“Saara psicológico”: o tédio como lição
É quando bate aquela frase indecente: “Será que era só isso?”
Tem uma hora da vida — ali pelos sessenta anos em que a paisagem interna vira um Saara psicológico. Não venta, não chove, não brota. Um silêncio quente, meio pegajoso, que não chega a ser depressão clínica, mas também está longe de ser aquela alegria performática que a gente fingia no auge dos convites.
É o tédio. Mas não esse tédio de domingo à tarde sem Netflix. É um tédio existencial, com CPF e memória afetiva. Um tédio que sabe exatamente onde você achou que ia chegar — e não chegou.
E não adianta fugir. Não tem aplicativo, não tem vinho caro, não tem viagem para a Toscana que resolva esse banzo mental que aparece sem pedir licença, senta no sofá e ainda escolhe o canal.
Porque ele vem carregado de uma contabilidade invisível: os projetos não realizados, os amores que não vingaram, o dinheiro que escapou pelos dedos, as versões de você mesma que ficaram pelo caminho.
É quando bate aquela frase indecente: “Será que era só isso?”
E aqui vai a parte indigesta: às vezes… era.
Mas calma.
Essa neurose produtivista travestida de “recomeço” é só mais uma maquiagem — e a gente já gastou uma fortuna tentando parecer o que não era.
O desafio — e que desafio — é outro.
É equacionar monotonia com ação sem virar refém de primeiro lugar.
E nisso, desculpem os jovens, mas a turma 60+ leva vantagem. Porque já caiu do cavalo algumas vezes, já assinou contratos furados, já amou errado, já quebrou a cara e — o mais importante — já entendeu que nem tudo precisa virar épico.
Talvez o caminho seja menos sobre fazer mais e mais sobre fazer com verdade.
Que tal um inventário emocional, sem autoengano?
— O que ainda pulsa, mesmo baixinho? — O que ainda irrita (porque irritação também é energia)? — O que dá uma pontinha de curiosidade?
E aí, sim, uma pergunta quase insolente: que atitude mínima isso pede?
Não precisa virar best-seller — pode ser escrever uma página. Não precisa abrir uma empresa — pode ser vender uma ideia. Não precisa operar a cara inteira — pode ser a blefaroplastia. Não precisa comprar a casa de campo — pode ser alugar um fim de semana e curtir o mato com alma de dono.
Porque, veja bem, o tédio não é só um inimigo. Ele é um mensageiro meio grosseiro. Ele diz: “isso aqui não te serve mais”. E ponto.
Romantizar o tédio é cafona. Mas ignorá-lo é burrice.
Quantas noites você já passou em claro, encarando o teto como se ele tivesse respostas? Pois é. O teto não responde. Mas ele revela.
Revela o desconforto de não ter sido tudo aquilo que você imaginou — e, ao mesmo tempo, a liberdade brutal de já não precisar ser.
Existe uma dignidade enorme em recalcular rota sem plateia. Anota essa frase. Porque quando não temos ninguém para agradar, ali mora a verdade.
O Saara psicológico não vai virar Inhotim. Mas, com alguma sorte e menos autoengano, dá para encontrar um oásis — pequeno, meio capenga, mas seu.
E talvez seja isso que reste — e que baste: não uma vida extraordinária, mas uma vida minimamente honesta consigo mesma, onde o deserto seja o que restou.





