Show de Shakira desperta onda latina na moda, gastronomia e noite carioca
Com a promessa de reunir 2,5 milhões de pessoas na Praia de Copacabana, atração terá o maior palco do projeto Todo Mundo no Rio
De camisa verde e amarela, a cantora Shakira prova pão de queijo, coxinha e brigadeiro, hits nacionais, e, satisfeita, manda um recado aos fãs: “Nos vemos no altar do planeta”. Com o português em dia, como pode ser conferido no vídeo publicado recentemente nas redes, a cantora colombiana de 49 anos, ícone da música latina desde a década de 90, desembarca no Rio para um show que promete ser apoteótico, nas areias de Copacabana, no sábado 2 de maio. Verdade que ela já é de casa. São mais de quarenta exibições no Brasil — a primeira vez em um palco carioca foi em 1997, no antigo Metropolitan, na Barra, hoje Qualistage. À época, Estoy Aquí, do disco Pies Descalzos, foi alçada ao topo das paradas de sucesso nas rádios, algo incomum para uma música em espanhol. Ela também já dividiu o Palco Mundo do Rock in Rio com Ivete Sangalo, em 2011; fez o Maracanã inteiro entoar La La La no encerramento da Copa do Mundo de 2014; e estreou a turnê de Las Mujeres Ya No Lloran no Engenhão, em 2025, com a qual ingressou no Guinness como a artista hispânica com a maior bilheteria de todos os tempos. Foram mais de 3,3 milhões de ingressos vendidos e 421,6 milhões de dólares arrecadados. No mês passado, reuniu 400000 pessoas na Cidade do México e, agora, tem a missão de levar mais gente ainda à Princesinha do Mar, onde Madonna contabilizou 1,6 milhão de fãs em 2024 e Lady Gaga, 2,1 milhões de little monsters um ano atrás.
+ Para receber VEJA Rio em casa, clique aqui
O show de Shakira é o ponto culminante de uma maré que há meses avança sobre a cidade, onde uma onda latina se faz audível na trilha sonora e se revela com sua colorida exuberância estética e uma gastronomia de temperos vibrantes. No fim de março, começou a ser erguida a estrutura do palco do projeto Todo Mundo no Rio, a 2,2 metros do chão (terá 1 500 metros quadrados, 240 a mais que o do último). De acordo com os organizadores, são esperados 2,5 milhões de espectadores se sacudindo na orla ao ritmo de salsa, cumbia e reggaeton — tudo embalado pela “loba” colombiana, apelido que ganhou após lançar She Wolf, em 2009. Segundo pesquisa da Embratur, foram emitidos 8500 bilhetes aéreos internacionais com destino ao Rio para a tão aguardada data. Dados do sindicato dos meios de hospedagem HotéisRIO apontavam, em meados de abril, uma ocupação de 70% da rede na Zona Sul no primeiro fim de semana de maio. Para Luiz Guilherme Niemeyer, sócio da Bonus Track, à frente do evento, a escolha por Shakira é decisão acertada. “O tempo é de latinidade”, acredita. “Madonna e Lady Gaga são artistas famosas no mundo inteiro e não precisavam provar nada para ninguém, mas saíram daqui ainda maiores. O show em Copacabana é uma coroação global”, diz.
Na manhã do último domingo 19, a coreógrafa Aline Maia comandou uma aula de dança no calçadão, bem perto do palco, ensinando os passos da faixa Waka Waka, hit de Shakira, para uma turma de uns cinquenta animados banhistas. A cena, entre turistas, ambulantes e curiosos, já dava o tom do que Copacabana virou: uma prévia da festa latina a céu aberto. E o comércio informal, claro, não fica de fora do agito. O Saara já está repleto de artigos personalizados e, na praia, avistam-se bolsas estampadas com imagens de capas de discos da colombiana, com alça de couro e tudo, vendidas a 40 reais. “Tem que aproveitar que está barato. No dia do show, o preço vai subir conforme a concorrência”, avisava a ambulante Ana Célia Vaz à turba estrangeira, uma turma que só aumenta. De acordo com o Observatório do Turismo Carioca, um levantamento da secretaria municipal com base em métricas de 2025 mostra que países sul-americanos encabeçam o ranking internacional de visitantes no Rio. Os argentinos são os campeões, representando 33,6% das viagens, seguidos por chilenos, com 14,8%. Em terceiro, vêm os americanos, os únicos não latinos, com 9,7%. Uruguai (4,8%) e Colômbia (4,3%) arrematam a lista. “O Rio é muito mais que mar e floresta. Temos cultura, arte, moda, gastronomia e uma energia acolhedora”, propagandeia a secretária municipal de Turismo, Daniela Maia. “A latinidade é cool e charmosa. Agora é a vez de o mundo olhar para cá”, aposta.
