Povo e o Povo do Santo, em 23 de abril, feriado estadual que celebra a divindade. A obra inclui relatos tradicionais, passando por sua suposta origem e pelo culto em Portugal, na Turquia, Jerusalém e em países africanos. Nas palavras do professor, “é a história da humanização de um santo, e não da santificação de um homem”.
De Maria Bethânia aos Racionais MCs, artistas de diferentes vertentes gravaram canções reverenciando o Santo Guerreiro. Entre os principais devotos, Jorge Ben Jor compôs, por exemplo, Domingo 23 e Jorge de Capadócia. Ele não perde a alvorada na igreja da Praça da República, no Centro. O filme Jorge da Capadócia e a novela Salve Jorge trouxeram protagonismo ao ícone, que também apareceu nas adaptações televisivas do Sítio do Picapau Amarelo. “Já vi a minha obra reproduzida em tatuagens, a Grande Rio a reinterpretou num desfile e foi também capa do disco Arteiro, do Ramonzinho”, diz o artista plástico João Mulambo, natural de Saquarema e filho de Ogum, que transformou a fotografia de um garoto empinando uma moto numa espécie de São Jorge pós-moderno. “Ela é parte da série Traçantes, que tece crônicas visuais sobre a vida no Rio de Janeiro e fala sobre como a fé está presente no nosso cotidiano”, acrescenta. Nesse embalo, a espada-de-são- -jorge, planta que se tornou famoso amuleto contra energias negativas, virou tela para o artista Mar do Vale ó estampando palavras nas folhas, ele criou uma obra que caiu no gosto dos cariocas. “A ideia surgiu durante a folia que fazemos em homenagem a São Jorge na madrugada do dia 22 para o 23. A criação fez sucesso, as espadas se tornaram meu ganha-pão, e já fizeram parte do cenário de espetáculos teatrais e shows”.
Na próxima semana, o Rio de Janeiro vai render homenagens ao protetor com direito a balé de drones no céu da Zona Norte. Na Igreja Matriz de São Jorge, em Quintino, são esperados 1,5 milhão de fiéis em uma festa que contará com atividades religiosas já a partir deste domingo (19). Vários restaurantes vão servir a tradicional feijoada, prato que resulta do sincretismo. “É uma tradição cultural de Ogum que acabou agregada por conta do misticismo afro-popular brasileiro. Também é comum ver pessoas com fios de contas nos templos católicos nesta época do ano”, explica o babalaô Ivanir dos Santos. Xande de Pilares, que gravou as canções Lua de São Jorge e Eu Sou de Jorge, vai subir ao palco do Bar do Zeca Pagodinho da Barra. O bar Conserva ó que tem em seu cardápio a batida benza, inspirada na entidade ó recebe apresentação da sambista Marcelle Britto, além de oferecer um kit especial para quem pedir o prato típico, que inclui uma camiseta exclusiva. Seguindo a cultura dos terreiros, o Capiau, no Beco das Sardinhas, vai distribuir galopé – cozido de galo com pé de porco preparado na lenha. Seja na fé, na música ou na gastronomia, São Jorge mostra a sua força no dia 23 e nos demais 364 dias do ano.
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Alma de guerreiro
Cinco curiosidades sobre São Jorge, por Luiz Antonio Simas
Devoção no improviso. “A igreja hoje atribuída a ele no Centro do Rio é originalmente consagrada a São Gonçalo Garcia. A imagem do Santo Guerreiro foi movida para lá de forma provisória porque sua catedral, localizada nos arredores da Praça Tiradentes, entrou num processo de degradação e acabou sendo demolida. A ideia era levá-la de volta para a sede que seria reconstruída no terreno original, mas a obra nunca começou.”
Preconceito na própria igreja. “Alguns papas fizeram inúmeras reticências à santidade de São Jorge, e, desde a Idade Média, sua existência e milagres são questionados. Em 1969, o papa Paulo VI determinou que o culto a ele não era obrigatório e o resgate dessa devoção foi capitaneado por João Paulo II, trinta anos depois.”
A luta do bem contra o mal. “O dragão que aparece nas imagens é uma peça fundamental da imagem do santo, representando a maldade. A fera é como as dificuldades da vida, podendo ser a senhoria para quem paga aluguel; a violência misógina masculina para a mulher; o bandido para a polícia — e vice-versa.”
Cavaleiro da lua. “Isso é curioso: São Jorge teria nascido na Capadócia, na Turquia. Essa região tem uma geologia muito peculiar, que lembra o solo lunar. Existe uma hipótese de que esse fato motivou a construção dessa simbologia.”
Fusão de crenças. “Existem várias designações no cristianismo. No Alcorão, há registros de que ele conviveu com Moisés. No Brasil, São Jorge é ‘temperado’ no azeite de dendê, por conta do sincretismo que o envolveu em diversas localidades com Ogum e, na Bahia, com Oxóssi.”







