Waltercio Caldas celebra 80 anos em 2026 e inaugura mostra no Cosme Velho
Artista percorre seis décadas de produção com individual na Casa Roberto Marinho e consolida sua obra, hoje abrigada nos acervos do MoMA e Pompidou
Filho de engenheiro, Waltercio Caldas gostava de acompanhar o pai no escritório e passava horas observando as maquetes. Aos 8 anos, teve a oportunidade de conhecer a construção de Brasília e voltou de lá fascinado. “Sem dúvida, foi uma grande influência para mim, como modelo de projeto moderno. Era a cidade utopia e hoje é muito real”, reflete o artista plástico carioca, em atividade desde os anos 1960 e um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Ele completa 80 anos em 6 de novembro, e a individual O (Tempo) — a 84ª de sua carreira —, com inauguração marcada para quinta (14) na Casa Roberto Marinho, exalta a louvável trajetória, reunindo 108 obras produzidas entre 1967 e 2025. “Tenho até vergonha de dizer, mas a minha geração não existe mais. Morreram Tunga, Antonio Dias, Sergio Camargo… Quando acabaram os ‘ismosí, acabaram também as turmas de artistas. Costumo brincar que o último ‘ismoí do século passado foi o curadorismo”, dispara Caldas, demonstrando o humor fino e o raciocínio direto que lhe são peculiares.
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O próprio artista fez questão de montar a exposição no local, o que levou duas semanas. “Nunca deleguei para curador. O trabalho só está pronto quando colocado no espaço”, avalia. Esculturas, pinturas, desenhos e livros ocupam diversos ambientes da instituição do Cosme Velho, revelando uma rigorosa pesquisa que envolve tensões entre forma, espaço, tempo e percepção em diferentes escalas, marcas do trabalho de Caldas, que ao longo de seis décadas explorou materiais como aço inoxidável, vidro, pedra e fios. Muitas vezes considerado hermético, Waltercio Caldas nega esse rótulo: “Meu trabalho é o contrário de escondido. Nunca tentei ser misterioso, a realidade já é suficientemente enigmática”, observa, mostrando-se um exímio frasista. “Tenho que tomar cuidado porque não quero que pareça frase de efeito”, arremata. Lauro Cavalcanti, diretor-executivo da Casa Roberto Marinho, ressalta que a mostra é uma oportunidade para os cariocas perceberem que o processo criativo de um dos mais brilhantes artistas brasileiros segue instigante. “Conversávamos sobre essa possibilidade desde 2021, quando ele integrou a exposição A Escolha do Artista. O convite formal veio há um ano e meio. Nem sabia que ele estaria celebrando 80 anos, e isso traz um sabor mais especial”, afirma Cavalcanti.
Criado na Tijuca, ele mora no Horto com a mulher, Patricia, com quem está casado há quarenta anos, e mantém ateliê no Cosme Velho. “Gosto do Rio. É uma cidade estimulante, a gente nunca sabe o que vai acontecer por aqui”, repara. A rotina ainda tem espaço para leitura, pilates — “faço mal”, aponta —, visitas a centros culturais e conversas profundas com o filho, Ian, doutor em ciências pela Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. “Ele diz que eu sou imaturo para entrar em redes sociais. Meus filhos têm uma paciência infinita comigo”, reconhece, referindo-se também à filha Laura. Caldas foi aluno de Ivan Serpa (1923-1973) em 1964. Nove anos depois, inaugurou sua primeira individual e não parou mais. Suas criações estão em coleções de importantes instituições estrangeiras, como o MoMA, em Nova York, o Reina Sofia, na capital espanhola, e o Pompidou, em Paris. “Ele é muito bem-sucedido, ainda que não seja de fácil compreensão”, reflete o crítico e professor de história da arte Paulo Venancio Filho. “Se eu pudesse expressar de uma maneira divertida, diria que só tenho uma fase artística. O esforço é para que ela esteja sempre começando”, enlaça o artista, bem-humorado. Em cartaz até setembro, a exposição na Casa Roberto Marinho vai provar que Waltercio Caldas tem toda razão.
A escolha do artista
A pedido de VEJA RIO, o carioca elege seis obras para prestar atenção em O (Tempo)

Desenho sem título (2015). “Uma história que se diverte com os volumes dos fatos”

Not now (2014). “Talvez a única máquina do tempo com eficiência comprovada”

As estrelas do silêncio (1970). “Uma constelação em perigo”

Thelonious monk (1998). “Um piano que conhece a solução antes do problema”

Quarto azul (2007). “É como sair de um dentro profundo para um fora imenso”

Pintura sem título (2025). “É possível construir um espelho mesmo com informações incompletas”