Se até fevereiro os brasileiros não se reconheciam como latinos — o idioma diferente dos vizinhos de América do Sul é um dos principais motivos —, o fenômeno pop Benito Antonio Martinez Ocasio, o Bad Bunny, foi decisivo para derrubar a fronteira da língua na icônica apresentação no intervalo do Super Bowl, a concorrida final do campeonato de futebol americano. O astro porto-riquenho deu um banho de latinidade e autoestima, além de um forte recado à política anti-imigração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com direito à participação do compatriota Ricky Martin. “Agora todos querem ser latinos, mas lhes falta tempero”, bradou o rapper. No aplicativo DuoLingo, aliás, a procura de brasileiros por aulas de espanhol disparou 30% no último mês. Ainda falta, é verdade, fazer um mergulho mais denso em tão rica cultura. “Nós, brasileiros, ainda temos muito a conhecer da economia criativa, da música, literatura e cinema latino-americanos”, pondera o antropólogo Fred Lucio, professor da ESPM.
Dados do Spotify Brasil enfatizam que o interesse pelo embalo latino existe, sim, e cresce. O disco Debí Tirar Más Fotos, laureado com o Grammy, foi o mais ouvido em língua espanhola no ano passado. Na plataforma, Bad Bunny experimentou um salto meteórico nos últimos três anos: o número de streams subiu 170%. Os gêneros latinos aparecem entre os que mais grudam nos ouvidos globais e, em relação a Shakira, o Brasil ocupa o quarto lugar entre seus principais fãs. Nas playlists cariocas, o espanhol já deixou de ser exceção para virar recorrente trilha sonora. “Salsa, bomba e reggaeton têm similaridades com o funk, o arrocha e o sertanejo, ritmos energéticos, solares e sensuais. Além disso, todos nós comemos arroz, feijão e mandioca”, observa Fabio Lafa, editor sênior do Spotify no Brasil. Enquanto a pista da Festa Xepa ferve ao som de hits como Hips Don’t Lie, de Shakira, e Si Antes Te Hubiera Conocido, de Karol G, também colombiana, e o Alalaô Kiosk, no Arpoador, abraça rodas de cumbia e merengue, bares e restaurantes temáticos pipocam por aqui, mostrando que a latinidade também chegou às mesas da cidade. No último ano, o Gonza, do chef Gonzalo Vidal, abriu as portas no Horto. Em Botafogo, o Guadalupe, com pegada mexicana, é mais uma tacada da dupla Edu Araújo e Jonas Aisengart, e está sempre lotado. Outra boa nova é a entrada em cena do hermano Bernabé Simón Padrós (com passagem pelo Central, no Peru, eleito o melhor restaurante do mundo pelo 50 Best em 2023) para chefiar o Emile, no Hotel Emiliano, reforçando o vigor latino na boa cozinha.
Sucesso no Instagram e no TikTok, a trend “latina demais para ser minimalista” celebra o uso de cores vibrantes, estampas e bordados, e foi tema de um painel no Encontro Internacional da Indústria Criativa, na Casa Firjan, em Botafogo. Essa estética encontra terreno fértil nestas praias: a Farm lançou no fim do ano a campanha Buena Gente, que destaca o protagonismo feminino e a diversidade do continente. Artista e ilustradora mexicana convidada para desenhar parte da coleção, Ana Leovy definiu o trabalho como “uma narrativa visual cheia de vida”. A feira O Mercado, realizada no Flamengo no início de abril, desafiou os 75 expositores a criar uma peça inspirada em países da América Latina. “A estética discreta e pasteurizada não combina conosco, somos o oposto disso”, analisa Clarissa Muniz, sócia da empreitada, insatisfeita com a paleta sóbria dos produtos de edições anteriores. “Vamos escancarar a latinidade o ano inteiro. A próxima edição, em junho, será sobre festividades”, adianta.
