Dois dedos de prosa com revelação dos esportes eletrônicos
Inspirado em craques coreanos e embalado pela conquista, no Rio, do Brasileiro de LoL, Duduhh, de 18 anos, encara agora o Mundial
Almoço de domingo, o filho solta: vou ser jogador. Futebol, vôlei, basquete, tênis de mesa? Não, não, LoL. O menino argumenta, como se falasse a recém-chegados de um planeta distante, que se trata de uma modalidade popular e lucrativa dos esportes eletrônicos, lançada pela Riot Games em 2009. Aí a família:
a) Não dá muita bola, considera uma fantasia infantil e volta à macarronada.
b) Aprecia a originalidade, mas leva a ambição tão a sério quanto um desejo de ser astronauta.
c) Acha um alerta sobre efeitos do mergulho no game e pensam em moderá-lo.
d) Apoia o sonho para o qual o menino parece vocacionado.
Os pais de Wallyson Queiroz da Silva cravaram a opção acima. Viram Wallyson virar Duduhh e faturar, com a equipe LOS, o Brasileiro de League of Legends (CBLOL), sábado passado, no Parque Olímpico. Um auspicioso cartão de visitas:
“Minha estreia na competição foi tanto desafiadora quanto animadora. Os colegas me acolheram maravilhosamente e isso, claro, fez diferença. Tenho muito a melhorar”, avalia, com modéstia, o prodígio de 18 anos eleito revelação do campeonato. Ele completa:
“A evolução é conjunta, com a troca constante de experiências entre jogadores e coachs (treinadores), como fizemos agora no Rio. E foi especial ganhar o título num espaço grande desses (montado na arena olímpica) com muita gente ao redor vibrando”.
Fora a conquista coletiva cercada pela galera e o prêmio individual, paisagens de cartão-postal também alegraram a vitoriosa incursão carioca. O chamado do aeroporto não permitiria esticá-la: o triunfo sobre a FURIA embarca a LOS na fase Suíça (segunda) do Worlds 2026, o Mundial da categoria, nos Estados Unidos. Duduhh e seus companheiros vão enfrentar, sexta que vem (23), no Texas, feras da elite internacional dominada pelos sul-coreanos. Já treinam por lá. A FURIA, também classificada, entra na primeira fase.
“Ter duas equipes brasileiras no Mundial aumenta o reconhecimento do país e do esporte. Estamos animados, a expectativa é muito boa. Sinto que chegou a nossa hora”, projeta o atacante da LOS. Numa comparação com o futebol, a habilidade e o apetite de artilheiro aproximam seu estilo, segundo ele próprio, ao de Neymar. “Sou impetuoso”, orgulha-se.
O estilo, apurado desde os 8 anos, tem pela frente holofotes invejáveis. O Worlds atrai até sete milhões de espectadores simultâneos. Tamanha audiência reflete o protagonismo do LoL na indústria dos esportes eletrônicos, cujo faturamento anual gira em torno dos cinco bilhões de dólares.
Esses números dourados e a concorrência pesada justificam, em parte, as quatro horas, às vezes cinco, seis, que Duduhh dedica aos treinos quase todo dia. Aprimora a técnica, a velocidade, a mente. “O condicionamento psicológico se mostra cada vez mais importante”, constata.
Outra parte da dedicação extrapola a rotina profissional iniciada em 2024. Ancora-se num entusiasmo de quem leva o jogo de estimação para acompanhá-lo até num passeio pela praia.
O entusiasmo tabela com a inspiração asiática. “Coreanos têm raciocínio ligeiro, como se intuíssem as sequências. São uma referência aos aperfeiçoamentos desenvolvidos nos torneios e amistosos. Aprendemos uns com os outros e conhecemos melhor os adversários, o que ajuda a elaborar estratégias”.
O jovem paulistano associa o avanço dos esportes eletrônicos às disputas no formato de festival, como a decisão do CBLOL na capital fluminense. Combinam duelos de alta performance, experiências imersivas, atrações musicais e ativações de marca (em geral, brincadeiras oferecidas por patrocinadores).
“Isso ajuda a ampliar a quantidade de fãs e praticantes. Rio, São Paulo e outras partes do país reúnem aspectos ambientais e culturais favoráveis a esses eventos”, observa Duduhh. Os coreanos que se cuidem.
_______
Combate pela inclusão
Símbolo de diversidade e cultura popular, os Arcos da Lapa recebem, neste sábado (17), a partir das 18h, 11 combates de boxe com entrada gratuita. Eles fazem parte do Ring Negro, projeto voltado a popularizar a atividade para transformar vidas.
Idealizada pelo bicampeão brasileiro (categoria Elite) Cesário Figueiredo, e apoiada pela Secretaria municipal de Esportes, a inciativa se soma ao Circuito de Boxe das Comunidades, disputado em 2024. Reforça a luta pela inclusão:
“A Lapa é um encontro de diversas segmentações sociais. O boxe não poderia estar ausente deste espaço em que cultura, ancestralidade, pertencimento e engajamento contragolpeiam com a vida o tempo todo. Quanto mais boxe em espaços públicos, melhor. A plataforma Ring Negro busca impactar a vida das crianças e adolescentes nas áreas de maior vulnerabilidade”, ressalta Figueiredo.
_______
Alexandre Carauta é jornalista e professor da PUC-Rio, integrante do corpo docente da pós em Direito Desportivo da PUC-Rio. Doutor em Comunicação, mestre em Gestão Empresarial, pós-graduado em Administração Esportiva, formado também em Educação Física. Organizador do livro “Comunicação estratégica no esporte”.






