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Cristiana Beltrão

Por Cristiana Beltrão, restauratrice e pesquisadora de gastronomia e alimentação Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO

Vendo quentinha

A nova concorrência dos restaurantes mora no apartamento ao lado

Por Cristiana Beltrão Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 19 jun 2020, 13h06 | Atualizado em 20 jun 2020, 13h36
Vendo quentinha
 (Cristiana Beltrão/Arquivo pessoal)
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Muito antes do novo coronavírus, o filho feio da crise começou a brotar nuns carros mal estacionados pela cidade. Havia sempre alguém sacudindo um pedaço de pano pelo ar chamando a atenção para o cartaz torto e caseiro de “vendo quentinha” sobre embalagens amontoadas num porta-malas, coisa nunca vista em bairros nobres do Rio.

Em 2016, o jornaleiro de minha esquina (estranhamente) passou a prestar o mesmo serviço, trocando revistas e que tais por refeições de oito ou dez reais. Chegamos ao fundo do poço, pensei. Só não sabia que estava míope e o poço tinha um alçapão com 3 subsolos.

Comentei em colunas passadas que a Revolução Francesa – movimento que aboliu os privilégios da monarquia e do clero – também deixou desempregados excelentes cozinheiros, confeiteiros, padeiros e assadores que trabalhavam nos palácios da nobreza. E foi essa gente qualificada e com técnica impecável que contribuiu, por acaso, para a proliferação dos restaurantes na Paris do fim do século 18, quando passou a servir intelectuais, a massa trabalhadora e homens de negócios de passagem, para sobreviver.

Mas o filme agora é diferente. Nesse Brasil miserável e desigual, enquanto os urubus rondam casas de nível que tentam se manter com um delivery que já não cobre nem 20% de suas despesas, a nova revolução não sai à francesa. Cospe no mercado, diariamente, centenas de funcionários altamente qualificados que se acotovelam para sobreviver na crise, vendendo refeições para home office e pequenos jantares encomendados, mirando no público com renda média em queda.

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A conta do cliente é fácil: aquele vizinho, agora cozinheiro desempregado, entrega pratos prontos, sanduíches e cupcakes, com comida de garagem mais barata e de qualidade, já que não paga impostos. As “dark kitchen” ou cozinhas de produção sem restaurante físico, nome digno de arqui-inimigo de histórias em quadrinhos, se tornaram uma ameaça e não um novo modelo de negócios. No exterior, há várias legais, mas aqui infelizmente, a maioria não é. Além disso, o vizinho do 501 também faz uso de aplicativos de entrega sem metade dos custos de quem tem um negócio formal. A categoria reagiu e cobra agora que só casas auditadas pela vigilância sanitária possam fazer uso desse serviço.

Enquanto isso, os restaurantes são frequentemente fiscalizados, gastam mais com novos protocolos de saúde e ainda terão de ocupar só metade do salão na reabertura, por conta do distanciamento obrigatório.

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Claro que haverá espaço para restaurantes como os conhecíamos, mas será briga de cachorro grande, além de um programa raro e caro. Para que a concorrência não seja desleal, é preciso que o Governo desonere quem empreende e gera emprego formal.

No Brasil do “cada um por si”, vale dedo no olho e soco no baixo ventre para sobreviver autonomamente. A continuar assim, não vai ter porta-malas que chegue.

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