A cantora de nome comprido, Shakira Isabel Mebarak Ripoll, desfilará “no altar do planeta”, como diz, em torno de uma dezena de figurinos assinados por grifes italianas como Versace e Roberto Cavalli, além de dois estilistas brasileiros: Ligia Morris e Dario Mittmann (ele criou um macacão com cristais e tribais que muda a cada apresentação). Serão cerca de dez atos carregados de latinidade, como não podia ser diferente, e com aguardadas participações como a de Anitta. Ela divide os vocais em português e espanhol com a diva colombiana em Choka Choka (a faixa, do novo disco da carioca, alcançou 1,7 milhão de reproduções no Spotify nas primeiras 24 horas), e a amizade entre as duas é longeva: em 2024, Anitta participou do clipe de Soltera, lançado logo depois que Shakira se separou do jogador de futebol catalão Gerard Piqué, firmando-se como um ícone de empoderamento feminino. “Somos vizinhas em Miami. Ela é uma amiga carinhosa e cuidadosa”, elogia Anitta, sem dar mais detalhes sobre sua participação na grande festa latina de Copacabana. Tomara que elas se “choquem, choquem”, esbanjando todo o suingue e sangue bom latino no mais carioca dos palcos.
Superprodução é pouco
Os expressivos números do show de Shakira nas areias de Copacabana e da sua carreira
1500 metros quadrados de palco, 240 a mais que o de Lady Gaga, em 2025
500 metros quadrados de painel de LED
2,2 metros de altura da areia ao palco
10 atos durante o show, desde a fase Estoy Aquí até a mais recente Oral Fixation, lançada no último álbum, de 2025
6,1 bilhões de streams globais no Spotify, com crescimento de 213% nas reproduções desde o show de Bad Bunny no Super Bowl, em fevereiro
16 torres de som e imagem da altura do Copacabana Palace até o Leme
37 indicações ao Grammy Latino, sendo 15 prêmios
2,5 milhões de pessoas esperadas, um recorde em comparação aos shows de Madonna (1,6 milhão) e Lady Gaga (2,1 milhões)
Agenda lotada
A onda latina percorre diversos ritmos e locais da cidade

Saoko no Alalaô Kiosk. Formada por músicos da Argentina, Colômbia, Venezuela e Brasil, a banda promove uma roda de salsa, cumbia e merengue no quiosque do Arpoador no dia 3 de maio, a partir das 17h.
Conferência Internacional Latin Rio. De 18 a 20 de maio, acontece a primeira edição do encontro que promete reunir nomes do mercado fonográfico na Fundação Getulio Vargas, na Praia de Botafogo.
Feira O Mercado. Em 6 e 7 de junho, o evento de moda agrupa setenta expositores no Instituto de Arquitetos do Brasil, no Flamengo. Entre os participantes, está a marca mexicana La Chica Chicana.

Ca7riel & Paco Amoroso no Vivo Rio. Em novembro, os cariocas poderão assistir à turnê do álbum Free Spirits, do duo de trap latino formado pelos músicos argentinos Catriel Guerreiro e Ulisses Guerriero.

Jorge Drexler no Circo Voador. O cantor e compositor uruguaio apresenta o novo disco, Taracá, na Lapa. Ao longo da carreira, o músico firmou parcerias com brasileiros como Maris a Monte, Caetano Veloso e Gal Costa.
Los Mirlos no Rock The Mountain. Famoso por exaltar ritmos tropicais, o grupo peruano de cumbia amazônica é uma das atrações confirmadas no festival, marcado para outubro e novem- bro, em Itaipava.

Um empurrãozinho carioca
Remix do DJ Meme alçou a colombiana ao posto de diva globa
Por Natália Boere
A primeira coisa que Marcello Mansur, o DJ Meme, perguntou a Shakira, em 1996, foi se ela falava inglês. Naquela época, a artista ainda não tinha familiaridade com o idioma. A matriz da gravadora Sony Music, nos Estados Unidos, havia convidado Meme para remixar a música Estoy Aquí, que a cantora, então com 19 anos, divulgou sem alcançar projeção internacional. No ano anterior, o disco Eu e Memê, Memê e Eu, parceria entre o DJ carioca e Lulu Santos, vendeu 1 milhão de cópias. “Descartei todas as fórmulas de rádio que conhecia e pensei nas pistas americanas”, conta Meme. A versão por ele editada rapidamente conquistou os ouvidos na terra do Tio Sam e, por isso mesmo, arrebatou os brasileiros. Quando Shakira se apresentava em programas de auditório da Globo e do SBT tinha que fazer playback das faixas remixadas, tamanho sucesso. O DJ ainda turbinou outros hits da cantora, como Pies Descalzos, Sueños Blancos; Un Poco de Amor e Ojos Así. “Ele repaginou com habilidade a maior parte das incursões de Shakira no mundo das boates”, escreveu o repórter Michael Paoletta, na Billboard, em março de 1999. Pelo feito, Meme recebeu da Sony Music uma homenagem “por sua colaboração na conquista de mais de 500000 cópias vendidas do disco Pies Descalzos”, e foi recrutado para trabalhar com Mariah Carey, Gloria Estefan e Toni Braxton.







