O clube na Zona Norte e a pousada em Búzios controlados pelo CV
Facção usava os estabelecimentos para lavar dinheiro do tráfico de drogas em um esquema que movimentou mais de 11 milhões de reais em seis meses
A diversificação dos negócios do tráfico no Rio, que há tempos extrapolou mercados como o do gás e da internet, já mostra ramificações no turismo e no entretenimento. Investigações da Polícia Civil apontam que o Comando Vermelho (CV) usava o Várzea Country Club, em Água Santa, na Zona Norte, e a pousada Menino do Rio, em Armação dos Búzios, para lavar dinheiro, em um esquema que movimentou mais de 11 milhões de reais em menos de seis meses. Nesta terça (4), a corporação deflagrou a Operação Quimera para cumprir 10 mandados de busca e apreensão e desarticular a estrutura financeira da organização criminosa, que assumiu informalmente a administração do clube, passando a controlar eventos e decisões internas, além de movimentações financeiras – apesar de não terem qualquer vínculo jurídico ou estatutário com a instituição.
A investigação começou após dirigentes de outro clube da Zona Norte, o Social Clube Marabú, no Encantado, denunciarem que vinham sofrendo ameaças para deixar a administração da entidade e entregar o controle do espaço a pessoas ligadas ao tráfico de drogas. Segundo a Polícia Civil, as intimidações teriam partido de Jeam Carlos do Nascimento Santos, o “Jeam do 18”, apontado como líder do tráfico local. O grupo criminoso exigia o pagamento mensal de 6 mil reais para permitir que o estabelecimento continuasse funcionando sem sofrer represálias. Foi no decorrer das investigações que os agentes identificaram indícios de um esquema semelhante no Várzea Country Clube, fundado a mais de 60 anos, que se tornou o principal alvo da Operação Quimera. As comunicações analisadas pela polícia indicam que esses administradores controlavam as decisões internas, a gestão cotidiana e as finanças do clube sem transparência ou prestação formal de contas.
A operação é conduzida por agentes da 52ª DP (Nova Iguaçu), com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio (MPRJ). Os mandados de busca e apreensão são cumpridos em endereços na capital fluminense e na Região dos Lagos. A Justiça também determinou o bloqueio de valores e ativos financeiros, a indisponibilidade de bens móveis e imóveis, restrições sobre veículos e participações societárias, além da quebra dos sigilos bancário e fiscal das pessoas físicas e jurídicas investigadas. A ação conta com o apoio de equipes do Departamento-Geral de Polícia da Baixada Fluminense (DGPB) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), e integra a Operação Contenção, estratégia do Governo do Estado voltada para conter o avanço territorial do Comando Vermelho.
Os agentes descobriram que o Varzea é gerenciado de forma paralela por quatro pessoas da mesma família. Entre eles Amauri Paixão Ferreira, sua mulher, Rayane Ferreira Santos de Souza Paixão, e seu irmão Átila Paixão Ferreira. Amauri seria um dos principais elos financeiros do grupo. Já Átila exerceria funções de gestão e movimentou cerca de 2,4 milhões de reais em apenas seis meses, apesar de não ter atividade empresarial formal compatível com esse volume financeiro. Outro investigado, Jonathan Paixão Baptista, primo de Amauri e Átila, realizou 44 transferências via PIX que somaram cerca de 240 mil reais para Átila. Ele figura como autor em pelo menos 20 procedimentos policiais, muitos deles relacionados a roubos de carga. Os policiais também investigam a atuação de Michele Arnoso, que movimentou aproximadamente 2,23 milhões de reais em seis meses, embora declarasse exercer a função de recepcionista, com renda aproximada de 3,2 mil reais. Ainda segundo os investigadores, ela recebeu cerca de 253 mil reais de Amauri em seis transferências realizadas no mesmo período.
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O grupo criminoso também estaria diretamente ligado à pousada em Armação dos Búzios, que, segundo a Polícia Civil, pode ter sido utilizada para lavar dinheiro do tráfico de drogas. O estabelecimento tem 19 quartos, cinco funcionários e diárias de aproximadamente 500 reais. Apesar disso, a pousada movimentou 3,44 milhões de reais desde o início do ano e registrou 602 depósitos em espécie, que totalizaram aproximadamente 955 mil reais. Apesar de outra pessoa figurar formalmente como sócia da empresa, no e-mail cadastrado pela pousada consta o nome de Rayane. Também foram identificadas transferências financeiras entre ela, a sócia formal e a empresa, indicando a existência de um circuito financeiro entre a administração informal do Várzea e o empreendimento em Búzios. Segundo a Polícia Civil, os indícios têm características típicas de ocultação patrimonial, pulverização de recursos, mescla patrimonial e lavagem de dinheiro.







