Sem baixar a guarda: mulheres impulsionam alta das aulas de lutas
Cresce a presença feminina nas artes marciais, embalada pela busca por autoconfiança, segurança e bem-estar
No tatame, a cena se repete: mães que levam seus filhos acabam ficando para assistir e, muitas vezes, voltam no dia seguinte trajando um quimono. No espaço Gracie Kore, comandado pela lutadora Kyra Gracie na Barra, o movimento feminino já ultrapassa o masculino nas turmas infantis. Dados recentes do Ibope Repucom, referência em pesquisas de marketing esportivo, indicam que o interesse das mulheres por atividades esportivas cresceu 20% no último ano, mais do que o dobro do avanço entre os homens. No recorte das lutas, o movimento é ainda mais expressivo: seis em cada dez entrevistadas afirmaram querer começar ou manter a prática.
Criada dentro do jiu-jitsu competitivo, Kyra passou anos sendo a única mulher em muitos treinos. A experiência foi transformada em conteúdo: seus vídeos de autodefesa viralizam nas redes. “Não é sobre luta, mas sobre postura, voz, limite e percepção de risco. A técnica aumenta a autoconfiança”, afirma. A virada de chave veio quando entendeu que só as disputas não bastavam. “O preparo é para a vida real”, enlaça.
Há uma mudança ampla de comportamento, mas é impossível ignorar o contexto de alerta. O Rio de Janeiro já aparece como o sexto estado com maior interesse feminino por artes marciais no país, em pesquisa recente da Maximum Boxing, empresa especializada em equipamentos esportivos. “As mulheres estão mais conscientes do seu valor, mas os números de violência são alarmantes”, diz Kyra. Mãe de Ayra, de 11 anos, fruto do casamento com o ator Malvino Salvador, ela leva a reflexão – e a preocupação ó para dentro de casa: “Quem tem uma filha mulher pensa: ‘E se algo perigoso acontecer? Ela saberia se defender?”.
O movimento também aparece nas academias. “Hoje, saúde, bem-estar e segurança pessoal caminham juntos”, aponta Dudu Netto, diretor-técnico da Bodytech, que registrou aumento de 15% na procura feminina pela prática nos últimos seis meses. Atualmente, são quinze diferentes modalidades de combate nas aulas coletivas da rede, sendo muay thai e kickboxing as mais procuradas pelas alunas.
O perfil de quem se matricula nesses cursos é diverso, o que ajuda a explicar o crescimento. “Eu treino há mais de dez anos, mas em ciclos. Voltei recentemente, há cerca de um mês”, conta a dermatologista Juliana Neiva, praticante de kickboxing. O retorno tem relação direta com o impacto da modalidade na rotina. “A luta me leva a um estado quase meditativo, porque exige foco e concentração. Em uma nova fase da vida, ela é um símbolo de força, superação e potência”, avalia a médica, exaltando ainda a possibilidade de extravasar o nervosismo. A professora Thaisa Rocha criou uma turma exclusiva para mulheres no Catete ao identificar uma demanda clara: “Muitas tinham curiosidade, mas também um certo medo. Criamos um espaço livre de assédio”, pontua.
Da melhora do condicionamento físico à redução do estresse, passando pela defesa pessoal, as motivações ajudam a consolidar uma nova fase das lutas no país: mais acessível, diversa e feminina.
Ringue ou tatame
O diferencial de cada modalidade
Boxe. Focado nos punhos, trabalha precisão, reflexo e movimentação. As aulas incluem sombra, manopla, saco e preparo físico. Requer luvas e bandagem e é uma das portas de entrada para a luta.
MMA. Combina trocação e luta de solo, reunindo técnicas de diferentes modalidades. As aulas misturam boxe, muay thai e jiu-jitsu, com treinos variados e intensos. Indicado para quem busca uma prática completa e alto gasto calórico.
Muay Thai. A “arte das oito armas” utiliza punhos, cotovelos, joelhos e canelas, e as aulas combinam aquecimento, técnica, rounds no saco e treinos de clinch (luta agarrada em pé). Indicado para quem busca intensidade, alto gasto calórico e mais resistência.
KickBoxing. Mistura boxe com chutes em treinos dinâmicos, com sequências rápidas e circuitos físicos. As aulas alternam técnica e condicionamento. Boa opção para quem quer um treino mais aeróbico e versátil.
Judô. Criado no Japão no século XIX, é uma das bases das artes marciais brasileiras. Centrado em quedas, projeções e controle do adversário, valoriza disciplina, equilíbrio e técnica.
Jiu-Jitsu. De origem nipônica e desenvolvido no Brasil pela família Gracie, ganhou projeção mundial e é referência em defesa pessoal. Focado no combate no solo, usa alavancas, estrangulamentos e imobilizações, privilegiando técnica sobre força.







