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Kika Gama Lobo

Por Kika Gama Lobo, criadora de conteúdo para a maturidade Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Escritora 60+, podcaster, palestrante, sócia da Festa Kikando e influencer da maturidade

A morte dos lugares que amamos. O meu “Leme” não existe mais

O bairro do Leme, como eu conheci, só existe na minha memmória

Por Kika_Gama_Lobo Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 26 Maio 2026, 10h25 | Atualizado em 26 Maio 2026, 10h40
Vista aérea em preto e branco da Praia do Leme, Rio de Janeiro, com centenas de pessoas na areia e no mar, carros antigos estacionados e circulando na avenida, e o Morro do Leme ao fundo
Imagem preto e branco do Leme antigo (web/blog Leme Antigo/Veja Rio)
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A morte dos lugares que amamos. O meu “Leme” não existe mais Priorizar nos meus resultados Google

Há lutos sobre os quais ninguém fala. O urbano. Voltei ao Leme, meu bairro de nascença e levei um susto. Lá foi um dos lugares aonde eu fui mais feliz.

Hoje poucos sobrou da minha memória afetiva com o começo de Copacabana. Aliás, dizem que o Leme ficou na moda, cool. Uma amiga de infância, antiga moradora como eu, da Atlântica, lacrou: Cool é a Coréia. O resto é blefe.  Pois então, senti um banzo, uma dor funda, silenciosa, como uma infiltração antiga que vai apodrecendo a casa por dentro. E tem diagnostico: É a morte dos lugares onde fomos felizes.

A maturidade traz essa estranha experiência: sobreviver às paisagens da própria vida.

Um dia você volta à rua onde cresceu e ela já não sabe quem você é. A padaria onde seu pai comprava pão aos domingos virou uma espelunca. A floricultura daquele senhor simpático desapareceu sob um bar chingling. O cinema onde aconteceu o primeiro beijo é agora um Hortifruti. A pracinha onde as mães conversavam enquanto as crianças brincavam virou dormitório de cracudo. Até a igreja parece menor, mais cansada, encurralada entre prédios sem alma.

E então entendemos uma coisa brutal: lugares também morrem.

Muitas vezes continuam fisicamente ali, mas mortos em sua essência. Como pessoas em coma, respiram sem presença. Permanecem apenas como cenário de algo que já não existe mais.

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Na juventude, acreditamos que pertencemos ao futuro. A cidade pulsa junto conosco. Cada esquina é promessa, descoberta, aventura. Não percebemos que estamos bordando memória nos postes, nas árvores, portarias, nos jornaleiros, nos vizinhos de janela. Só mais tarde entendemos que a nossa identidade também foi construída por essas pequenas permanências.

O velho porteiro que levantava a mão e dizia “boa noite, menina” sem jamais errar nosso nome. Santos e seu pai Salvador da banca que sabiam qual revista guardávamos. O cheiro do jasmim numa determinada rua ao cair da tarde. A amendoeira enorme que entrava pela janela do meu quarto. O cachorro que dormia na porta da vendinha. A mendiga louca que catava panos para destilar sua loucura. O mudo, figura lendária do Leme – que corria atrás das crianças do bairro. Pequenos detalhes sem importância para o mundo — mas fundamentais para a arquitetura emocional de uma vida.

Envelhecer também é assistir à erosão desses marcos afetivos.

E talvez por isso tanta gente mais velha se entristeça diante de cidades que os jovens consideram apenas “modernizadas”. Porque não se trata apenas de urbanismo. Trata-se de desenraizamento.

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Existe uma violência invisível na descaracterização dos lugares. Quando arrancam uma árvore centenária, não arrancam apenas madeira e folhas: arrancam sombras de conversas, beijos antigos, esperas silenciosas, memórias de infância. Quando fecham uma padaria de bairro, desaparece junto um pedaço da rotina afetiva de centenas de pessoas. Quando uma rua inteira muda de rosto, algo dentro de nós perde coordenadas.

Os mais jovens raramente compreendem isso porque ainda estão ocupados criando memória. Já os mais velhos vivem cercados de fantasmas geográficos.

Há uma dor específica em caminhar por uma rua que já foi sua e sentir-se estrangeiro nela.

Mais doloroso ainda é perceber a decadência dos lugares que um dia simbolizaram dignidade e beleza. Calçadas antes impecáveis agora tomadas por abandono. Prédios históricos cobertos de sujeira. Praças vazias. Fachadas pichadas. Gente dormindo nas portas dos edifícios onde houve festas, aniversários, natais. Como se a cidade inteira tivesse envelhecido sem cuidado — e junto com ela, nós também.

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Existe um momento duro da vida em que percebemos que os lugares que guardavam nossa juventude desapareceram antes mesmo de nós. Encontrei uns amigos no banco de praça em frente ao prédio da minha mãe. Achei todos um caco. Envelhecer não é para os fracos.

E talvez seja por isso que pessoas maduras precisem tanto de sinais de pertencimento. Não por apego vazio ao passado, mas porque a continuidade emocional depende dessas pequenas âncoras. Precisamos reconhecer algo para continuar nos reconhecendo.

Um ponto de táxi. Uma árvore. Um clube de tênis. Uma esquina. Um aroma.

Sobretudo os aromas.

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O perfume de uma árvore derrubada talvez explique mais sobre a passagem do tempo do que qualquer calendário.

Porque a memória não mora apenas na cabeça. Ela mora nos sentidos. No térreo onde morava a Leda e a Lúcia. Na portaria do Maracati. No cheiro de pão na madrugada . No barulho enlouquecedor do bar Gatão.

E há ainda outra tristeza silenciosa: ver envelhecerem as testemunhas da nossa história.

O vizinho que viu nossa adolescência agora já não lembra do próprio nome. A senhora elegante da janela tornou-se uma figura frágil e confusa. Os adultos sólidos da infância começam a desaparecer ou a se apagar lentamente diante dos nossos olhos. Eles carregavam a prova de que fomos jovens um dia. Sem eles, certas versões de nós também morrem. Lembrei da Julieta, da Celinha, da Suely. Que saudades da varanda na casa da Tia Vavá.

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Talvez amadurecer seja isso: aprender a conviver com cidades-fantasma dentro do peito.

Mas há também alguma beleza melancólica nisso tudo. Porque só sofre pela perda dos lugares quem, um dia, viveu intensamente dentro deles. Só sente esse vazio quem teve pertencimento verdadeiro. Quem amou uma rua como se ama uma pessoa.

E talvez os lugares mais importantes nunca desapareçam completamente. Viram saudade.

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