Cinquenta tons de prata: os grisalhos e o amor
Dia dos Namorados 60+. Quem decretou que não se pode mais amar?
Há uma cena recorrente na sociedade brasileira que me diverte e me irrita na mesma proporção.
Um casal de vinte e poucos anos se agarra no aeroporto e todos suspiram. Que lindo!
Um casal de setenta faz exatamente a mesma coisa e metade das pessoas desvia o olhar, constrangida, como se tivesse testemunhado um crime contra os bons costumes.
O problema nunca foi o amor.
O problema é a idade de quem ama.
Existe um preconceito silencioso, perverso e profundamente enraizado contra o romance grisalho. Uma espécie de censura afetiva não declarada que determina que, depois de certa idade, as pessoas deveriam se dedicar exclusivamente aos netos, aos remédios da pressão e aos streaming.
Paixão? Ridículo.
Namoro? Patético.
Sexo? Melhor nem imaginar.
Eis a grande hipocrisia.
Todo mundo quer envelhecer. Mas ninguém suporta a ideia de que velhos continuem vivos.
Porque viver de verdade inclui desejar.
Inclui flertar.
Inclui apaixonar-se.
Inclui sentir tesão.
A sociedade aceita rugas.
O que ela não aceita é o desejo que continua habitando dentro delas.
O problema é que o corpo envelhece. O desejo não necessariamente.
E aí mora o grande escândalo.
Porque o amor maduro desafia uma das maiores mentiras da nossa cultura: a de que envelhecer significa tornar-se assexuado.
Não significa.
Nunca significou.
Só que agora ninguém está mais disposto a fingir.
Os aplicativos de relacionamento estão cheios de pessoas acima dos 60. O fenômeno do aplicativo Inner Circle atrai um público maduro que já não tem paciência para joguinhos adolescentes. Quer companhia, conversa, viagens, sexo, parceria ou simplesmente alguém para dividir um vinho numa terça-feira.
Sem pedir desculpas por isso.
E talvez seja justamente essa liberdade que incomode.
A mulher de 25 anos que busca prazer é considerada moderna.
A mulher de 65 que compra um vibrador ainda é vista como uma figura exótica.
Por quê?
Quem decretou que o clitóris tem prazo de validade?
Quem decidiu que o desejo feminino deveria ser enterrado junto com a menopausa?
Aliás, a revolução silenciosa das mulheres maduras talvez seja uma das mais fascinantes do século.
Elas têm renda própria.
Têm autonomia.
Têm menos necessidade de aprovação masculina.
E, pela primeira vez na história, muitas não estão dispostas a trocar liberdade por companhia.
Milhares de mulheres passaram a viver uma liberdade que suas mães jamais conheceram.
Algumas escolhem um namorado.
Outras escolhem não ter nenhum.
Algumas mantêm relacionamentos não convencionais.
Viram gays.
Outros experimentam formatos diferentes.
Amizades coloridas.
Relações abertas.
Trios consensuais.
Experiências voyeuristas.
Aulas de pole dance.
Casas de swing.
Quem decidiu que a curiosidade humana expira aos 65 anos?
Existe uma espécie de licença social para a ousadia dos jovens.
Já os mais velhos parecem obrigados a pedir autorização.
Ora, se todos os envolvidos são adultos, conscientes e felizes, por que alguém de fora deveria se incomodar?
O verdadeiro escândalo
Não são os romances maduros.
Não são os aplicativos.
Não são os namorados.
Não são os brinquedos.
Não são as pistas de dança, os motéis, as viagens ou as aventuras tardias.
O verdadeiro escândalo é a sociedade continuar tratando a velhice como uma sala de espera para a morte.
Porque não é.
A maturidade pode ser uma fase de extraordinária potência afetiva.
Talvez a última grande rebelião contemporânea seja justamente esta:
envelhecer sem pedir desculpas.
Amar sem pedir licença.
Desejar sem sentir vergonha.
E beijar em público sabendo que alguém vai torcer o nariz.
Afinal, depois de uma vida inteira acumulando cicatrizes, boletos, lutos e aprendizados, talvez exista um luxo maior do que qualquer patrimônio.
O luxo de continuar apaixonável.
E, melhor ainda:
Continuar apaixonado pelo próprio desejo
Feliz Dia dos Namorados para você que é 60+.







