A terceira idade e a dependência de celulares e redes sociais
Pouco se fala, mas é cada vez maior a dependência de idosos da tecnologia
O excesso de consumo de tecnologia costuma ser associado às crianças e adolescentes, mas um fenômeno cada vez mais visível é o crescimento do uso intenso de smartphones, redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de entretenimento por parte dos idosos. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2025, 81% das pessoas entre 60 e 69 anos tem um aparelho celular. Na faixa entre 70 e 79 anos, somam 66%. Entre quem tem mais de 80 anos, chega-se à marca de 35%. Quanto maior a renda, mais esse percentual cresce. Entre as classes AB, por exemplo, o percentual oscila entre 96% (60 a 69 anos) a 43% (mais de 80 anos).
Com a popularização dos aparelhos celulares e da tecnologia, o primeiro impulso foi imaginar que eles seriam benéficos para os idosos. O problema não consiste na ferramenta em si. É inegável que eles facilitaram a comunicação com parentes e amigos por aplicativos de mensagens (especialmente em contextos em que a distância física ou limitações de mobilidade dificultam encontros presenciais), ampliaram o acesso à informação e forneceram maior autonomia. Para muitos, a tecnologia representa uma porta para o mundo, reduzindo sentimentos de isolamento e permitindo participação social.
O que não estava no script inicial era a possibilidade do uso excessivo. A dependência tecnológica na terceira idade manifesta-se de forma diferente daquela observada em jovens. Em vez de jogos online ou redes sociais intensamente visuais, muitos idosos passam horas em aplicativos de mensagens, vídeos curtos como os do TikTok, correntes de informação ou jogos simples. O dispositivo móvel torna-se uma companhia constante, utilizado ao acordar, durante as refeições e antes de dormir. No entanto, essas novidades podem gerar comportamentos de dependência, com sérios impactos emocionais, sociais e até cognitivos.
Entre os fatores que favorecem esse comportamento está, principalmente, a busca por conexão social. A solidão é uma realidade comum na terceira idade. Nesse contexto, o smartphone funciona como uma ponte emocional. Cada notificação recebida pode gerar sensação de pertencimento e interação, reforçando o hábito de verificar o aparelho repetidamente. Esse ciclo de expectativa e recompensa é semelhante ao observado em outras formas de dependência comportamental.
Outro fator relevante é a sensação de segurança proporcionada pela tecnologia. Muitos idosos utilizam dispositivos para monitorar notícias (nem sempre verdadeiras), acompanhar grupos do bairro ou da região em que moram, ou manter contato constante com familiares. Embora isso possa aumentar a sensação de proteção, também pode gerar ansiedade e hiperconectividade.
Quando o uso de celulares começa a substituir atividades físicas, encontros sociais presenciais ou hobbies tradicionais, surgem os primeiros sinais de dependência. Os impactos desse comportamento podem ser variados. Ansiedade, prejuízo da qualidade do sono e sensação de isolamento são os mais comuns.
No âmbito social, paradoxalmente, a tecnologia que deveria aproximar pode contribuir para certo afastamento. A interação digital, embora valiosa, não substitui completamente o contato humano presencial. Idosos que passam grande parte do tempo conectados podem reduzir a participação em atividades comunitárias, encontros familiares ou programas sociais, o que pode intensificar o isolamento.
Outro risco envolve a exposição a desinformação e golpes digitais. Idosos altamente conectados, mas com menor familiaridade crítica com o ambiente digital, podem tornar-se mais vulneráveis a notícias falsas, esquemas de fraude ou manipulação emocional em redes sociais.
Apesar desses desafios, é importante evitar uma visão exclusivamente negativa da relação entre idosos e tecnologia. O uso digital pode trazer inúmeros benefícios quando ocorre de forma equilibrada. A tecnologia pode estimular a cognição, facilitar o acesso a serviços de saúde, promover aprendizado contínuo e ampliar redes de apoio, transformando o tempo de tela em oportunidades de aprendizado e socialização significativa. Assim como acontece com os jovens, a diferença entre o remédio e o veneno está na dose.
Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp (CRM 5249669-2 e RQE 21502); professora da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.







