Zonas de perigo na rotina carioca
Os roubos avançam em nacos da cidade onde a população vive sob tensão — e o poder público se mexe para tentar frear o crime

Após uma longa madrugada de trabalho, a DJ Cecília Papi, 38 anos, resolveu tomar café da manhã com uma amiga na tradicional Rio Lisboa, no Leblon, perto de casa. Avistavam-se os primeiros raios de sol daquele domingo quando ela se direcionou ao prédio onde mora. Não via a hora de desabar na cama, mas aí veio o inesperado. A bordo de uma moto, um assaltante subiu na calçada da Avenida Ataulfo de Paiva e tentou arrancar a bolsa da DJ, que instintivamente se atracou a ela, caindo no chão. Acabou sendo arrastada pelo veículo, e a situação só não ficou pior porque o ladrão bateu em um poste e se desequilibrou. Cecília conseguiu correr, desvencilhando-se do bandido, sem ferimentos graves. “Só entendi o real perigo quando vi as imagens das câmeras de segurança. Ainda estou chocada e traumatizada”, desabafa ela, integrante de uma infeliz estatística: em 2024, foram registrados 37 449 roubos nas ruas da cidade, um aumento de 19% em um ano, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP).
O roubo, diferente do furto, envolve violência física ou grave ameaça contra a vítima. Foram, em média, 102 casos por dia, o que dá quatro por hora, tendência que não arrefeceu no Rio em janeiro de 2025 — os roubos de celular subiram 39% e os de veículos, 43%, em comparação com o mesmo mês no ano passado. O levantamento do ISP mostra que a maior parte ocorreu no Centro e na Lapa, mas em algumas regiões da Zona Sul o avanço também foi considerável. Botafogo, Humaitá e Urca tiveram crescimento de 70,5%, enquanto Gávea, Jardim Botânico, Lagoa, São Conrado e Vidigal, de 54%. Os roubos de veículos expandiram-se mais — 156% — no Maracanã, na Praça da Bandeira e em parte da Tijuca.

A Polícia Civil observa que esse tipo de crime está relacionado à ação do tráfico, já que a renda obtida com a revenda de carros, motos e suas peças impulsiona a engrenagem financeira das facções. Elas precisam faturar mais alto do que nunca agora para financiar sua estratégia de ampliação de territórios sob o seu comando. E quem paga a conta são os cariocas e a cidade. “Além da sensação de insegurança, essas estatísticas espantam turistas e possíveis investidores”, afirma Ronaldo Vilela, diretor-executivo do Sindicato das Seguradoras do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Não à toa, uma das principais bandeiras agitadas por Eduardo Paes na campanha de reeleição à prefeitura foi a criação da Força Municipal de Segurança, o que envolve armar parte da Guarda Municipal, que mudaria de nome. O projeto depende de mudança na Lei Orgânica e do crivo do Legislativo, ainda sem data para ser votado. “Os vídeos de ações criminosas se espalham pelas redes sociais, e os casos de violência estão na porta de casa”, observa Carlos Eduardo Viana, pós-doutorando de antropologia na UFF, que estuda as Guardas Municipais e volta também o olhar para a Polícia Militar, a responsável pelo patrulhamento ostensivo. “É essencial investir em planejamento, além de aumentar o número de agentes, que precisam de qualificação e acesso a um plano de carreira decente”, diz o pesquisador.
A desfaçatez da bandidagem produz cenas como a de dois turistas argentinos que, no fim de fevereiro, foram baleados em um assalto na Praia da Barra. Segundo testemunhas, o ladrão desceu de uma moto no calçadão, foi até a areia, abordou os dois homens, roubou o cordão de um deles, atirou e sumiu. Gabriel Gago e Cristian Pagani tinham vindo ao Rio para assistir a uma partida do Racing contra o Botafogo na final da Recopa Sul-Americana e precisaram passar por cirurgias para a retirada das balas. Já Aline Vargas, 45, fazia o caminho de volta das férias em Salvador e foi vítima de um assalto, à luz do dia, no Catete, onde mora. A abordagem durou poucos segundos. Uma dupla de moto passou por ela na contramão, o homem na garupa desceu, pegou seu celular e evaporou num flash. “Eu tinha comprado o aparelho há um mês, nem deu tempo de fazer backup das fotos da viagem. Ainda estou pagando as parcelas, mas pelo menos tinha seguro”, resigna-se ela, que compõe um rol infelizmente bem maior — os assaltos na região saltaram 50%.
Em meio à curva ascendente, medidas vêm sendo tomadas para frear os criminosos. No caso de Aline, seus instantes de agonia foram flagrados por uma câmera de segurança da startup Gabriel, que já instalou 2 470 delas em casas e prédios e tem parcerias com os governos municipal e estadual. A ideia é abastecer as polícias e o sistema Civitas, da prefeitura, com imagens e informações, como placas de carros de suspeitos. “A inspiração vem de metrópoles como Nova York, Londres e Xangai, que melhoraram os índices de segurança apostando em vigilância e análise de dados”, conta Erick Coser, diretor-executivo da empresa. Em nota, a PM afirmou que o comando definiu estratégias para intensificar o policiamento, com a criação de um Batalhão Tático de Motociclista e o redirecionamento de cerca de 1 100 agentes das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) para a vigilância ostensiva nas ruas, além de investir em tecnologia e inteligência para monitoramento. Que surtam logo efeito. Não há tempo a perder.