Quando a máquina aprende a sentir
O desafio é fazer com que plataformas atuem de maneira mais adaptativa em um mundo de cheiros, texturas, temperaturas, ruídos e nuances.
Uma das principais imagens da tecnologia fixada em nossas mentes era a da tela interativa, que exigia clique, leitura e comando. Parodiando Belchior, o que, há algum tempo, era jovem e novo, hoje é antigo. Ao invés de uma relação centrada apenas no sentido visual, emergem experiências corpóreas. Som, gesto, tato – e até cheiro! – entram com tudo no desenho das interfaces. Você sente, você vê, você toca. A mudança já está acontecendo.
Um dos casos que chama a atenção é o dispositivo Anemoia, do centro de pesquisa MIT Media Lab. Trata-se de uma máquina de memória olfativa. Ela transforma fotografias analógicas em fragrâncias personalizadas. Ela não se limita a reconhecer padrões visuais, mas tenta produzir uma resposta sensorial associada à memória, transformando dados em experiência.
Essa mudança também se apresenta no mundo do trabalho. A Amazon tem o Vulcan, seu primeiro robô com senso de toque. Ele é capaz de usar feedback tátil para manipular objetos com mais precisão em centros logísticos. Em outra frente, a Ainos, uma empresa focada em inteligência artificial e saúde, anunciou robôs equipados com AI Nose, uma camada de sensoriamento olfativo voltada à análise de odores em ambientes industriais.
Em ambos os casos, não se trata apenas de automação mais eficiente. Se trata de ampliar o repertório sensorial das máquinas. Robôs que tocam e cheiram passam a operar em territórios antes muito dependentes da percepção humana. Isso muda a divisão de trabalho e a máquina passa a participar de domínios da sensibilidade prática.
Outro avanço que ajuda a entender essa transformação vem da expansão da experiência digital para sentidos mais difíceis de serem capturados. Pesquisadores da Ohio State apresentaram o e-Taste, um dispositivo que detecta e reproduz os cinco gostos básicos para possibilitar a percepção remota do paladar. Na mesma direção, engenheiros da Universidade Northwestern criaram o VoxeLite, um vestível capaz de simular texturas e outros estímulos táteis com alta precisão. Ao recriar sensações de toque em telas lisas, o dispositivo amplia o nível de imersão em experiências digitais.
O que esses casos mostram é que a próxima fronteira tecnológica não está só na cognição, mas no corpo. O desafio não é apenas fazer sistemas responderem melhor, e, sim, fazê-los agir de maneira cada vez mais adaptativa em um mundo de cheiros, texturas, temperaturas, ruídos e nuances. Se antes a interface era uma tela, agora pode ser uma pele sintética.
Quanto mais a tecnologia passa a operar por voz, expressão, odor, temperatura, ritmo e presença, mais ela acessa camadas íntimas da experiência humana. Essa é a leitura do Sensorium, um dos cenários do estudo Macrotendências 2026-2027, do Lab de Tendências da Firjan IEL. Esse movimento abre oportunidades em áreas como cuidado, acessibilidade, indústria, saúde e educação. Também inaugura novas zonas de disputa: quem coleta esses dados sensoriais e quem os interpreta?
A grande inovação que temos visto em relação às máquinas está em torná-las mais sensíveis e, consequentemente, mais próximas daquilo que costumávamos considerar exclusivamente humano. O futuro próximo será atravessado por máquinas que tocam, cheiram, escutam, traduzem e, de algum modo, tentam participar da nossa vida sensorial. A máquina sente, vê, toca. E isso pode mudar o modo como reconhecemos nossa presença no mundo.
Coluna assinada em parceria com Isabela Petrosillo, Pesquisadora do Lab de Tendências da Firjan IEL.







