Waltercio Caldas celebra 80 anos em 2026 e inaugura mostra no Cosme Velho

Artista percorre seis décadas de produção com individual na Casa Roberto Marinho e consolida sua obra, hoje abrigada nos acervos do MoMA e Pompidou

Por Carolina Isabel Novaes 8 Maio 2026, 07h48
Tic-Tac: Waltercio Caldas inaugura mostra com obras produzidas ao longo de seis décadas
Tic-Tac: Waltercio Caldas inaugura mostra com obras produzidas ao longo de seis décadas (Jorge Bispo/Divulgação)
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Filho de engenheiro, Waltercio Caldas gostava de acompanhar o pai no escritório e passava horas observando as maquetes. Aos 8 anos, teve a oportunidade de conhecer a construção de Brasília e voltou de lá fascinado. “Sem dúvida, foi uma grande influência para mim, como modelo de projeto moderno. Era a cidade utopia e hoje é muito real”, reflete o artista plástico carioca, em atividade desde os anos 1960 e um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Ele completa 80 anos em 6 de novembro, e a individual O (Tempo) — a 84ª de sua carreira —, com inauguração marcada para quinta (14) na Casa Roberto Marinho, exalta a louvável trajetória, reunindo 108 obras produzidas entre 1967 e 2025. “Tenho até vergonha de dizer, mas a minha geração não existe mais. Morreram Tunga, Antonio Dias, Sergio Camargo… Quando acabaram os ‘ismosí, acabaram também as turmas de artistas. Costumo brincar que o último ‘ismoí do século passado foi o curadorismo”, dispara Caldas, demonstrando o humor fino e o raciocínio direto que lhe são peculiares. 

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Para o Mundo: Caldas esteve em diversas bienais e expôs em países como Portugal, onde montou Horizontes, em 2008 (./Arquivo pessoal)

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O próprio artista fez questão de montar a exposição no local, o que levou duas semanas. “Nunca deleguei para curador. O trabalho só está pronto quando colocado no espaço”, avalia. Esculturas, pinturas, desenhos e livros ocupam diversos ambientes da instituição do Cosme Velho, revelando uma rigorosa pesquisa que envolve tensões entre forma, espaço, tempo e percepção em diferentes escalas, marcas do trabalho de Caldas, que ao longo de seis décadas explorou materiais como aço inoxidável, vidro, pedra e fios. Muitas vezes considerado hermético, Waltercio Caldas nega esse rótulo: “Meu trabalho é o contrário de escondido. Nunca tentei ser misterioso, a realidade já é suficientemente enigmática”, observa, mostrando-se um exímio frasista. “Tenho que tomar cuidado porque não quero que pareça frase de efeito”, arremata. Lauro Cavalcanti, diretor-executivo da Casa Roberto Marinho, ressalta que a mostra é uma oportunidade para os cariocas perceberem que o processo criativo de um dos mais brilhantes artistas brasileiros segue instigante. “Conversávamos sobre essa possibilidade desde 2021, quando ele integrou a exposição A Escolha do Artista. O convite formal veio há um ano e meio. Nem sabia que ele estaria celebrando 80 anos, e isso traz um sabor mais especial”, afirma Cavalcanti. 

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Arte Brasileira: com Lygia Pape, em 1998, com quem participou de coletiva no Centro Cultural Light (./Arquivo pessoal)

 

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Criado na Tijuca, ele mora no Horto com a mulher, Patricia, com quem está casado há quarenta anos, e mantém ateliê no Cosme Velho. “Gosto do Rio. É uma cidade estimulante, a gente nunca sabe o que vai acontecer por aqui”, repara. A rotina ainda tem espaço para leitura, pilates — “faço mal”, aponta —, visitas a centros culturais e conversas profundas com o filho, Ian, doutor em ciências pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. “Ele diz que eu sou imaturo para entrar em redes sociais. Meus filhos têm uma paciência infinita comigo”, reconhece, referindo-se também à filha Laura. Caldas foi aluno de Ivan Serpa (1923-1973) em 1964. Nove anos depois, inaugurou sua primeira individual e não parou mais. Suas criações estão em coleções de importantes instituições estrangeiras, como o MoMA, em Nova York, o Reina Sofia, na capital espanhola, e o Pompidou, em Paris. “Ele é muito bem-sucedido, ainda que não seja de fácil compreensão”, reflete o crítico e professor de história da arte Paulo Venancio Filho. “Se eu pudesse expressar de uma maneira divertida, diria que só tenho uma fase artística. O esforço é para que ela esteja sempre começando”, enlaça o artista, bem-humorado. Em cartaz até setembro, a exposição na Casa Roberto Marinho vai provar que Waltercio Caldas tem toda razão.    

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Bienal de Veneza: ao lado de Tunga, exibiu obras na exposição Half Mirror Sharp, no pavilhão italiano em 2007 (./Arquivo pessoal)

 

A escolha do artista

A pedido de VEJA RIO, o carioca elege seis obras para prestar atenção em O (Tempo) 

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desenho-sem-titulo-2015-foto-Jaime-Aciol

Desenho sem título (2015). “Uma história que se diverte com os volumes dos fatos”  

NOT NOW, 2014 - foto Jaime Acioli

Not now (2014). “Talvez a única máquina do tempo com eficiência comprovada” 

AS SETE ESTRELAS DO SILENCIO 1970 - foto Jaime Acioli.jpg

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As estrelas do silêncio (1970).  “Uma constelação em perigo” 

THELONIOUS MONK, 1998 - foto Paulo Costa

Thelonious monk (1998).  “Um piano que conhece a solução antes do problema” 

Waltercio Caldas _QUARTO AZUL, 2007 - foto Paulo Costa.jpg

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Quarto azul (2007). “É como sair de um dentro profundo para um fora imenso” 

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Pintura sem título (2025). “É possível construir um espelho mesmo com informações incompletas” 

 

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