Futuro da Moda: automação, agentes de IA e gêmeos digitais
No Rio Fashion Week, é preciso refletir sobre automação e agentes de IA alteram o fluxo produtivo e estão transformando os negócios para o setor da moda
Você já pensou em ter um agente de IA como seu assistente pessoal de compras? Pois saiba que essa e outras inovações estão bem mais perto da nossa realidade do que a gente imagina. E, em um futuro bem próximo, prometem reconfigurar completamente o jeito como o setor da moda funciona e opera atualmente.
Assim como já acontece em outras áreas, o avanço tecnológico está transformando o setor de moda. Com a popularização das inteligências artificiais generativas, o uso intenso de dados, adoção de agentes de IA, gêmeos digitais e outras tecnologias avançadas, os processos estão se tornando mais simples e eficientes, de tal forma que seria impossível ignorar toda essa transformação.
Durante a última edição do Festival SXSW, em março de 2026, a plataforma Phia foi um dos destaques de moda do evento. A Phia, um assistente de compras baseado em inteligência artificial, na prática funciona como um agente autônomo, que escolhe e compra roupas de forma personalizada para cada usuário. O aplicativo foi criado por Phoebe Gates, sim, a filha do Bill Gates, e Sophia Kianni, por compartilharem juntas uma frustração enquanto consumidoras das plataformas de e-commerce tradicionais.
Segundo elas, havia uma quantidade excessiva de informações sobre o produto e pouca informação visual, o que tornava a experiência do cliente bastante sobrecarregada e desestimulante. O grande achado do aplicativo foi evitar o ruído e esgotamento do usuário, facilitando a compra de itens novos e, também, de segunda mão. Mais do que oferecer uma solução prática para consumidores de moda, essa inovação representa uma mudança profunda na jornada de consumo digital. As interfaces digitais estão sendo repensadas e cada vez mais orientadas para agentes autônomos de IA. Isso muda bastante a forma como a Internet e o comércio eletrônico funcionam hoje em dia, e foi outro assunto que repercutiu bastante durante o festival.
Parece que estamos entrando em um novo estágio da transformação digital: a “Era Agêntica”, um conceito que já vem sendo anunciado há algumas edições do SXSW. Nessa era, agentes autônomos agem, decidem e executam tarefas, permeando diferentes áreas da vida e interferindo na lógica do trabalho, na economia e, claro, nos modelos de negócio. Nesse contexto, o setor da moda se destaca como um grande catalisador desses sinais de mudança, absorvendo rapidamente novos comportamentos e transformações nas esferas social, cultural, política e econômica. Afinal, a moda tem essa capacidade de traduzir o “espírito do tempo”, dando forma e materialidade, através das roupas e do corpo, às disputas e tensões de cada época.
Outro destaque do evento foram as aplicações dos gêmeos digitais na moda. Em resumo, eles são réplicas virtuais de objetos físicos, um conceito que integra múltiplas tecnologias e já é comumente utilizado em setores como energia, saúde e construção civil, onde auxiliam na simulação, análise e manutenção preditiva. Na moda, os gêmeos digitais são usados principalmente para criar amostras digitais, que otimizam o design e o desenvolvimento das coleções, além de possibilitar o monitoramento de cada produto ao longo da cadeia produtiva, por meio da criação de identidades digitais.
A Coach, grife de luxo norte-americana, mostrou durante um painel no SXSW como vem incorporando essas amostras digitais para substituir boa parte de seus protótipos físicos. Isso só é possível atualmente, porque essas tecnologias avançaram a ponto de simular a textura dos tecidos e o caimento das peças, eliminando a necessidade de produzir fisicamente uma roupa ou acessório. Até então, essa limitação era um dos grandes entraves para a adoção dos gêmeos digitais no setor de vestuário.
Outra empresa que participou desta conversa, foi a Avery Dennison, fabricante de insumos e matérias-primas, e afirmou ter reduzido drasticamente o desperdício de seus clientes e fornecedores. Na avalição da empresa, para além desse aspecto da economia de materiais, essas tecnologias possibilitam a criação de conteúdo para campanhas de marketing e publicidade antes mesmo de o produto ficar pronto, oferecendo mais flexibilidade de tempo e uma melhor gestão dos recursos. Esse nível de automação impulsiona a agilidade e a capacidade produtiva, fomentando a sustentabilidade em diversas etapas da cadeia produtiva da moda.
Vale lembrar que, em 2022, o Lab de Tendências da Casa Firjan e Firjan IEL lançou a pesquisa Sinais de Mudança da Moda (https://observatorio.firjan.com.br/prospectiva-e-tendencias/report-sinais-de-mudanca-da-moda), no qual já havia sido apontado os gêmeos digitais como um dos principais temas emergentes para o futuro da moda. Toda essa automação, agora alavancada por agentes de IA, não está apenas acelerando processos, mas também alterando a sequência e o fluxo produtivo para indústrias de outros setores. Isso gera impactos nos negócios, nas lideranças empresariais e, sobretudo, ressignifica o papel dos profissionais nesse novo contexto do trabalho.
Em um novo cenário, onde agentes de IA atuariam no dia a dia, pensando, agindo e executando tarefas, os humanos seriam responsáveis pela supervisão e governança desses sistemas de múltiplas inteligências. Sendo assim, o futuro poderá exigir mais adaptabilidade, pensamento crítico, julgamento e a capacidade de lidar com o desconforto em situações críticas, território ainda demarcado predominantemente por humanos.
Coluna assinada em parceria com Nathália Coelho, pesquisadora do Lab de Tendências da Casa Firjan, que esteve no SXSW e que apresentou no Rio Fashion Week o painel “Sinais de Mudança da Moda”, no dia 15/04.







